แฟ้มประวัติIsabel Rosete: excertos ...รูปถ่ายบล็อกรายการเพิ่มเติม เครื่องมือ วิธีใช้
15 กันยายน

SOMOS AMANTES

 

Somos amantes

Inter-seccionados

 

Esquecemos o Mundo

 

Fechamo-nos

Nas nossas próprias conchas…

 

Esquecemos os homens

 

Queremos ser só nós

Nada mais importa…

 

O Amor preenche-nos

Por completo

 

Alimenta

Os nossos corpos

Ardentes…

 

As nossas almas

Inundadas

Da mais intensa alucinação…

 

Temo-nos um ao outro

E isso basta…

 

É mais do que tudo

Está para além do Nada…

 

Tornamo-nos esféricos

Auto-suficientes…

 

Esquecemos

O próprio Universo

 

Somos o mesmo corpo

A mesma alma

O mesmo sangue

O mesmo plasma

A mesma pele…

 

Somos um só organismo

Que se auto-preenche

Sempre prenhe de fertilidade…

 

Esquecemos a vida

Cá fora

Repleta de futilidades….

 

Esquecemos a morte

Somos eternos…

 

 

Isabel Rosete

(06/08/07)

 

  

SINTO A HUMANIDADE

 

Sinto a Humanidade

Penso nos Homens

No mundo que construíram

Em pleno estado de combustão

 

Os meus horizontes auditivos alargam-se

Escuto o pulsar inquietante

De todos os corações aflitos

Amargurados

Despedaçados…

 

Já não ousam sonhar

Já não ousam ter esperança

Mesmo que

Numa aura longínqua

Sintam

Pressintam

A vizinhança

Da salvação

 

Violência

Crime

Desrespeito

Pelos direitos fundamentais

Da Pessoa Humana

Enchem a panóplia

Do mundo em que vivemos...

 

 

Isabel Rosete

(14/07/07) 

PENSAR A HUMANIDADE

 

 

Pensar a Humanidade…

É descortinar o abismo do Ser

O inquietante momento originário

Do Tudo e do Nada

 

Pensar a Humanidade…

É presentificar

A metamorfose

A mudança

As múltiplas faces

De entes camalionicos

De entes que vagueiam

Em derredor

Do seu próprio círculo

Descentrado

Do ponto-chave

Da gravitação

Universal…

 

Pensar a humanidade…

É o des-velar de caminhos cruzados

E entre-cruzados…

 

De encontros

E desencontros…

 

Do determinismo

Da liberdade…

 

Do livre-arbítrio

Da vontade…

 

De uma racionalidade

Que apesar

De todos as calamidades

Ainda se considera imaculada…

 

Nascemos com o rótulo

De “animais racionais”…

 

Mas o que diremos

Dessa “racionalidade”…?

 

Perante o vandalismo

O des-equilíbrio

O caos…

 

A inversão dos valores

A indignidade

Do ser Pessoa

A des-humanidade…

 

 

Isabel Rosete

(14/07/07 - 5.00h)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

NÃO SEI VIVER

 

Não sei viver

Sem sonhar

Sem o prazer

Imenso

De uma terrível

Ou doce ilusão

 

Sair

Evadir-me…

É uma necessidade

Cada vez mais

Imperiosa

 

Preciso viver outros mundos

Outros espaços

Outras gentes

Outras realidades

Outros universos

Outros planetas

Outros…

 

Como se a realidade

Presente

Esta em que vivo

Se esgotasse

Num instante

 

Ficasse vazia

Sem essência,

Sem nada

 

O Mundo é

Tão grande

E tão pequeno

Ao mesmo tempo…

 

Esmaga-me

Transporta-me

Para outros lugares

Reais

Ou imaginários

 

Preenche-me

E torna-me vazia

Num paradoxo infinito

De um jogo de forças contrárias

Em atracção

E exclusão

Permanentes…

 

 

Tudo morre

Tudo nasce

Tudo se transforma

 

Nada permanece…

Nada permanece…

 

A perpétua mudança

Instaura-se

Num equilíbrio indelével…

 

E o Ser está aí

Permanecente

Em cada alvorecer

Em cada desfloramento

Ocultando-se

De todas as coisas…

Desvelando-se

Em todas as coisas…

 

 

Isabel Rosete

06/08/07

  

EIS A VIVA EXPRESSÃO

 

Eis a viva expressão

Por finos traços

De quem agarra a vida

Por todos os fios

Possíveis

De um imaginário

Sempre reprodutivo

 

Quais traços

Que descem

E ascendem

Em múltiplas direcções

 

Indicam o infinito

Que nos apraz bem

 

São múltiplos os caminhos

Não todos os caminhos

 

Mas os caminhos das palavras

Das notas

Que preenchem a partitura

Que torna presente

Todos os sons

 

Há sempre um som que nos embala

Que nos faz vibrar

Estremecer ou sonhar

Por entre as linhas

Nem sempre unidas

Dos finos traços

Que delineiam os caminhos

 

O chamamento do som

Emerge

Que grande promessa…

 

O som estridente

Cristalino do sino

Semi-oculto

Semi-descoberto

Que envolve o corpo e a alma

De quem ainda sabe escutar

 

A escuta

Qual motor do mundo

Que faz mover o pequeno corpo da bailarina

Cujos gestos

Mesmo os mais simples

Manifestam a pureza

De uma alma

A nobreza de um carácter

Em momentos

De perpétua comunhão

 

Esse corpo e essa alma

Que fundidos

Se dão a outros corpos

E a outras almas

Nunca em vão…

 

Dançam ao som

De todos os acordes

Fazedores do renascer

Em cada instante

De um Ser outro

De um Ser

Sempre renovado

Algures

Camuflado

No seio

Da nossa própria interioridade…

 

 

Isabel Rosete

(1999)

 

  

UM OUTRO...

 

Um outro…

 

Sempre em ânsia pela hora

Em que chegará essa criatura

Que tanto amo.

 

Criatura?

Sim.

Porque não?

 

Todo o ser humano é uma criatura,

Quiçá,

Uma bênção de Deus,

Uma dádiva da Natureza…

 

Trabalho e penso no seu rosto,

A cada instante.

Nesse jeito calmo de ser,

Terno,

Com um cheiro de malícia

E extrema sensualidade

Inconfundível

Que percorre todo o seu corpo

E a sua alma.

 

Uma alma que vive intensamente

Cada momento

 Da sua existência individual e colectiva,

Como se cada momento fosse

 O último da sua vida…

 

Respira e expira a própria vida;

Sempre a expira pelas largas narinas

Desse rechonchudo nariz,

Que diz,

Ser a única peça que não se harmoniza

Com o seu rosto moreno,

Moreno – bombom…

 

Aí estão apensos uns profundos olhos negros,

Que dizem ver sempre mais longe,

Até mesmo nos olhos dos outros,

Quando os observa

 Na mais profunda intensidade;

Sem pestanejar,

Tão fixamente,

Como as estrelas que,

No céu estrelado,

Mantêm o seu brilho.

Um brilho denso… quase eterno…

 

São pérolas negras

Que fustigam o meu olhar,

Que me trespassam

Na minha própria visceralidade,

Tal como a penetração

Do seu membro erecto

Que encaixa e rodopia no fundo da minha intimidade.

 

Há sempre uma certa magia

Em todos os seus actos,

Em todos os seus gestos…

 

Na sua voz grave,

Ao mesmo tempo,

Doce e terna,

De sons gerúndios,

Como é típico de todo o ser da América do Sul.

Essa magia apaixona,

Fascina,

Atrai,

Como um hímen a limalha de ferro.

 

De repente,

Penetra-nos,

Quase sem darmos por isso.

 

Envolve-nos num misto de sedução,

De prazer e de felicidade,

Que não é momentânea…

 

Perpetua-se em cada sinal,

Em cada movimento

 De um corpo deambulante,

Exemplificante da singularidade

 Da alma que o habita;

 

Tão livre como a da ave que,

A qualquer momento,

Sabe que pode abandonar a sua gaiola,

Mas não a sua prisão.

 

Vagueara,

Quiçá, sem destino,

Pelas múltiplas paragens da vida

E de todos os destinos humanos.

 

A atracão que exerce

É estranhamente intensa,

Torna-se quase inexplicável,

Indizível…

Inefável…

Pertence ao domínio inviolável do SENTIR,

Excedendo todo o campo semântico,

Por mais Intenso e rico que ele seja.

 

Tem um toque diferente,

Como,

Se às vezes,

Pertencesse a um outro mundo,

A um outro espaço,

Que extravasa a vulgaridade

De todas as possíveis vivências quotidianas.

 

Mantém tudo no seu preciso lugar,

Como se em si residisse,

Irremediavelmente,

Um “lugar natural”,

Um topos para cada coisa.

Todo o desvio é assumido como uma violação inevitável.

 

A sua presença é tão envolvente,

Tão cheia,

Tão redonda,

Que nada pode deixar de fora.

 

E aí permanece

Como a aranha na sua própria teia.

 

Todos os seus movimentos

Rodopiam nas malhas dessa teia gigantesca,

Abrangedora de tudo o que o rodeia,

Até mesmo de tudo aquilo

De que não tem consciência imediata.

 

O seu estar

Presentifica o próprio Universo;

Como se só existíssemos os dois;

Como se isso

A que chamamos realidade

Entrasse em nós,

Totalmente.

 

Nada,

Absolutamente nada

Pode estar fora do nosso alcance.

 

Emerge a sensação de absoluto,

De Totalidade,

Como se nós e Mundo

Fossemos uma e a mesma coisa.

 

Todas as dualidades desaparecem.

A união das partes é,

De tal modo,

Plena,

Que a divisibilidade não tem lugar,

Em nenhum momento.

 

Em nós,

Permanece o Cheio,

O Aberto,

Em perfeita comunhão.

 

E a vida,

Apesar de todas as adversidades,

Torna-se tão simples,

Tão singela,

Tão leve,

Tão radiosa,

Tão apetecível,

Que o próprio dormir

Não é efémero,

Mas um eterno momento de serenidade,

De paz,

Tão sólida e inevitável,

Que nada parece poder deixar de alcançar.

 

Sempre que esses dois seres se unem,

Até ao mais íntimo de si mesmos,

O mundo,

Neles também penetra,

Na forma da mais pura e bela gratuitidade,

Que alguma vez

Se possa sentir ou imaginar.

 

A “paz perpétua” assoma,

Mesmo nos momentos

Onde se gera a agonia,

A ansiedade,

A angústia,

Quando extravasa,

Pelo álcool,

O néctar dos deuses,

Os limites da dita racionalidade,

Da dita sobriedade...

 

São esses os momentos de excesso,

Da pura embriaguez catártica.

 

Os meandros,

As fronteiras,

Do seu pensamento,

Esbatem-se

Até às lágrimas.

 

As ideias,

Os sentimentos

E pressentimentos,

Fluem,

Transbordam,

Como um rio,

Do seu próprio leito.

 

Há,

Nele,

Um excesso de caudal

Que só a embriaguez despoleta.

 

Depois,

Volta ao silêncio;

Ao silêncio da voz.

Mas nunca ao silêncio do pensar.

 

São os momentosos da introversão que,

A catarse da embriaguez,

Voltará,

Depois,

A fazer brilhar.

 

Mas com tanto sofrimento,

Com tanta angústia,

Que o mundo parece desabar.

 

A queda é, assaz, efémera,

E logo do caos se ergue,

De novo,

A ordem,

Quando diz: “acordar para a realidade”,

Numa necessidade

De dela sempre se evadir…

 

Este é o comportamento típico

De todo o ser sensível,

Plenamente consciente

Das atrocidades da Existência humana,

Em pleno

E permanente sobressalto.

 

Urge esquecer tudo,

Entrar numa outra ordem,

Num outro espaço,

Trazido por todos os alucinogénios.

 

E, nem por isso,

A ressaca,

É assim tão terrível…

 

A lucidez parece nunca ser

Totalmente perdida.

É apenas desviada

Para outras paragens,

Que a imaginação

Requerer percorrer.

 

O mundo e os homens

Obrigam-nos a esse esquecimento,

Em prol,

Mesmo,

Da mais efémera ilusão de serenidade.

 

Nestes momentos,

Torna-se um outro de si mesmo.

O seu corpo

Lânguido,

Derrubado,

Perde toda a sua natural sensualidade magistral.

 

Vacila entre o Ser e o Não-ser,

Entre o tudo e o nada,

Como se quisesse penetrar,

De um modo hiperbólico,

Nas entranhas de tudo,

 

Como se fosse uma cobra

Que entra pelo meio do silvado

 E que,

Depois de estarrecida,

Aí permanece exposta,

Desarmada,

Porque exausta,

Depois de ter comido a sua presa.

 

Não tem mais forças para se erguer.

Quebrou todos os escudos,

Tornou-se completamente indefeso,

Confundindo-se com o próprio chão,

Onde caiu

E amoleceu instantaneamente.

Sem mais…

 

Aí permanece estendido,

Não com os olhos penetrantes,

Fulminantes,

Mas amortecidos,

Semicerrados,

Pelo excesso que neles assoma,

Oriundo da aura que espelham.

 

A alma,

Também ela derretida,

Despedaçada,

Sempre à espera de um novo reencontro consigo mesma,

De mais um nascimento,

Entre tantos outros passados

E entre tantos outros que possivelmente

Se adivinham…

 

                                                                                  Isabel Rosete

                                                                                  02/02/2001

 

 

 

 

  

AMAR É O DESESPERO DE UM CORAÇÃO CARENTE

 

Amar é o desespero de um coração carente

À procura da outra metade que o complete

 

Somos incapazes de nos completar a nós mesmos

Precisamos sempre de um outro

Qualquer um outro…

Procuramos o outro de nós…

 

Essa terrível e eterna dependência do outro

Que não conseguimos

Encontrar em nós …

 

Que desgraça

A do coração humano,

Sempre em falta,

Irremediavelmente só e despedaçado

 

Lamenta,

Lamenta-se…

 

Não sabe estar só,

Dialogar consigo mesmo

 

Encontra,

No seu âmago,

O vazio

Do seu próprio preenchimento

 

Amar,

É coisa dos homens

Sem dúvida

Desses seres solitários,

Incapazes de percepcionar

A solidão como outra forma de amor:

O amar-se a si mesmo…

 

E isso não basta,

A estas criaturas errantes?

 

Não

Não basta…

Nada basta…

 

Há sempre um mais e um depois,

Que aflora

Em todos os pensamentos,

Até mesmo,

Nos mais recônditos,

Inconscientes….

 

 

    Isabel Rosete

   09/05/20007

   (6.00h)

 

 

 

  

ANGEOLOGIAS EM PROSA POÉTICA

 

ANGEOLOGIAS EM PROSA POÉTICA

 

 

Entrar no universo dos Anjos.

 

Uma metafísica angeológica se nos impõe.

 

Mas também uma ontologia

uma diferença ontológica,

uma escala de gradação de entes,

de criaturas,

na sua irredutibilidade ontológica,

ou “enteológica”,

uma diferenciação topológica e cronológica,

no traço invisível da dualidade cosmológica.

 

Dois mundos completamente distintos se presentificam,

se interpenetram,

pelo mais ténue sopro que choca com o rosto dos homens,

um sopro oriundo de um a presença incógnita,

que se sente e presente, mas que não se vislumbra mais…

 

Pela mão que toca no ombro, num momento de angústia

ou de desespero existencial,

para acalmar, apaziguar…

ou para trazer a esperança da vinda de um mundo mais radioso,

isento de vazio e de solidão.

 

O toque de uma mão também não vista,

mas incomensuravelmente sentida,

por um encéfalo,

fonte de inteligência,

de recordação e de afecto,

que comunica monadicamente com outros encéfalos,

no seio da multidão,

da massa humana indiferente e indiferenciada,

do caótico trânsito da cidade minada por projectos ideias,

onde ainda se medita,

em escassos momentos,

sobre o sentido da vida e da morte, do ser, do não-ser e do nada…

em busca de um caminho que entrelaça o mesmo “jardim de caminhos que se bifurcam”, entre uma visão a cores e outras a preto e branco.

 

Sim, “os caminhos que se bifurcam”.

Qual universo borgesiano,

onde,

a cada passo,

se ergue um labirinto,

no qual todos os homens se perdem…

 

Um labirinto perdido, infinito,

um labirinto de labirintos.

O labirinto do Minotauro…

 

Um sinuoso labirinto crescente,

abarca o passado e o futuro,

envolvente,

ao mesmo tempo que indeterminado

e proporcionador de um conhecimento

abstracto do mundo.

 

De longe se vislumbram os restos de tarde,

entre os caminhos que se bifurcam,

entre as várzeas indistintas…

 

Paira uma música, ao mesmo tempo aguda, grave e inquietantemente suave,

agressiva e embaladora, mágica e embriagante.

 

Silábica se aproxima a melodia,

ao mesmo tempo que afasta,

no vaivém do vento que as folhas faz mover.

Encaminha os bandos de pássaros que o céu povoam,

como nuvens escuras,

anunciantes de tempestades...

 

E aí se encontram os Anjos,

no alto,

eternos observadores dos homens;

mensageiros,

comissionários das palavras,

anunciadores,

intermediários,

companheiros,

guardas e sombras dos homens.

 

De assas brancas ou negras,

neste tempo de indigência,

são entes alados,

vagueantes num espaço atópico,

num tempo intemporal,

num tempo redondo,

num espaço e num tempo outro,

fora do alcance dos homens.

 

Atentamente viajam,

vigiam e escutam,

penetram na interioridade dos homens,

eles que são “Nada”,

e estes “Tudo”...

 

É o mundo dos Anjos,

eternamente invisíveis,

sempre “tão longe e tão perto”,

“nas asas do desejo”,

entre o mundo dos homens,

da efemeridade do visível,

das coisas mutantes,

da permanente metamorfose,

da qual não temos fuga possível,

até que a morte nos separe,

até que vejamos esse outro lado da vida que não está iluminado,

virado para nós…

 

Assim nos informou Rilke,

o poeta do Anjo belo e terrível,

consagrado islamicamente,

nessa vida confinada à celebração da Vida,

à morte e aos amantes,

aos terrestres e aos celestes,

ao Aberto,

à Terra silente,

que grita desesperadamente

perante o ruído ensurdecedor das máquinas…

 

Isabel Rosete

2 de Fevereiro de 2005 

PENSAR

 

Pensar

 

Pensar é ver as estrelas,

Que um dia,

Desabaram sobre o tecto do Mundo.

 

Pensar é ler o além, tão esperado,

Como desesperante,

Face ao ministério do mundo,

De que apenas temos sinais,

Signos e vestígios de signos.

 

Vem o martelar da água salgada nas rochas,

Que habitam as praias desertas;

Essas, onde passam,

De sobrevoo,

As gaivotas

E, por vezes,

Os homens

Em busca da serenidade

Outrora perdida.

 

Deambulam pelas areias movediças,

Autênticos palcos do mundo

Onde constroem e destroem

As suas próprias moradas.

 

Uma linguagem incompreensível

Vocifera das suas próprias bocas,

Com o sabor amargo

Da vida não vivida

Em terreno firme.

 

A vida,

O trampolim,

A barra olímpica

Onde caminhamos em perplexos des-equilíbrios,

Ao sabor do vento

Que bole nossas pernas trôpegas,

Como se mal tivéssemos começado a andar.

 

Nada se fixa no e sobre o homem.

E se o mundo é composto de mudança,

A metamorfose é o traço do viso desta humanidade,

Que a ritmos triclitantes,

Cresce dentro desse ser cheio de vazio que somos,

Cada um de nós,

Um dia rotulados de “animais racionais”,

Pretensamente,

Supostamente,

Pensantes,

Inteligentes,

Portadores de um raciocínio lógico-discursivo,

Hipoteticamente emersos do melhor dos mundos possíveis,

 

E, afinal,

O que queremos de nós,

Seres errantes?

 

E o que queremos do Mundo

Que em torno de nós

Se move

A uma velocidade incomensurável?

 

Ou desfazemos essa aura de entes

Onde fomos depositados,

Um dia,

Sem que o nosso querer

Fosse chamado a opinar

Sobre esse modo de existência de caos e de ordem

Que, afinal, nos caracteriza,

De que somos co-autores e co-produtos

Voluntária ou involuntariamente?

 

Perdemos o rumo,

O norte.

Mas encontrámos o fio de Ariana

Que comanda o nosso Destino.

Destino?

Mas que Destino?

O de sermos uma humanidade emaranhada

Nos nós da sua própria teia?

 

Ariana e a aranha

Estão sobre a caução de um certo e mesmo invólucro,

Tão opaco, como transparente,

Tão sublime, quanto miserável.

 

E, apesar disso,

Ainda podemos falar

Da harmonia heracliteana dos contrários?

Do caos criativo que,

Quiçá,

Gera a nossa própria ordem desordenada?

 

Definitivamente,

Somos viandantes.

Passageiros de múltiplas paragens,

Sem lugar certo e determinado,

Sem pátria, sem habitação, sem morada…

Permanecentes metamorfoses de espaços de combustão,

Do Tempo finitamente infinito,

Que também nos domina,

Enquanto temos a vã pretensão

De o controlar pela minuciosa máquina

Que o nosso pulso suporta,

Sempre voltada

Para os nossos olhos ansiosos

De um tempo outro,

Onde qualquer ideal possa ser consumado,

De preferência, “ad eternum”.

 

Que ilusão, somos nós,

Homens!

Entes de palpites inconstantes

No pulsar do mundo

Que nunca adormece.

Desse mundo inquieto,

Por vezes,

Turbulento,

Que gira sobre nós próprios,

Que nos faz mover

Dentro e fora das nossas órbitas,

No espaço debilitado da nossa condição

De estritos seres de passagem,

Em digressão,

Sabe-se lá para onde…

 

Os pratos da balança

Já não se equilibram mais.

A medida certa acabou.

A incerteza,

A dúvida,

É o paradeiro do nosso próprio caminhar

Em terreno

Irremediavelmente movediço,

Ao mesmo tempo que estanque…

Sempre nos prende as pernas,

Sempre trava o nosso caminhar.

 

Que ilusão, a dos homens,

Em querem ser senhores,

Dominadores do universo,

Físico e humano,

Que escassamente habitam.

 

E o Mundo está aí.

Permanece imutável,

Na sua essência,

Apesar de todas as investidas de uma humanidade,

Sempre solitária

Que acompanha o furor

Das multidões em revolta,

Contra o imposto pelas Instituições,

Pela Natureza;

 

De uma humanidade que,

Um dia,

Alimentou a vã ilusão de Tudo manipular,

De ser a gestora de um Universo que,

Amiúde,

Gosta de se esconder,

Na sua mutabilidade camaliónica.

 

 

  Isabel Rosete

  19.01.2001

 

 

 

  

ODEIO A HIPOCRISIA

 

Odeio

A hipocrisia

A solidão das multidões

Que crescem

Em espaços vazios

Dispersos

Indiferentes…

 

O outro

Ali apostado

Atónito

Num mundo que não é mais só seu

 

As viagens são múltiplas

Os caminhos diversos

Os do Ser e os do não-Ser

Os do Nada…

 

A metamorfose

A mudança

Comandam o mundo

 

O Ser não permanece mais

Na sua imutabilidade originária

 

As sombras

As aparências

Ofuscam o olhar

Dos que querem ver

A essência

O miolo

De um pão bolorento…

 

A identidade perde-se

Somos o mesmo rebanho

 

Corremos na mesma direcção

E já nada identificamos com precisão

 

A amalgama do mundo

Corre nas nossas veias

 

Do caos faz-se a ordem

Do império da Razão

Transmutamo-nos

Para o reino dos sentidos

Holisticamente conjugados

Numa teia emaranhada

De sendas e vendas

Num regresso à unidade primordial

 

Odeio

O “politicamente correcto”

A ausência de Ética…

O falso puritanismo

Dos não puritanos

A pretensa intelectualização

Dos pseudo-intelectuais

Os rótulos existenciais

Dos que ignoram a diferença

Dos que lutam em prol da diversidade

 

Odeio

Os que vivem da vulgaridade

De um estar que não é o seu

Os que ultrapassam

As barreiras do humanismo

 

Odeio

Os discursos retóricos

As palavras que iludem a alma

E que nada dizem

 

Esses discursos demagógicos

Que ludibriam a Razão

Que enternece os inocentes

Com falsas promessa

Sempre adiadas…

Nunca cumpridas…

 

Odeio

A guerra

As matanças desenferadas

Dos povos desprevenidos

Dos que vivem em paz perpétua

E não ficaram

Para escrever outros opúsculos

 

Odeio

O Mundo na sua prepotência

Os estados totalitários

Tirânicos

Opressores dos oprimidos

 

Odeio

A má fé

Os sorrisos abertos

Dissimulados

Que aniquilam os outros

 

Odeio

As gentes

Que não sabem distinguir

A realidade da aparência

A sombra do arquétipo

A cópia do modelo

 

As mentes transviadas,

Eternamente transviadas

Em pleno caos intelectual

Em permanente desvairo

Mergulhadas num espaço quadrado

Onde todas as ideias

Esbarram em todos os vértices…

 

Odeio

As pretensas acções morais

De todos os Narcisos

Esquecidos dos deveres para com o outro

 

Odeio

A Humanidade

Pela ausência de solidariedade

Para com as causas mais nobres,

As menos vísseis

Pela propaganda enganosa

Que fez da caridade

Um verdadeiro momento de glória…

 

Odeio…

Odeio…

Odeio tanta coisa…

Neste Mundo que age

Inconsciente

Em nome de vã glória…

 

È tudo tão descartável

Que os Homens já não sabem mais

Qual o seu topos originário

Há muito perdido

No Labirinto do Minotauro

Sem nenhum fio de Ariana

Por perto…

 

Isabel Rosete

 

9/6/2007

(5.50h)

 

  

NÃO POSSO PENSAR

 

Não posso pensar

No rosto dos homens

Sem ver o interior

Da sua Alma…

 

Cada acto

É um sinal

Visível

Desse interior…

 

Em fragmentação

Em sobressalto

Em agonia

Em prazer

Em comoção…

 

Tudo se passa

Como se alguma coisa

Lhe faltasse

 

Um sorriso

Por vezes

Doce

Por vezes

Pardacento…

 

A Alma humana

Destituiu-se de si….

 

Paira

Na bruma

Das tardes cinzentas

Sem paz…

 

Percorre

Os infinitos caminhos do Mundo…

 

Procura o Paraíso

Em todos os corpos outros

Sem saber

Qual a sua linhagem…

 

Ofusca-se com os raios do Sol

Vagueia pelas ondas do mar

Revoltoso…

 

Parceiro dos ventos do Norte

Que consigo

Tudo arrastam…

 

A Alma

Esse sopro de Vida

Não cabe mais

Dentro dos seus próprios limites…

 

Transcende-se

Rumo ao encontro

De todos os desencontros

Ao impossível de todos os possíveis…

 

Evada-se nas densas dunas

Das praias desertas

Onde se respira

A virgindade da Natureza…

 

Onde se escutam

Os sons primeiros

Vindos das profundezas

Do mar

Salgado…

 

Ora verde

Ora azul

Ora vermelho

Pelo sangue dos corpos

Nele derramados…

 

Quantas batalhas

Quantas guerras

Nele foram sepultadas…

 

A Alma humana

Co-afim com o mar…

 

Em revolta

Se move

Em calmaria

Se descobre…

 

A eterna beleza das coisas simples

Que escapa

Ao turbilhão do mundo…

 

 

Isabel Rosete

(06/o7/o7)

 

 

 

  

CONTRADIÇÕES

 

Contradições

 

Vivo o intenso desespero do ser e naõ-ser ao mesmo tempo,

Do querer e do não querer,

Do considerar que posso ser feliz,

Mas ao mesmo tempo de me ver impotente

Para alcançar essa felicidade,

Tão desejada…

Tão esperada…

Eternamente vivida num tempo outro

 

Luto drasticamente contra mim mesma

Para realizar os meus sonhos

Ao mesmo tempo,

Não sei se vale a pena

 

Estou farta de lutar contra mim,

Contra o mundo que não me compreende

E no qual não me integro

 

Sinto-me “atopos”,

Quiçá,

“Persona no grata”,

Ao mesmo tempo que desejada,

Amada,

Odiada,

Perseguida pela inveja,

Pela tentativa de aniquilação dos outros

Que me rodeiam,

Sempre dispostos a destruir o meu sossego psíquico,

O meu equilíbrio espiritual…

 

Mesmo assim,

Permaneço,

E Aqui estou…

 

Isabel Rosete, 17/01/2003 

AMO O SOL

 

Amo o Sol

Tudo o que brilha

Numa intensa e vã agonia

 

As palavras soltam-se

Da minha boca

Como dados certeiros

 

Aos homens se dirigem

Visam o seu rosto

Dependurado na face do mistério

Nos terrores da guerra

Na s faces sanguinárias

De todos os opressores

Nos medos das gentes

Acabrunhadas

Maltratadas

Em nome de um tal dito progresso

 

Amo a Lua

E as suas diversas caras

As caras de todos os outros

Escondidas noutras faces

Ocultas

Veladas

Pesadas

Por vezes,

Serenas…

Marcadas pelas cicatrizes da vida

Que nada perdoa

Amarga e doce

Com espinhos

Aveludadas pétalas

Envolventes do nosso ser-aí

Inquietante

Medonho

Ordinário e Extra-ordinário

Descomunal

Vil

Monstruoso e pacificante…

 

Amo a Criatividade

Originalidade

De animais castradores…

 

A morte do outro

Apraz-nos bem

Engrandece o Ego

Sempre em busca de auto-satisfação

Mesmo que seja com a desgraça dos outros…

 

Quem disse que o homem

Nasce naturalmente bom?

 

Quanta ilusão

Quanta alucinação

 

Aparência,

Aparência da aparência…

 

O brilho de Apolo

Contra a lucidez dionisíaca

O imenso

A embriaguez

O instinto

O hiperbólico

A grandiosidade

Do “crescendo”

De todo o acto de criação…

 

Não

O artista não é um imitador

A arte não é mimésis

A arte dá-se no desflorar da verdade

No brilho da sua adveniência

Que é o Belo

 

Na plena libertação dos sentidos

E do sentir…

 

È matéria e forma

Talento e génio

O dizível e o indizível

O latente e o manifesto

O in-habitual

Uma outra mundividência

Que nos aliena do quotidiano

 

Uma dádiva epifânica

Que aí se mostra

E sempre nos fala

Do íntimo

Das coisas-mesmas

Sempre tão próximas….

Sempre tão distantes…

 

Amo a Arte

A mais nobre invenção do espírito humano

Que a si tudo chama,

Clama…

Canta…

Eterniza

Epifaniza

 

Na mostração de um tempo outro

O artista dá-se

Na sua identidade

Iluminatória

 

Um ente hábil

Que tudo vê

Que tudo acolhe

Recolhe…

Escuta

Com as orelhas da Terra

Em permanente grito de alerta,

Contra as investidas tecnológicas,

Contra os desequilíbrios ecossistemáticos,

Contra as malhas

Artimanhas do progresso

Que sempre avança

Sem auto-crítica

E racionalidade…

 

 

                                                                                  Isabel Rosete

                                                                                  26/05/2007

                                                                                  (17.ooh)

 

 

 

 

 

 

  

AMAMOS OS OUTROS...

 

Amamos os outros…

Mas não amamos

Os outros…

 

Amamo-nos a nós mesmos

Centros de todos os Mundos

De todos os Universos

De todos os espaços siderais

 

O egocentrismo

É a nossa

Marca perpétua

 

A alteridade

Está aí

Vemo-la

Escutamo-la

Mas recusamo-nos

A senti-la

 

Queremos o outro

Mas não queremos o outro…

 

Queremo-nos a nós mesmos

Em nós mesmos

E não no outro

 

Fazemos sempre do outro

O outro de nós

 

Giramos em círculo…

Nem sempre perfeito

Em torno do outro

De nós mesmos

 

Um eterno retorno

Ao Ego

É a marcha

De todos os nossos dias

 

 

Bifurcamo-nos nos caminhos dos outros

Para nos encontramos

A nós mesmos

 

A permanente busca da Identidade

É traço do nosso destino

Errante…

 

 

Isabel Rosete

6/08/07

  

AMO

 

Amo

Não sei bem o que amo

 

Tenho medo de amar

De voltar a sofrer

De voltar a sonhar…

 

As ilusões crescem

Quando se ama

 

Emerge

A dor

A insatisfação

A insanidade e a insensatez

A cólera…

A presença ausente de um outro estado

Sempre inacabado…

Sempre adiado…

 

Caminhos que não conduzem

A parte alguma

Espreitam-nos no amor

 

Nos caminhos

Que se bifurcam

Perdemo-nos

De nós

Do outro…

 

Encontramos o desfiladeiro

Assoma o vazio

De uma alma deserta

Dispersa

Em con-fusão

 

Alienada pela adrenalina

Que sobe

Escorrega

Desampara

Inquieta…

 

O êxtase da alma

É insuportável

Em qualquer paixão

 

As mãos tremem

Transpiram…

 

O coração

Consome-se

No seu ritmo

Acelerado

Incontrolável…

Incontornável…

 

O estômago

Já não se contém

Com tanta ansiedade

 

Calafrios

Pela coluna

Sobem e descem

 

Tudo se move

Tudo se transforma

A um ritmo

Desenfreado

Imparável

Desmedido…

 

Assim é o amor

Força

Que move e comove

Despista

Corrói…

 

Cego e surdo

Táctil e visual

Transporta-nos

Para a realidade

Do possível,

Para o possível

Do impossível

Para o imaginável

Do inimaginável,

Para o sonho

Do in-sonhável…

 

Para as correntes tumultuosas

De um mar sem fim

 

Para o infinito

Do próprio finito…

 

Para a alucinação

Da sensatez…

 

Para a irrazoabilidade

Do razoável…

 

Para o ilimitado

De todos os limites,

Conscientes

Ou inconscientes…

 

Assim é o Amor,

Uma força tremenda

Gigantesca

Arrebatadora

Desmedida

Enorme…

 

Dentro de um tempo redondo

De um eterno retorno

Do mesmo e do outro

Com princípio e fim…

 

 

                                                                       Isabel Rosete

                                                                       26/05/20007

 

  

APOLO TOCA A SUA LIRA

 

Apolo toca a sua lira

Faz brotar o sonho

A ilusão

A medida

A aparência

O brilho

A forma….

 

Dionísio solta a embriaguez

O delírio

O êxtase

O instinto

A força selvagem das entranhas da Terra

Num único e majestoso canto

De celebração

Sem o comércio das palavras

Incapazes de dizer o indizível…

 

Resta o inefável

O enigma

O mistério,

O ante-cantar

Que as almas

Dignifica…

 

Os sons

Vão e vêm

Se apossam

De todo o ente carente

À espera do sossego musical

Da magia inebriante da música

A arte das Musas

Que tudo atinge

Que tudo penetra

Até os tenebrosos rochedos

Do Cáucaso

Onde permaneceu Prometeu

Agrilhoado

O prudente

O previdente…

 

Aos homens

O fogo doou

Como sinal do seu amor

Qual espécie errante

Nasceu

Bicéfala

Capaz das maiores proezas

E das maiores atrocidades…

 

 

                                                                       Isabel Rosete

                                                                       31/o5/ 20007

                                                                       (7h.20m)

 

 

 

  

QUANTOS SÃO OS MISTÉRIOS DA ESCRITA...

 

Quantos são os mistérios da escrita,

No seio da imensidão do nosso universo linguístico

 

As pausas,

Os silêncios,

E sempre as palavras

Que nos comovem ou,

Simplesmente,

Nos fazem explodir

 

Sentimos o enigma do mundo,

Na sua dispersão e re-união

 

Uma inquietante estranheza inicial

Coloca-nos na face dos mistérios

Insondáveis,

Da Natureza

E do Homem

 

Ficamos atónitos

O silêncio regressa,

Apesar de toda a prosologia

 

Iniciamos a próxima viagem,

Mais uma,

Em todo o nosso peregrinar,

Tão genuíno como o canto dos pássaros que,

A todo o instante,

Nos fazem escutar

Os seus hinos de celebração da Terra,

Que sempre acolhe os nossos passos,

Tão pesados quanto a massa do Mundo

 

Caminhamos para uma nova era,

Embora nunca saibamos,

Exactamente,

Para onde correm os rios

 

Os rios do “obscuro” de Éfeso

Que nos doou essa maravilhosa metáfora

Da sucessiva transformação

De todas as coisas,

Sempre outras,

Sempre outras…

 

Sempre as mesmas,

Num eterno retorno,

Marcado pelos traços

Da esmagadora infinitude…

Isabel Rosete

27/o2/2007 

PENSAR ABRIL

 

 

PENSAR ABRIL

 

I

 

Viva o 25 de Abril.

Viva Liberdade.

 

Viva o Zeca que nos fêz acordar de uma longa noite de trevas.

Viva a voz audaz de um povo, até então, calado e adormecido.

Viva a consciência dessa voz que nos iluminou o futuro.

 

O futuro?

Que futuro?

O da politica demagógica?

O da falsa democracia?

 

Viva o futuro que já não se silencia.

Viva o futuro da expressão de todas as cores: rosa, laranja, vermelho, verde, amarelo…

 

Viva o eco de pensamentos outros,

Do diálogo ou da conversa fiada,

Da trama das ideologias e da teoria da inexistência das ideologias.

 

Viva o amor e a paz, sempre adiadas,

Mesmo depois do fim da guerra colonial,

Dos homens mutilados,

Dos corações de mulheres despedaçados;

Das almas das crianças órfãs,

Que assim nas ceram à luz da promessa de uma nova idade.

 

Viva o 25 de Abril!

Viva a Liberdade!

 

 

II

 

Vinte e cinco anos passados.

Restam-nos as memórias dos horrores da Guerra,

De uma sociedade que, em nome dos cravos vermelhos,

Um dia ousou gritar: Liberdade.

 

Liberdade:

Essa palavra de ordem que fez cair um Regime eternamente enraizado,

Que arrancou, com todas as armas, a tirania dos pretensos opressores.

 

Liberdade:

O sinal do dizer aberto,

Há muito ocultado, pelo véu da falsa ordem,

Há muito camuflado, sobre a tríade,

Deus, Pátria e Família;

 

O sinal do dizer aberto,

Há muito velado, nos meandros da paupérrima cultura de um povo,

Que convinha manter ignorante, analfabeto …

Em nome da ausência do espírito crítico,

Da mente desperta e do pensar astuto.

 

Vinte e cinco anos passados.

E aqui estamos nós, quiçá em uníssono,

A comemorar,

Com milhares de cravos vermelhos,

O grande acontecimento da Liberdade.

 

III

 

Volvidos 25 anos.

Já não somos os mesmos.

 

Avistamo-nos com um outro rosto;

O rosto da política da integração europeia;

Da integração comunitária,

Da moeda única,

Da adaptação ideológica.

 

O rosto, quiçá, da desintegração cultural é apátrida.

O rosto, cuja voz, já não sabe cantar o hino nacional.

O rosto, cujos traços e as cores,

Já não são, talvez,

Os da nossa bandeira.

 

Volvidos vinte e cinco anos.

Já não somos os mesmos.

 

E o que somos, então?

Um povo errante,

Ainda e sempre no resto da cauda do mundo,

Que outrora conquistámos,

No preciso momento em que o perdemos.

 

Erguemos o Convento de Mafra,

Com o ouro vindo do Brasil;

 

Edificámos a Torre de Belém

E o Monumento das Descobertas,

À custa de longas e saudosas lágrimas,

Dos que sempre partiram

E dos que sempre ficaram.

 

Qual Velho do Restelo se ousa, ainda, erguer?

Qual Adamastor, povoa, ainda, os nossos mares?

Quais ondas alterosas se erguem, ainda, desse imenso mar?

 

 

 

                                                                                              Isabel Rosete

                                                                                              24.4.1999

  

SÓ QUERO DORMIR

 

Só quero dormir,

Descansar os olhos

Da vasta podridão do mundo,

Um mundo que não é feito à minha medida

                                                  

Paira o horror,

O egoísmo,

O des-humano,

O tédio

De uma existência animal,

Instintiva

E competitiva

 

O que vence não é o melhor,

Mas o que parece ser mais apto

Para aquela função,

Forjada por compadrio

 

É a hipocrisia camuflada

Que dita todas ad regras,

As do ser e as do não-ser,

As do parecer-ser,

As do cheio e as do vazio

 

E, depois, falam de Ética!

Mas que Ética,

Se não estão mais presentes

Os deveres para com o outro,

E os deveres para consigo mesmo?

 

O falso

Permanece nas relações humanas,

Repletas de vãs e ilusórias aparências

Aí plantadas,

No domínio do sensorial,

Do meramente visível

 

De olhos míopes,

Somos incapazes de ver

Para além do visível

 

De escutar os ultra-sons,

De saborear,

O amargo e o doce,

Como instantes existenciais

De um mesmo ser

 

De olhos e orelhas fechadas,

Vagueamos tacteando,

Procuramos todos os lugares,

E nada nos satisfaz

 

Nada fixamos como seguro,

A instabilidade corrói-nos

 

Mesmo assim,

Ainda somos capazes de rir,

Embora já não saibamos

O que é um sorriso…

 

Caminhamos entre as multidões,

Atónitos,

Completamente perdidos,

De nós e do Mundo

 

Somos nós e todos os outros

E não somos nada

Nem ninguém

Ao mesmo tempo

Permanecemos no glaciar da incógnita.

 

Isabel Rosete, 09/05/2007

(5h 50m) 

PENSAMOS A MORTE

 

 

Pensamos na morte…

Em todos os momentos

Da nossa existência

Individual

E colectiva

Mesmo

Que o façamos

Inconscientemente…

 

Receamos a morte

A única certeza absoluta

De que dispomos…

Inevitável…

Irreversível…

 

A morte…

Pois

A morte…

Esse outro lado da vida

Que não está iluminado

Voltado

Virado

Para nós…

 

O que tememos?

Aquilo que ignoramos?

 

A morte é lenta

Lenta

Até chegar

O derradeiro momento

O final

Do seu incontornável

Aparecimento

 

A morte…

O que é a morte?

A separação da alma e do corpo?

Uma passagem para um outro estado?

A passagem para uma outra vida?

A entrada num estado de graça

Pleno

Purificado?

Um horror?

Um Inverno?

Um Nada?

 

A morte…

Que a todos

Um dia

Bate à porta

Sem aviso prévio

Sem aviso de recepção…

 

Não somos Sócrates…

Não abraçamos a Morte

Como um bem supremo

 

A morte do outro

De nós mesmos

Sempre esperada…

Sempre adiada…

Sempre presente…

Sempre ausente…

 

Uma figura do destino

Implacável

Que conduz todas as coisas

Ao seu próprio fim…

 

Um estado outro…

Que nem ousamos imaginar…

 

Apavora…

Atormenta…

 

A morte…

Sempre está aí

Numa presença

Ausente

Que não queremos presentificar

 

 

Isabel Rosete

16/06/07

(6.50h)