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10 พฤษภาคม

Os tons, por Isabel Rosete

Os tons,

Os sons…

 

Enobrecem a beleza da Criação,

A harmonia da Natureza,

No seu eterno

Estado de graça.

 

No reino dos vivos,

Movem

Os corações adormecidos.

No reino dos mortos,

Fazem renascer

As almas amortecidas.

 

Sossegam os espíritos

Atormentados,

Harmonizam os corações

Despedaçados,

Pela vil miséria

Do sofrimento inacabado.

 

Embalam os amores.

Acobertam os seus estares.

Estimulam a excitação dos corpos,

Embriagados,

Pelo intenso desejo

Da união visceral.

 

Isabel Rosete

16/01/08

9/10/08

05 มีนาคม

A Fonte dá Fé, por Isabel Rosete

A fonte da Fé

Secou…

 

Cristo

Já não é mais milagreiro…

 

Violência

Crime…

 

Desacato

Insanidade…

 

Enchem

Preenchem…

 

A panóplia

Do Mundo em que vivemos...

 

Isabel Rosete

14/07/07

23/01/08

A Bailarina, por Isabel Rosete

A Bailarina

(A Sandra Machado)

 

Eis a viva expressão

De quem agarra a Vida

Por todos os fios possíveis

De um imaginário

Sempre reprodutivo…

 

Os seus acenos

Suaves

E determinados

Sobem

E descem…

 

Os seus paços

Leves

E silenciosos

Ascendem

E descendem

 

Erguem-se

Elevam-se

Multiplicam-se

Em todas as direcções…

 

Indicam-nos o infinito

Que nos apraz bem

 

Suspendem-nos a alma

Transportam-nos para outros lugares

Nunca imaginados…

 

São múltiplos os caminhos

Pela bailarina percorridos…

 

Entre outros estares

Entre outros rostos

Entre todos os rostos

Que nela se presentificam…

 

Os caminhos dos gestos

Das palavras

Dos sons

Que a envolvem

Num círculo

Quase perfeito…

 

Os caminhos das notas

Que a partitura preenchem

Tornam-se audíveis

Em todos as melodias

Pelo seu corpo contornadas…

 

Há sempre um som

Que a embala

Que a faz vibrar

Estremecer

Ou sonhar…

 

Por entre as linhas

Nem sempre unidas

Nem sempre definidas

Dos trilhos delgados

Do seu balancear…

 

O chamamento do som

Assoma

Que grande promessa!

 

O som puro

E cristalino

Da música

 

Semi-oculto

Semi-descoberto

 

Envolve

O corpo

E a alma

Da bailarina

Ainda capaz de o escutar…

 

A escuta

Naturalmente a escuta…

 

Qual motor originário do mundo

Que faz mover

Os seus delicados contornos…

 

Os seus movimentos

Mesmo os mais simples

Manifestam a pureza

De uma alma

A singeleza de um corpo

A nobreza de um carácter

Em momentos

De perpétua comunhão…

 

Qual corpo?

Qual alma?

 

Os da Bailarina

Fundidos

Se dão

A outros corpos

A outras almas

Nunca em vão…

 

A bailarina

Está aí

 

Dança

Balança

Rodopia

Ao tinir

De todos os acordes…

 

Faz renascer

Um ser outro

Sempre renovado…

 

Algures

Camuflado

No seio

Da sua própria interioridade…

 

Isabel Rosete

(Escrito para Sandra Machado, a bailarina)

1999

17/02/08

A Alma Humana, por Isabel Rosete

A Alma humana

Destituiu-se de si….

 

Paira

Na bruma

Das tardes cinzentas

Sem tranquilidade

Sem paz…

 

Percorre

Os infinitos caminhos do Mundo

As estradas desertas

Sem rumo determinado…

 

Procura o Paraíso perdido

Em todos os corpos outros

Sem saber

Qual a sua linhagem…

 

Ofusca-se

Com os raios do Sol…

 

Vagueia

Pelas ondas imensas

Do mar revoltoso

Companheiro dos ventos do Norte…

 

Tudo arrastam

Movem

Deslocam…

 

No redemoinho universal

Da Vida

Que rodopia

Em todos os espaços

Por todos os lugares…

 

Isabel Rosete

06/07/07

22/02/08

A ALMA, por Isabel Rosete

 

Alma

Sopro da Vida

Não cabes mais

Dentro dos teus limites

 

Transcendes-te

Rumo ao encontro

De todos os desencontros

 

Ao impossível

De todos os possíveis…

 

Evades-te

Nas dunas brancas

Das praias desertas

 

Respiras

Pura

A virgindade da Natureza

 

Escutas

Em silêncio

Os sons primordiais

 

Das profundezas

Do mar

Salgado

 

Ora verde

Ora azul

Ora vermelho

 

Manchado

Pelo sangue dos corpos

Derramados

 

Quantas batalhas

Quantas guerras

 

Nas águas cristalinas

Foram sepultadas…

 

Alma

Co-afim com o mar

 

Em revolta

Te moves

 

Em calmaria

Descobres

A eterna beleza

Das coisas simples

 

Aí estás

No correr

Das águas

 

Ao turbilhão do mundo

Nem sempre escapas…

 

Isabel Rosete

06/07/07

26/01/08

29 ธันวาคม

"ESPÍRITO DO NATAL", por Isabel Rosete

 

Para além de todas as demagogias,

Para além do “politicamente correcto”,

Para além de todas as hipocrisias…

 

Celebremos, finalmente, o Espírito do Natal,

Em todos os momentos,

Desta nossa existência tão efémera.

 

Natal é Fraternidade, Solidariedade, Paz,

Amor e Alegria na Terra

E nos Corações dos Homens;

 

Natal é a apologia do Humano,

Em toda a sua essência

De Bondade e de Verdade;

 

Natal é o enaltecimento de um Mundo,

Onde não haja mais lugar para a Crueldade,

Para a Violência ou para a Agressividade;

 

Natal é a reunião dos Corações sensíveis

Que lutam, desesperadamente, pela União dos Povos

E das Nações;

 

Natal é a rejeição da Discriminação,

Dos horrores da Guerra,

Da mutilação dos Corpos e das Almas;

 

Natal é a consciência da Miséria Humana

O compromisso da sua superação,

O enaltecimento da Justiça e de todas as Uniões;

 

Natal é o triunfo do Bem,

A glória de todos os Renascimentos,

A comemoração da Dignidade Humana;

 

Natal é a benção do sempre Novo,

O louvor de todo o acto de Criação,

De Renovação e de Regeneração…

 

Sejamos Natal.

Hoje,

Amanhã,

Para sempre…

 

Isabel Rosete

20/12/07

 

 

10 ตุลาคม

ANTES QUE O SOL DESPONTE

 

 

Antes que o Sol desponte

Quero brilhar…

 

Fugir para um outro lado do Mundo

Aquele que me é sempre oculto…

 

Ver outros rostos

Outras naturezas

Outras cores

Outras gentes

Outros estares

Outros brilhos

Outras estrelas…

 

Planetas…

Galáxias…

 

O infinito do próprio Universo

Envolto naquela cápsula

Que quero abrir…

 

O fechado atrofia-me os membros

Congela o meu cérebro

Sempre em pleno estão de agitação…

 

Todos os vulcões aí se concentram

Todas as lavas daí escorrem

E os caminhos não se bifurcam…

 

Uma saudade do infinito assoma

Como se o mundo acabasse

Num só dia…

 

O derradeiro dia

De todos os dias do resto da minha vida…

 

Perpetuar a vida…

A ilusão de todo o ser humano

Sempre desesperado…

 

Porque não é Deus

Nem os Deuses

Nem o destino…

 

Isabel Rosete

06/07/07

" A NATUREZA GOSTA DE SE ESCONDER", por Isabel Rosete

 

 

A Natureza gosta de se esconder…

E

Nós

Humanos

De a desventrar

Até ao infinito

De todos os seus redutos…

 

A mão que semeia

É a mão que destrói

Que colhe e recolhe

O produto

De cada desvanecer

 

Isabel Rosete

06/08/07

15 กันยายน

VAGUEANDO...

 

Vagueando…

 

Pensar, morrer, amar, odiar, ou simplesmente vacilar. São estados existenciais de todos os humanos mergulhados num passado que, sempre, corrói.

 

Somos, eternamente, seres do passado e do presente. Meros instantes, momentos de cólera, de paixão e de compaixão. Seres mundanos e intra-mundanos que se excedem nos limites indeterminados do Universo. Nele nos movemos como pequenos pontos repletos de grandes desejos, de intensas ambições de marés imensas de ilusão, de utopias em que cremos, como se de realidades autênticas se tratassem.

 

Somos Prozac. Adrenalina pura. Sempre prontos a explodir.

 

Passeamos, calmante, pelos jardins das nossas cidades, esses jardins de pedra e de caminhos por onde vagueia o nosso imaginário, algures perdido…

Mesmo transbordando de originalidade, somos tão comuns, tão mesquinhos, como todos os outros que se nos apresentam como inferiores e, até mesmo, indignos das nossas palavras, dos nossos gestos, por mais insignificantes que sejam.

E aí estamos nós. Homens e mulheres, no gigantesco teatro do Mundo, cujo palco é a Vida, a nossa vida, marcada por uma azafama constante, não se sabendo bem em nome de quê, nem para quê…

Habituámo-nos a viver em multidão. Perdemos a individualidade. Sabemos que já não vale a pena ser Narciso. Eco morreu longe. A sua voz de alerta não paira mais em derredor dos nossos ouvidos.

 

Somos todos os outros. Menos nós mesmos. Fixamos o infinito. E perdemo-nos dos outros e nós mesmos.

Balbuciamos algumas palavras que, apenas, a nós, nos dizem respeito. Por vezes, também gritamos, bem alto, para que o Mundo inteiro nos ouça. Precisamos de extrapolar todo o sofrimento vivido e por viver. E aí somos o passado. Sim. O passado, mas lançados num futuro que vemos em sonho, alucinados, inquietos, como se tivéssemos a obrigação de controlar tudo. E como se o Tudo fosse ainda pouco. Como se declarássemos a morte ao Acaso, ao Fado, ao Destino.

 

Somos tão estranhos e tão complexos que mergulhamos, sempre atónitos, na tragédia que, a cada passo, criamos como traço central da nossa própria existência.

Marcamos o passo e o compasso do nosso caminhar, mas a um ritmo tão irregular que nos perdemos no contra-tempo.

 

Somos o tabuleiro do jogo. Outras vezes as peças que sobre ele se deslocam, segundo a vontade dos jogadores, os outros de nós mesmos. E ainda por cima, escravos de tudo isto, como se o papel e a caneta tivessem a estrita e peremptória obrigação de serem os nossos fiéis confessores.

 

Somos tão estúpidos, tão bestiais… que fingimos não ver o que realmente vemos. Esse célebre pleonasmo, do “visto, claramente visto”, já não faz parte dos tramites da nossa consciência de animais com cio, de tarântulas voadoras, ou de qualquer espécie de aberração que deixámos, pelas nossas próprias mãos, que a Natureza, um dia, criasse.

Iludimo-nos e pensamos que somos donos de tudo. Quando, afinal, nem sobre nós mesmos temos algum domínio digno de consideração.

 

Somos incapazes de perceber o estado da nossa própria humanidade, se é que este vocábulo, tantas vezes repetido, ainda tem algum sentido, algum conteúdo, explícito ou implícito, que nos possa falar.

No entanto, continuamos, mesmo que nos vejamos despidos de tudo, desses traços de uma tal humanidade que há muito perdemos de vista, ou que a nossa vista já não alcança…

 

Meu Deus…! Como a nossa miopia cresceu nestas últimas décadas…! O “Homo Sapiens, Sapiens”, assim nos chamam, é, nos tempos modernos, o “Homo miupus”, aquele que não é capaz de ver para além do que a sua vista torna simplesmente visível na proximidade dos objectos.

 

Somos, amiúde, puros espectadores passivos, entes sem convicção de identidade própria e determinada.

 

Somo o que somos. Mas não sabemos o que somos…

 

Chegamos mesmo ao estado de objecto, entre outros objectos. Nada mais. Passamos por elementos de cálculo, de factura, de recibo, tão descartáveis como quaisquer outros materiais informes, peças de uso quotidiano que, marginalmente, vão excedendo e ascendendo…

 

Somos estádios de passagem; pequenos detritos do lixo cósmico; pedaços de meteoritos que se estilhaçaram; folhas de árvores caducas, a todo o momento espezinhadas nas ruas, nas praças, nas calçadas perpetuadas pelos passos das gentes…

 

Mas que tédio…! Que cansaço…! Que atrocidade esta coisa de ser humano entre milhões de ditos e re-ditos seres humanos.

 

Homem: transcende-te, de uma vez por todas. Passa ao outro de ti mesmo, esse que usa o verdadeiro rosto escondido por detrás do opaco véu do teu inútil viso.

Ou, então, se te queres matar, mata-te de uma vez, depois de te esqueceres que és um existente envolto e impregnado em dilemas que te fazem rodopiar como um pião.

 

Homem: pára, escuta e cresce... Ouve os apelos do Mundo e da Terra que, mesmo martirizados por ti próprio, ainda alcançam o seu grito de alerta, em sinal de um advindo acolhimento, re-colhimento...

 

Homem: parte e rasga todos os horizontes, reais e possíveis. Só assim quebrarás com o passado, e encontrarás as réstias de um radioso dia…os traços de um tempo outro, ou de um outro tempo…de uma nova idade…de um novo amanhecer…de um outro re-nascer…

 

 

                                                                                              Isabel Rosete

                                                                                              24/12/2001

 

 

 

 

 

 

  

SOMOS AMANTES

 

Somos amantes

Inter-seccionados

 

Esquecemos o Mundo

 

Fechamo-nos

Nas nossas próprias conchas…

 

Esquecemos os homens

 

Queremos ser só nós

Nada mais importa…

 

O Amor preenche-nos

Por completo

 

Alimenta

Os nossos corpos

Ardentes…

 

As nossas almas

Inundadas

Da mais intensa alucinação…

 

Temo-nos um ao outro

E isso basta…

 

É mais do que tudo

Está para além do Nada…

 

Tornamo-nos esféricos

Auto-suficientes…

 

Esquecemos

O próprio Universo

 

Somos o mesmo corpo

A mesma alma

O mesmo sangue

O mesmo plasma

A mesma pele…

 

Somos um só organismo

Que se auto-preenche

Sempre prenhe de fertilidade…

 

Esquecemos a vida

Cá fora

Repleta de futilidades….

 

Esquecemos a morte

Somos eternos…

 

 

Isabel Rosete

(06/08/07)

 

  

SINTO A HUMANIDADE

 

Sinto a Humanidade

Penso nos Homens

No mundo que construíram

Em pleno estado de combustão

 

Os meus horizontes auditivos alargam-se

Escuto o pulsar inquietante

De todos os corações aflitos

Amargurados

Despedaçados…

 

Já não ousam sonhar

Já não ousam ter esperança

Mesmo que

Numa aura longínqua

Sintam

Pressintam

A vizinhança

Da salvação

 

Violência

Crime

Desrespeito

Pelos direitos fundamentais

Da Pessoa Humana

Enchem a panóplia

Do mundo em que vivemos...

 

 

Isabel Rosete

(14/07/07) 

PENSAR A HUMANIDADE

 

 

Pensar a Humanidade…

É descortinar o abismo do Ser

O inquietante momento originário

Do Tudo e do Nada

 

Pensar a Humanidade…

É presentificar

A metamorfose

A mudança

As múltiplas faces

De entes camalionicos

De entes que vagueiam

Em derredor

Do seu próprio círculo

Descentrado

Do ponto-chave

Da gravitação

Universal…

 

Pensar a humanidade…

É o des-velar de caminhos cruzados

E entre-cruzados…

 

De encontros

E desencontros…

 

Do determinismo

Da liberdade…

 

Do livre-arbítrio

Da vontade…

 

De uma racionalidade

Que apesar

De todos as calamidades

Ainda se considera imaculada…

 

Nascemos com o rótulo

De “animais racionais”…

 

Mas o que diremos

Dessa “racionalidade”…?

 

Perante o vandalismo

O des-equilíbrio

O caos…

 

A inversão dos valores

A indignidade

Do ser Pessoa

A des-humanidade…

 

 

Isabel Rosete

(14/07/07 - 5.00h)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

NÃO SEI VIVER

 

Não sei viver

Sem sonhar

Sem o prazer

Imenso

De uma terrível

Ou doce ilusão

 

Sair

Evadir-me…

É uma necessidade

Cada vez mais

Imperiosa

 

Preciso viver outros mundos

Outros espaços

Outras gentes

Outras realidades

Outros universos

Outros planetas

Outros…

 

Como se a realidade

Presente

Esta em que vivo

Se esgotasse

Num instante

 

Ficasse vazia

Sem essência,

Sem nada

 

O Mundo é

Tão grande

E tão pequeno

Ao mesmo tempo…

 

Esmaga-me

Transporta-me

Para outros lugares

Reais

Ou imaginários

 

Preenche-me

E torna-me vazia

Num paradoxo infinito

De um jogo de forças contrárias

Em atracção

E exclusão

Permanentes…

 

 

Tudo morre

Tudo nasce

Tudo se transforma

 

Nada permanece…

Nada permanece…

 

A perpétua mudança

Instaura-se

Num equilíbrio indelével…

 

E o Ser está aí

Permanecente

Em cada alvorecer

Em cada desfloramento

Ocultando-se

De todas as coisas…

Desvelando-se

Em todas as coisas…

 

 

Isabel Rosete

06/08/07

  

EIS A VIVA EXPRESSÃO

 

Eis a viva expressão

Por finos traços

De quem agarra a vida

Por todos os fios

Possíveis

De um imaginário

Sempre reprodutivo

 

Quais traços

Que descem

E ascendem

Em múltiplas direcções

 

Indicam o infinito

Que nos apraz bem

 

São múltiplos os caminhos

Não todos os caminhos

 

Mas os caminhos das palavras

Das notas

Que preenchem a partitura

Que torna presente

Todos os sons

 

Há sempre um som que nos embala

Que nos faz vibrar

Estremecer ou sonhar

Por entre as linhas

Nem sempre unidas

Dos finos traços

Que delineiam os caminhos

 

O chamamento do som

Emerge

Que grande promessa…

 

O som estridente

Cristalino do sino

Semi-oculto

Semi-descoberto

Que envolve o corpo e a alma

De quem ainda sabe escutar

 

A escuta

Qual motor do mundo

Que faz mover o pequeno corpo da bailarina

Cujos gestos

Mesmo os mais simples

Manifestam a pureza

De uma alma

A nobreza de um carácter

Em momentos

De perpétua comunhão

 

Esse corpo e essa alma

Que fundidos

Se dão a outros corpos

E a outras almas

Nunca em vão…

 

Dançam ao som

De todos os acordes

Fazedores do renascer

Em cada instante

De um Ser outro

De um Ser

Sempre renovado

Algures

Camuflado

No seio

Da nossa própria interioridade…

 

 

Isabel Rosete

(1999)

 

  

UM OUTRO...

 

Um outro…

 

Sempre em ânsia pela hora

Em que chegará essa criatura

Que tanto amo.

 

Criatura?

Sim.

Porque não?

 

Todo o ser humano é uma criatura,

Quiçá,

Uma bênção de Deus,

Uma dádiva da Natureza…

 

Trabalho e penso no seu rosto,

A cada instante.

Nesse jeito calmo de ser,

Terno,

Com um cheiro de malícia

E extrema sensualidade

Inconfundível

Que percorre todo o seu corpo

E a sua alma.

 

Uma alma que vive intensamente

Cada momento

 Da sua existência individual e colectiva,

Como se cada momento fosse

 O último da sua vida…

 

Respira e expira a própria vida;

Sempre a expira pelas largas narinas

Desse rechonchudo nariz,

Que diz,

Ser a única peça que não se harmoniza

Com o seu rosto moreno,

Moreno – bombom…

 

Aí estão apensos uns profundos olhos negros,

Que dizem ver sempre mais longe,

Até mesmo nos olhos dos outros,

Quando os observa

 Na mais profunda intensidade;

Sem pestanejar,

Tão fixamente,

Como as estrelas que,

No céu estrelado,

Mantêm o seu brilho.

Um brilho denso… quase eterno…

 

São pérolas negras

Que fustigam o meu olhar,

Que me trespassam

Na minha própria visceralidade,

Tal como a penetração

Do seu membro erecto

Que encaixa e rodopia no fundo da minha intimidade.

 

Há sempre uma certa magia

Em todos os seus actos,

Em todos os seus gestos…

 

Na sua voz grave,

Ao mesmo tempo,

Doce e terna,

De sons gerúndios,

Como é típico de todo o ser da América do Sul.

Essa magia apaixona,

Fascina,

Atrai,

Como um hímen a limalha de ferro.

 

De repente,

Penetra-nos,

Quase sem darmos por isso.

 

Envolve-nos num misto de sedução,

De prazer e de felicidade,

Que não é momentânea…

 

Perpetua-se em cada sinal,

Em cada movimento

 De um corpo deambulante,

Exemplificante da singularidade

 Da alma que o habita;

 

Tão livre como a da ave que,

A qualquer momento,

Sabe que pode abandonar a sua gaiola,

Mas não a sua prisão.

 

Vagueara,

Quiçá, sem destino,

Pelas múltiplas paragens da vida

E de todos os destinos humanos.

 

A atracão que exerce

É estranhamente intensa,

Torna-se quase inexplicável,

Indizível…

Inefável…

Pertence ao domínio inviolável do SENTIR,

Excedendo todo o campo semântico,

Por mais Intenso e rico que ele seja.

 

Tem um toque diferente,

Como,

Se às vezes,

Pertencesse a um outro mundo,

A um outro espaço,

Que extravasa a vulgaridade

De todas as possíveis vivências quotidianas.

 

Mantém tudo no seu preciso lugar,

Como se em si residisse,

Irremediavelmente,

Um “lugar natural”,

Um topos para cada coisa.

Todo o desvio é assumido como uma violação inevitável.

 

A sua presença é tão envolvente,

Tão cheia,

Tão redonda,

Que nada pode deixar de fora.

 

E aí permanece

Como a aranha na sua própria teia.

 

Todos os seus movimentos

Rodopiam nas malhas dessa teia gigantesca,

Abrangedora de tudo o que o rodeia,

Até mesmo de tudo aquilo

De que não tem consciência imediata.

 

O seu estar

Presentifica o próprio Universo;

Como se só existíssemos os dois;

Como se isso

A que chamamos realidade

Entrasse em nós,

Totalmente.

 

Nada,

Absolutamente nada

Pode estar fora do nosso alcance.

 

Emerge a sensação de absoluto,

De Totalidade,

Como se nós e Mundo

Fossemos uma e a mesma coisa.

 

Todas as dualidades desaparecem.

A união das partes é,

De tal modo,

Plena,

Que a divisibilidade não tem lugar,

Em nenhum momento.

 

Em nós,

Permanece o Cheio,

O Aberto,

Em perfeita comunhão.

 

E a vida,

Apesar de todas as adversidades,

Torna-se tão simples,

Tão singela,

Tão leve,

Tão radiosa,

Tão apetecível,

Que o próprio dormir

Não é efémero,

Mas um eterno momento de serenidade,

De paz,

Tão sólida e inevitável,

Que nada parece poder deixar de alcançar.

 

Sempre que esses dois seres se unem,

Até ao mais íntimo de si mesmos,

O mundo,

Neles também penetra,

Na forma da mais pura e bela gratuitidade,

Que alguma vez

Se possa sentir ou imaginar.

 

A “paz perpétua” assoma,

Mesmo nos momentos

Onde se gera a agonia,

A ansiedade,

A angústia,

Quando extravasa,

Pelo álcool,

O néctar dos deuses,

Os limites da dita racionalidade,

Da dita sobriedade...

 

São esses os momentos de excesso,

Da pura embriaguez catártica.

 

Os meandros,

As fronteiras,

Do seu pensamento,

Esbatem-se

Até às lágrimas.

 

As ideias,

Os sentimentos

E pressentimentos,

Fluem,

Transbordam,

Como um rio,

Do seu próprio leito.

 

Há,

Nele,

Um excesso de caudal

Que só a embriaguez despoleta.

 

Depois,

Volta ao silêncio;

Ao silêncio da voz.

Mas nunca ao silêncio do pensar.

 

São os momentosos da introversão que,

A catarse da embriaguez,

Voltará,

Depois,

A fazer brilhar.

 

Mas com tanto sofrimento,

Com tanta angústia,

Que o mundo parece desabar.

 

A queda é, assaz, efémera,

E logo do caos se ergue,

De novo,

A ordem,

Quando diz: “acordar para a realidade”,

Numa necessidade

De dela sempre se evadir…

 

Este é o comportamento típico

De todo o ser sensível,

Plenamente consciente

Das atrocidades da Existência humana,

Em pleno

E permanente sobressalto.

 

Urge esquecer tudo,

Entrar numa outra ordem,

Num outro espaço,

Trazido por todos os alucinogénios.

 

E, nem por isso,

A ressaca,

É assim tão terrível…

 

A lucidez parece nunca ser

Totalmente perdida.

É apenas desviada

Para outras paragens,

Que a imaginação

Requerer percorrer.

 

O mundo e os homens

Obrigam-nos a esse esquecimento,

Em prol,

Mesmo,

Da mais efémera ilusão de serenidade.

 

Nestes momentos,

Torna-se um outro de si mesmo.

O seu corpo

Lânguido,

Derrubado,

Perde toda a sua natural sensualidade magistral.

 

Vacila entre o Ser e o Não-ser,

Entre o tudo e o nada,

Como se quisesse penetrar,

De um modo hiperbólico,

Nas entranhas de tudo,

 

Como se fosse uma cobra

Que entra pelo meio do silvado

 E que,

Depois de estarrecida,

Aí permanece exposta,

Desarmada,

Porque exausta,

Depois de ter comido a sua presa.

 

Não tem mais forças para se erguer.

Quebrou todos os escudos,

Tornou-se completamente indefeso,

Confundindo-se com o próprio chão,

Onde caiu

E amoleceu instantaneamente.

Sem mais…

 

Aí permanece estendido,

Não com os olhos penetrantes,

Fulminantes,

Mas amortecidos,

Semicerrados,

Pelo excesso que neles assoma,

Oriundo da aura que espelham.

 

A alma,

Também ela derretida,

Despedaçada,

Sempre à espera de um novo reencontro consigo mesma,

De mais um nascimento,

Entre tantos outros passados

E entre tantos outros que possivelmente

Se adivinham…

 

                                                                                  Isabel Rosete

                                                                                  02/02/2001

 

 

 

 

  

AMAR É O DESESPERO DE UM CORAÇÃO CARENTE

 

Amar é o desespero de um coração carente

À procura da outra metade que o complete

 

Somos incapazes de nos completar a nós mesmos

Precisamos sempre de um outro

Qualquer um outro…

Procuramos o outro de nós…

 

Essa terrível e eterna dependência do outro

Que não conseguimos

Encontrar em nós …

 

Que desgraça

A do coração humano,

Sempre em falta,

Irremediavelmente só e despedaçado

 

Lamenta,

Lamenta-se…

 

Não sabe estar só,

Dialogar consigo mesmo

 

Encontra,

No seu âmago,

O vazio

Do seu próprio preenchimento

 

Amar,

É coisa dos homens

Sem dúvida

Desses seres solitários,

Incapazes de percepcionar

A solidão como outra forma de amor:

O amar-se a si mesmo…

 

E isso não basta,

A estas criaturas errantes?

 

Não

Não basta…

Nada basta…

 

Há sempre um mais e um depois,

Que aflora

Em todos os pensamentos,

Até mesmo,

Nos mais recônditos,

Inconscientes….

 

 

    Isabel Rosete

   09/05/20007

   (6.00h)

 

 

 

  

ANGEOLOGIAS EM PROSA POÉTICA

 

ANGEOLOGIAS EM PROSA POÉTICA

 

 

Entrar no universo dos Anjos.

 

Uma metafísica angeológica se nos impõe.

 

Mas também uma ontologia

uma diferença ontológica,

uma escala de gradação de entes,

de criaturas,

na sua irredutibilidade ontológica,

ou “enteológica”,

uma diferenciação topológica e cronológica,

no traço invisível da dualidade cosmológica.

 

Dois mundos completamente distintos se presentificam,

se interpenetram,

pelo mais ténue sopro que choca com o rosto dos homens,

um sopro oriundo de um a presença incógnita,

que se sente e presente, mas que não se vislumbra mais…

 

Pela mão que toca no ombro, num momento de angústia

ou de desespero existencial,

para acalmar, apaziguar…

ou para trazer a esperança da vinda de um mundo mais radioso,

isento de vazio e de solidão.

 

O toque de uma mão também não vista,

mas incomensuravelmente sentida,

por um encéfalo,

fonte de inteligência,

de recordação e de afecto,

que comunica monadicamente com outros encéfalos,

no seio da multidão,

da massa humana indiferente e indiferenciada,

do caótico trânsito da cidade minada por projectos ideias,

onde ainda se medita,

em escassos momentos,

sobre o sentido da vida e da morte, do ser, do não-ser e do nada…

em busca de um caminho que entrelaça o mesmo “jardim de caminhos que se bifurcam”, entre uma visão a cores e outras a preto e branco.

 

Sim, “os caminhos que se bifurcam”.

Qual universo borgesiano,

onde,

a cada passo,

se ergue um labirinto,

no qual todos os homens se perdem…

 

Um labirinto perdido, infinito,

um labirinto de labirintos.

O labirinto do Minotauro…

 

Um sinuoso labirinto crescente,

abarca o passado e o futuro,

envolvente,

ao mesmo tempo que indeterminado

e proporcionador de um conhecimento

abstracto do mundo.

 

De longe se vislumbram os restos de tarde,

entre os caminhos que se bifurcam,

entre as várzeas indistintas…

 

Paira uma música, ao mesmo tempo aguda, grave e inquietantemente suave,

agressiva e embaladora, mágica e embriagante.

 

Silábica se aproxima a melodia,

ao mesmo tempo que afasta,

no vaivém do vento que as folhas faz mover.

Encaminha os bandos de pássaros que o céu povoam,

como nuvens escuras,

anunciantes de tempestades...

 

E aí se encontram os Anjos,

no alto,

eternos observadores dos homens;

mensageiros,

comissionários das palavras,

anunciadores,

intermediários,

companheiros,

guardas e sombras dos homens.

 

De assas brancas ou negras,

neste tempo de indigência,

são entes alados,

vagueantes num espaço atópico,

num tempo intemporal,

num tempo redondo,

num espaço e num tempo outro,

fora do alcance dos homens.

 

Atentamente viajam,

vigiam e escutam,

penetram na interioridade dos homens,

eles que são “Nada”,

e estes “Tudo”...

 

É o mundo dos Anjos,

eternamente invisíveis,

sempre “tão longe e tão perto”,

“nas asas do desejo”,

entre o mundo dos homens,

da efemeridade do visível,

das coisas mutantes,

da permanente metamorfose,

da qual não temos fuga possível,

até que a morte nos separe,

até que vejamos esse outro lado da vida que não está iluminado,

virado para nós…

 

Assim nos informou Rilke,

o poeta do Anjo belo e terrível,

consagrado islamicamente,

nessa vida confinada à celebração da Vida,

à morte e aos amantes,

aos terrestres e aos celestes,

ao Aberto,

à Terra silente,

que grita desesperadamente

perante o ruído ensurdecedor das máquinas…

 

Isabel Rosete

2 de Fevereiro de 2005 

PENSAR

 

Pensar

 

Pensar é ver as estrelas,

Que um dia,

Desabaram sobre o tecto do Mundo.

 

Pensar é ler o além, tão esperado,

Como desesperante,

Face ao ministério do mundo,

De que apenas temos sinais,

Signos e vestígios de signos.

 

Vem o martelar da água salgada nas rochas,

Que habitam as praias desertas;

Essas, onde passam,

De sobrevoo,

As gaivotas

E, por vezes,

Os homens

Em busca da serenidade

Outrora perdida.

 

Deambulam pelas areias movediças,

Autênticos palcos do mundo

Onde constroem e destroem

As suas próprias moradas.

 

Uma linguagem incompreensível

Vocifera das suas próprias bocas,

Com o sabor amargo

Da vida não vivida

Em terreno firme.

 

A vida,

O trampolim,

A barra olímpica

Onde caminhamos em perplexos des-equilíbrios,

Ao sabor do vento

Que bole nossas pernas trôpegas,

Como se mal tivéssemos começado a andar.

 

Nada se fixa no e sobre o homem.

E se o mundo é composto de mudança,

A metamorfose é o traço do viso desta humanidade,

Que a ritmos triclitantes,

Cresce dentro desse ser cheio de vazio que somos,

Cada um de nós,

Um dia rotulados de “animais racionais”,

Pretensamente,

Supostamente,

Pensantes,

Inteligentes,

Portadores de um raciocínio lógico-discursivo,

Hipoteticamente emersos do melhor dos mundos possíveis,

 

E, afinal,

O que queremos de nós,

Seres errantes?

 

E o que queremos do Mundo

Que em torno de nós

Se move

A uma velocidade incomensurável?

 

Ou desfazemos essa aura de entes

Onde fomos depositados,

Um dia,

Sem que o nosso querer

Fosse chamado a opinar

Sobre esse modo de existência de caos e de ordem

Que, afinal, nos caracteriza,

De que somos co-autores e co-produtos

Voluntária ou involuntariamente?

 

Perdemos o rumo,

O norte.

Mas encontrámos o fio de Ariana

Que comanda o nosso Destino.

Destino?

Mas que Destino?

O de sermos uma humanidade emaranhada

Nos nós da sua própria teia?

 

Ariana e a aranha

Estão sobre a caução de um certo e mesmo invólucro,

Tão opaco, como transparente,

Tão sublime, quanto miserável.

 

E, apesar disso,

Ainda podemos falar

Da harmonia heracliteana dos contrários?

Do caos criativo que,

Quiçá,

Gera a nossa própria ordem desordenada?

 

Definitivamente,

Somos viandantes.

Passageiros de múltiplas paragens,

Sem lugar certo e determinado,

Sem pátria, sem habitação, sem morada…

Permanecentes metamorfoses de espaços de combustão,

Do Tempo finitamente infinito,

Que também nos domina,

Enquanto temos a vã pretensão

De o controlar pela minuciosa máquina

Que o nosso pulso suporta,

Sempre voltada

Para os nossos olhos ansiosos

De um tempo outro,

Onde qualquer ideal possa ser consumado,

De preferência, “ad eternum”.

 

Que ilusão, somos nós,

Homens!

Entes de palpites inconstantes

No pulsar do mundo

Que nunca adormece.

Desse mundo inquieto,

Por vezes,

Turbulento,

Que gira sobre nós próprios,

Que nos faz mover

Dentro e fora das nossas órbitas,

No espaço debilitado da nossa condição

De estritos seres de passagem,

Em digressão,

Sabe-se lá para onde…

 

Os pratos da balança

Já não se equilibram mais.

A medida certa acabou.

A incerteza,

A dúvida,

É o paradeiro do nosso próprio caminhar

Em terreno

Irremediavelmente movediço,

Ao mesmo tempo que estanque…

Sempre nos prende as pernas,

Sempre trava o nosso caminhar.

 

Que ilusão, a dos homens,

Em querem ser senhores,

Dominadores do universo,

Físico e humano,

Que escassamente habitam.

 

E o Mundo está aí.

Permanece imutável,

Na sua essência,

Apesar de todas as investidas de uma humanidade,

Sempre solitária

Que acompanha o furor

Das multidões em revolta,

Contra o imposto pelas Instituições,

Pela Natureza;

 

De uma humanidade que,

Um dia,

Alimentou a vã ilusão de Tudo manipular,

De ser a gestora de um Universo que,

Amiúde,

Gosta de se esconder,

Na sua mutabilidade camaliónica.

 

 

  Isabel Rosete

  19.01.2001

 

 

 

  

ODEIO A HIPOCRISIA

 

Odeio

A hipocrisia

A solidão das multidões

Que crescem

Em espaços vazios

Dispersos

Indiferentes…

 

O outro

Ali apostado

Atónito

Num mundo que não é mais só seu

 

As viagens são múltiplas

Os caminhos diversos

Os do Ser e os do não-Ser

Os do Nada…

 

A metamorfose

A mudança

Comandam o mundo

 

O Ser não permanece mais

Na sua imutabilidade originária

 

As sombras

As aparências

Ofuscam o olhar

Dos que querem ver

A essência

O miolo

De um pão bolorento…

 

A identidade perde-se

Somos o mesmo rebanho

 

Corremos na mesma direcção

E já nada identificamos com precisão

 

A amalgama do mundo

Corre nas nossas veias

 

Do caos faz-se a ordem

Do império da Razão

Transmutamo-nos

Para o reino dos sentidos

Holisticamente conjugados

Numa teia emaranhada

De sendas e vendas

Num regresso à unidade primordial

 

Odeio

O “politicamente correcto”

A ausência de Ética…

O falso puritanismo

Dos não puritanos

A pretensa intelectualização

Dos pseudo-intelectuais

Os rótulos existenciais

Dos que ignoram a diferença

Dos que lutam em prol da diversidade

 

Odeio

Os que vivem da vulgaridade

De um estar que não é o seu

Os que ultrapassam

As barreiras do humanismo

 

Odeio

Os discursos retóricos

As palavras que iludem a alma

E que nada dizem

 

Esses discursos demagógicos

Que ludibriam a Razão

Que enternece os inocentes

Com falsas promessa

Sempre adiadas…

Nunca cumpridas…

 

Odeio

A guerra

As matanças desenferadas

Dos povos desprevenidos

Dos que vivem em paz perpétua

E não ficaram

Para escrever outros opúsculos

 

Odeio

O Mundo na sua prepotência

Os estados totalitários

Tirânicos

Opressores dos oprimidos

 

Odeio

A má fé

Os sorrisos abertos

Dissimulados

Que aniquilam os outros

 

Odeio

As gentes

Que não sabem distinguir

A realidade da aparência

A sombra do arquétipo

A cópia do modelo

 

As mentes transviadas,

Eternamente transviadas

Em pleno caos intelectual

Em permanente desvairo

Mergulhadas num espaço quadrado

Onde todas as ideias

Esbarram em todos os vértices…

 

Odeio

As pretensas acções morais

De todos os Narcisos

Esquecidos dos deveres para com o outro

 

Odeio

A Humanidade

Pela ausência de solidariedade

Para com as causas mais nobres,

As menos vísseis

Pela propaganda enganosa

Que fez da caridade

Um verdadeiro momento de glória…

 

Odeio…

Odeio…

Odeio tanta coisa…

Neste Mundo que age

Inconsciente

Em nome de vã glória…

 

È tudo tão descartável

Que os Homens já não sabem mais

Qual o seu topos originário

Há muito perdido

No Labirinto do Minotauro

Sem nenhum fio de Ariana

Por perto…

 

Isabel Rosete

 

9/6/2007

(5.50h)

 

  

NÃO POSSO PENSAR

 

Não posso pensar

No rosto dos homens

Sem ver o interior

Da sua Alma…

 

Cada acto

É um sinal

Visível

Desse interior…

 

Em fragmentação

Em sobressalto

Em agonia

Em prazer

Em comoção…

 

Tudo se passa

Como se alguma coisa

Lhe faltasse

 

Um sorriso

Por vezes

Doce

Por vezes

Pardacento…

 

A Alma humana

Destituiu-se de si….

 

Paira

Na bruma

Das tardes cinzentas

Sem paz…

 

Percorre

Os infinitos caminhos do Mundo…

 

Procura o Paraíso

Em todos os corpos outros

Sem saber

Qual a sua linhagem…

 

Ofusca-se com os raios do Sol

Vagueia pelas ondas do mar

Revoltoso…

 

Parceiro dos ventos do Norte

Que consigo

Tudo arrastam…

 

A Alma

Esse sopro de Vida

Não cabe mais

Dentro dos seus próprios limites…

 

Transcende-se

Rumo ao encontro

De todos os desencontros

Ao impossível de todos os possíveis…

 

Evada-se nas densas dunas

Das praias desertas

Onde se respira

A virgindade da Natureza…

 

Onde se escutam

Os sons primeiros

Vindos das profundezas

Do mar

Salgado…

 

Ora verde

Ora azul

Ora vermelho

Pelo sangue dos corpos

Nele derramados…

 

Quantas batalhas

Quantas guerras

Nele foram sepultadas…

 

A Alma humana

Co-afim com o mar…

 

Em revolta

Se move

Em calmaria

Se descobre…

 

A eterna beleza das coisas simples

Que escapa

Ao turbilhão do mundo…

 

 

Isabel Rosete

(06/o7/o7)