แฟ้มประวัติIsabel Rosete: excertos ...รูปถ่ายบล็อกรายการเพิ่มเติม ![]() | วิธีใช้ |
|
15 กันยายน A ARTE COMO POESIA ESSENCIAL EM QUE UM POVO DIZ O SERA ARTE COMO POESIA ESSENCIAL EM QUE UM POVO DIZ O SER
« (...) Pois desde que a Poesia se libertou dos lábios Mortais, exalando a paz, e o nosso canto, Benfazejo na dor e na fortuna, alegrou O coração dos homens, também nós,
Cantores do povo, gostamos de estar entre os viventes Onde muitos se reúnem, ‑ alegres amigos de cada um, Abertos a cada um; assim também O nosso avô, o Deus do Sol, (...)» Hölderlin
NOTA INTRODUTÓRIA
Heidegger é absolutamente peremptório quando afirma que a Arte é, por essência, Poesia, qual modo privilegiado do obrar humano onde a verdade acontece como espaço de combate ocultante/des-velante. Na sua essência repousam o artista e a obra de arte, pela qual a verdade é posta em obra, ao mesmo tempo que nos transporta para além do habitual, para além do dado na trivialidade da mostração quotidiana comum dos homens que não nomeiam, como o Poeta, a originariedade do Ser. É por isso que a «verdade, observa Heidegger, como clareira e ocultação do ente, acontece na medida em que se poetiza. Toda a arte, enquanto deixar-se acontecer da adveniência da verdade do ente como tal, é na sua essência Poesia. A essência da arte, na qual repousam simultaneamente a obra de arte e o artista, é o pôr-em-obra-da-verdade. A partir da essência poetante da arte acontece que, no meio do ente, ele erige um espaço aberto, em cuja abertura tudo se mostra de um outro modo que não o habitual”.“(...) a poesia é aqui pensada num sentido tão vasto e, ao mesmo tempo, numa união essencial tão íntima com a linguagem e a palavra que tem de permanecer em aberto se a arte, e mais propriamente em todos os seus modos, desde a arquitectura à poesia, esgota a essência da poesia».[1]
I. A INSTAURAÇÃO DA VERDADE COMO COMEÇO E A ARTE COMO POESIA
“Die hier waltende Fragwürdigkeit sammelt sich dann an den eigentlichen Ort der Erörterung, dorthin, wo das Wesen der Sprache und der Dichtung gestreift werden, alles dies wiederum nur im Hinblick auf die Zusammengehörigkeit von Sein und Sage”[2] M. Heidegger
A Arte, na medida em que deixa advir com a máxima fidelidade a verdade do ente é, por excelência, Dichtung, Poema. Por Dichtung não se entende, em sentido próprio, a poesia enquanto género literário, pois o poema jamais é tomado como o resultado de uma “vagabundagem do espírito” inventada a seu bel-prazer, ou como um deixar fluir da imaginação até terminar na irracionalidade. Dichtung, enquanto verdadeiro Poema, é um projecto de iluminação na Abertura, na Lichtung, na clareira, do Ser. A essência do Poema só poderá ser buscada, com um alcance suficientemente claro e evidente, a partir do momento em que a desviarmos dessa qualidade da alma[3]. A Poesia é, radicalmente falando, a obra suprema da Linguagem. A reflexão heideggeriana sobre a linguagem não é mais uma mera perspectivação da relação possivelmente patenteada entre a linguagem e a realidade, sobre a propriedade ou impropriedade da mesma para descrever as coisas, nem tão-só uma mera análise sobre um "aspecto" do estar-aí (Da-sein) do homem. Trata-se, ao invés, de uma reflexão sobre a forma mais eminente do mostra-se da experiência e da expressão da própria realidade. É na linguagem que se dá a abertura do Mundo, que se dá o aparecer do ser de todas as coisas e, por isso, o verdadeiro modo de perscrutação daquilo que se afirma como existente, só pode ser atingido através do auscultar do significado primordial das palavras. As coisas não são fundamentalmente coisas presentes no mundo-exterior, mas na palavra que as nomeia originariamente e as torna acessíveis, até mesmo na presença espacio-temporal. As coisas só são, no sentido do recolectante “fazer-morar", na Linguagem concebida como Poesia. Eis como deveremos entender a afirmação segundo a qual é a palavra que "torna coisa" (be-dinget), a coisa (Ding)”. Para compreendermos este modo de ser da coisa na palavra devemos pensar, antes de mais, no gosto heideggeriano pela etimologia, qual meio de remontar, através das vicissitudes e das conexões das palavras, às dimensões autênticas, ontológicas, da coisa em si mesma nomeada. A figura etimológica, a escavação do significado a partir das raízes verbais e da história das palavras é, na sua mais plena acepção, uma "emergência", um “des-ocultamento", um movimento para a luz. Qualquer investigação séria sobre o ente deve adoptar, como ponto de vista, as considerações linguísticas, em virtude da linguagem se apresentar como a chave que abre a porta do des-velamento do Ser, do Homem e do Mundo. A palavra é um caminho (Weg), ou melhor, o caminho privilegiado que nos permite pensar, através do depoimento existencial que transmite, o Ser do ente, quer dizer, o Ser daquilo que realmente é, amiúde obnubilado no nosso discurso quotidiano, no seio do qual as palavras perderam o seu referente primordial, remetendo umas para as outras e não mais para o Ser. Deparamo-nos, todos os dias, com discursos vazios de conteúdo. O modo de significação do que é, emaranha-se na sequência mais ou menos lógica, no encadeamento de um conjunto de fonemas mais ou menos articulados, mas que perderam de vista a sua veraz significação ontológica. As coisas só são, realmente, enquanto se dão na proximidade do próprio Ser, tomado como aquilo que funda e abre toda a abertura histórica, embora ele-mesmo não se reduza a uma tal abertura. Perspectivando à luz da tese heideggeriana as vivências quotidianas do "Homo Superfulus" – que habita cada vez mais em cada um de nós – não podemos deixar de afirmar, que a palavra e a linguagem jamais são invólucros onde as coisas podem ser empacotadas para o comércio daqueles que as utilizam. Não se podem consumir do mesmo modo que os triviais produtos que esta sociedade consumista nos apresenta e nos pressiona a angariar, sem que tenhamos a mais lúcida consciência disso, nos tão frequentados hipermercados, onde as palavras, os livros que as encerram, são comercializadas de modo similar e, quiçá, com o mesmo estatuto do quilo de arroz. O pensamento ocidental esqueceu, desde há muito, a máxima essencial: é na linguagem, nas palavras, que as coisas nascem e são. Afirmar a existência, dizer que uma coisa é, significa falar do ser das coisas, como somente a Linguagem originária pode fazê-lo. Impõe-se-nos, como estritamente necessária, a refutação da tese que defende a existência de uma arbitrariedade entre o que se diz e o que é, entre o Dizer e o Ser, porque em cada sentença que proferimos o Ser é efectivamente nomeado. Devemos recusar a tendência nominalista da sociedade contemporânea, particularmente registada depois do grande advento da Publicidade que tem feito crer ao comum dos mortais – vagueantes, com as suas mentes errantes por este universo de uma quase arbitrariedade semântica – que as coisas ou os objectos da experiência não têm realidade intrínseca fora da linguagem que as descreve e as faz falar. A linguagem opera o des-velamento das significações do Mundo, não havendo, portanto, dois planos: o do percebido e o do conhecido; o do falado e o do expresso. A palavra não introduz um sentido num conteúdo. É o conteúdo que se revela significante na linguagem. É forçoso, propõe-nos o filósofo da Floresta Negra, que destruamos a perspectiva metafísica: a linguagem não se torna significante a partir dos objectos compreendidos pelo pensamento e significados, em seguida, pelas palavras. São os objectos que adquirem a sua plena capacidade de significação a partir da linguagem falada. O sentido do Discurso – definido por Heidegger em Sein und Zeit como sendo «a articulação significativa da compreensão do ser-no-mundo no sentimento de situação»[4] – nunca é construído, mas sempre descoberto. O mundo mostra-se-nos investido de significações utilitárias e poéticas. Daí que a linguagem seja entendida como uma leitura hermenêutica da experiência, assumindo uma vasta e originária significação ontológica, ao indicar a manifestação do carácter linguístico do Acontecimento do Ser. O homem compreende sempre o Mundo no interior de um projecto interpretativo, cuja linguagem é a sua única justificação. Muito embora as coisas existam fora do gesto falado, o Mundo, esse horizonte inteligível que abre o acesso aos entes, só existe, em sentido autêntico, na e pela interpretação efectuada através da Linguagem. Apenas onde há linguagem há Mundo, quer dizer, uma esfera em permanente transição de decisão e de obra, de acção e de responsabilidade, mas também de arbítrio e de con-fusão. A análise existencial não é senão um estudo do homem no universo do Discurso. O Da-sein determina o modo como o próprio homem se interpreta como ente que fala. E falar equivale a fazer surgir o Ser do real: a linguagem é um modo do Ser, uma estrutura da Ek-sistência. Porém, não é um existencial entre outros, mas o existencial fundamental no qual todos os outros ganham corpo. A linguagem não é somente uma possibilidade do Da-sein, mas uma determinação essencial do ser-homem, não obstante constituir, a um tempo, a sua grandeza e a sua miséria. O Discurso do Mundo é, inextrincavelmente, uma palavra do Ser. E a Ek-sistência é o discurso que reflecte esta linguagem fundamental: «a linguagem é a casa do ser», na qual o homem habita e, deste modo, ek-siste, pertencendo à verdade do Ser que ele próprio vigia. Em Unterwegs zur Sprache (Caminhos da Linguagem), Heidegger afasta toda a falsa interpretação desta metáfora que, aliás, é muito mais do que uma simples metáfora: uma casa recolhe passivamente aqueles que abriga, enquanto a Linguagem tem o poder efectivo de trazer à luz, de des-velar a essência do Ser e o ser do Homem. A importância crucial conferida pelo filósofo à linguagem, na citada passagem de Briefe Über den Humanismus (Carta sobre o Humanismo), resulta justamente da firme convicção segundo a qual a Linguagem é própria do homem, não apenas porque, para além de todas as suas outras faculdades, o homem também tem a genial capacidade de falar, de comunicar inteligivelmente através das palavras mas, sobretudo, porque apenas por intermédio desta irredutível via, tem acesso privilegiado ao Ser.
II. LINGUAGEM E ACONTECIMENTO DO SER
«Por isso (...) foi dado ao homem a língua, o mais perigoso dos bens (...) para que ele dê testemunho do que ele é (...)». Hölderlin
A função da Linguagem é deixar que o Ser seja. Jamais poderemos obnubilar que não é mais o homem que determina o Ser, mas o Ser que, através da Linguagem, se revela ao homem e o determina. Face à significação atribuída a este modo específico de re-velação, o homem surge-nos tão-só como o portador da Linguagem. A Linguagem não radica propriamente na essência do homem. Manifesta uma essência histórico-ontológica fundamental, sendo segundo esta essência que ela é dita como a "Casa do Ser". Cabe ao homem a função exclusiva de mostrar o Ser por seu intermédio. Revelando esse extraordinário poder de manifestar a originariedade e primacialidade da Existência, de fazer advir o Ser à luz, de o des-ocultar, de o colocar na não-latência e com ele a essência do homem, a Linguagem afigura-se como a única morada onde o Ser pode ser realmente acolhido e, posteriormente, mostrado na sua nudez primordial. A Linguagem do Ser suporta a nossa linguagem de todos os dias: o Ser é o não-dito e o não-falado de que se alimenta a nossa palavra. O encontro com o para além das palavras é possível porque o Ser, essa Alma da Linguagem, é o lugar da nossa permanência. A Linguagem, que nos faz comunicar com o Mundo e com os outros homens, exprime sempre algo de diferente do que se diz. Exprime sempre as relações ocultas que as palavras mantêm com o Ser, ou seja, com aquilo que em si mesmo é e não necessita de nada para que seja. A Linguagem é um acontecimento (Ereignis) que, ao manifestar-se, produz a indicação e a língua. A palavra é a marca do acontecimento interior à Linguagem. E a escrita o depósito da Tradição do Ser. Ao interrogar-se o Ser, a Linguagem arranca constantemente a palavra ao peso significativo da tradição, e a escrita aos limites do signo, para a fazer regressar à presença originária que permitiu a sua manifestação. A Linguagem reside na diferença interior à palavra do Ser que se inscreve entre o acontecimento, o qual, ao mesmo tempo, desvela e oculta a letra ou a palavra que morre no limiar da coisa. A ideia de uma linguagem transparente ao espírito é, seguramente, uma ilusão de representação. Há sempre para além da própria palavra, uma palavra essencial que o coloca na presença, mas que não pode ser captada como palavra, porque o acontecimento do Ser é a sua marca concomitantemente oculta e des-velada. Se em Sein und Zeit (Ser e Tempo) a Linguagem já ocupava uma posição peculiar – na medida em que, como signo, revelava a própria estrutura ontológica da mundaneidade – em obras posteriores, como Der Ursprung des Kunstwerkes (A Origem da Obra de Arte) e Hölderlin und das Wesen der Dichtung (Hölderlin e a Essência da Poesia), mostra-se ao filósofo, nesse caminho de des-construção da concepção vulgar de Linguagem (tão-só um meio de comunicação), como o modo próprio do abrir-se na abertura do Ser, enquanto é pensada como Poesia, a Arte originária da palavra: «Segundo a concepção corrente, a linguagem surge como uma forma de comunicação. Serve para a conversação e para a concertação em geral, para o entendimento. A linguagem não é apenas – e não é em primeiro lugar – uma expressão oral e escrita do que importa comunicar. Não transporta apenas em palavras e frases o patente e o latente visado como tal, mas a linguagem é o que primeiro trás ao aberto o ente enquanto ente. Onde nenhuma linguagem advém, como no ser da pedra, da planta e do animal, também aí não há abertura alguma do ente e, consequentemente, também nenhuma abertura de não ente e do vazio.»[5] É neste sentido que a Linguagem é, para Heidegger, “Poesia em sentido essencial”: «porque a linguagem é o acontecimento em que, para o homem, o ente como ente se abre. A Poesia em sentido estrito, é a poesia mais original, no sentido essencial. A linguagem não é, por isso, Poesia, por ser a poesia primordial (Urpoesie), mas a Poesia acontece na linguagem, porque esta guarda a essência original da Poesia.»[6] [1] Heidegger, UKW, in Holzwege, pp. 59 e 62. [2] .”O que aqui se impõe como digno de questão reúne-se então no genuíno lugar da explicação, onde se toca a essência da linguagem e da Poesia, tudo isto, uma vez mais, tendo apenas em vista a pertença recíproca do ser e da palavra”, Martin Heidegger, “Zusätze”, in Holzwege, p. 74 [3] Martin Heidegger, op. cit., p. 82. [4] Martin Heidegger, Sein und Zeit, p.201. [5] Heidegger, UKw, in Holzwege, p. 59. [6] Op. cit., pp. 59-60. A ARTE COMO POESIA ESSENCIAL EM QUE UM POVO DIZ O SER (continuação)
III. A LINGUAGEM COMO POESIA ESSENCIAL
«Gerado no teu seio O divino menino e em volta dele O filho da amiga, chamado João Pelo pai mudo, o audaz A quem foi dado O poder da língua, Para interpretar (...)» Hölderlin
Posto que a abertura do Mundo se dá, sobretudo, na Linguagem, é nela que se pode perscrutar a autêntica inovação ontológica. A «linguagem é poesia no sentido essencial»[7], ou como Heidegger refere, em Einführung in die Metaphysik (Introdução à Metafísica)[8], «a linguagem é poesia originária (Ur-dichtung) em que um povo diz o Ser» e, inversamente, a Grande Poesia, pela qual um povo entra na sua História, inicia a configuração da Linguagem. Dizer que a Linguagem é Poesia, apenas no sentido essencial, significa afirmar que o falar autêntico é criação, abertura e inovação ontológica. Nem todo o falar é criação, já que comummente se torna um mero instrumento de comunicação que se limita a articular e a desenvolver, a partir do seu próprio interior, a abertura já aberta. Na linguagem essencial instituem-se os mundos históricos em que o estar-aí e o ente se relacionam entre si nos vários modos de presença humana no Mundo, o que faz da linguagem, tomada na sua dimensão poética, «o fundo que rege a História do homem», porque, afinal, «o que perdura fundam‑no os poetas». Fundar o que permanece, ou fundar o permanecente, significa des-velar o Ser para que o ente apareça, só pelos poetas alcançado, os únicos capazes de nomear os Deuses e todas as coisas, naquilo que em si mesmas são. O nomear do poeta não consiste em atribuir um nome a uma coisa anteriormente conhecida. Falando, o poeta celebra a palavra essencial e, celebrando-a, o ente passa a ser nomeado no que é. Através desta nomeação, torna-se conhecido enquanto é, pois a poesia é, na sua essência, a "fundação do Ser pela palavra" e esta fundação é doação livre. Quando os Deuses são nomeados originariamente pelo poeta e a essência das coisas se torna palavra, a própria existência humana é inserida num contexto firme e é colocada sobre o terreno desta fundação. A Poesia é, radicalmente falando, não um fenómeno da Cultura ou a expressão de uma "alma natural", mas a obra suprema da Linguagem, dada como projecto de iluminação na abertura, na clareira (Lichtung) do Ser. O dizer do poeta é este mesmo projecto de iluminação onde é dito como o ente chega à abertura. Este dizer que é, em si mesmo, poema, nomeia o Mundo e a Terra, assim como o espaço de jogo do seu combate. Cada língua é o surgimento do dizer no qual, para um povo, se abre historicamente o seu Mundo e onde é salvaguardada a veracidade da Terra, no seu oferecimento primordial. A poesia é – onde a língua manifesta a sua essência, que é o dizer do Ser de todos os entes – essencialmente Pensamento. Pensamento não significa aqui qewria (Théoria), determinação do conhecer como atitude teórica, ou tecnh (Técnica), tomada no sentido da reflexão ao serviço do fazer e do produzir, ou praxiz (Práxis), mas aquilo que pertence (gehören) e escuta (horen) o Ser. «Numa palavra, o pensamento é o pensamento do Ser»[9]. A Poesia é uma forma de Pensamento e este, por seu turno, é por essência, poetizar (dichten). É difícil distinguir, segundo este modo de perspectivação, a Linguagem autêntica, o Pensamento e a Dichtung. Em última análise, e não obstante as diferenças conceptuais que possam evidenciar, estes conceitos acabam por se tornar homólogos, homologia esta que é estabelecida por uma comunidade essencial: das Sein, o Ser.
IV. A INSTAURAÇÃO POÉTICA DO SER E DA VERDADE PELA POESIA
«Muito aprendeu o homem. Dos Celestiais muito nomeou, Desde que somos um Diálogo E podemos ouvir uns dos outros» Hölderlin
Dispondo desse poderoso “instrumento” de des-velamento – a Linguagem – a Poesia afigura-se como sendo uma forma de alhqeia (alêtheia), tal como todas as formas da arte se dar. Em vez de banirmos os Poetas da cidade, como havia pretendido Platão, urge requerê-los. Os Poetas são, para Heidegger, os únicos entes que privilegiadamente dispõem da genial capacidade de instaurar uma ordem durável, ao nomearem as coisas que permanecem inacessíveis ao vulgo. Dizendo o que é o ente na radicalidade do seu Ser, a Poesia instaura-o; e tal instauração possui o carácter de ser um dom fundante e inicial, rebatendo toda a familiaridade da aparência. Fundando poeticamente tudo o que é, o homem funda-se a si mesmo. Compreendemos, assim, porque é que o Das-ein é poético (dichtrich) e em que sentido é dito que «de um modo poético habita o homem sobre esta Terra». Habitar poeticamente significa: estar na presença dos Deuses e ser tocado pela proximidade das coisas. O fundamento do "ser-aí" (Da-sein) humano é, pois, poético, como o próprio acontecer da Linguagem primordial, que é Poesia como fundação do Ser. Se compreendermos esta essência da Poesia – dada como Linguagem primordial de um povo historicamente concebido pela qual diz o seu ser – percebemos, ao mesmo tempo, que a essencialidade da Linguagem tem que ser compreendida a partir da essência da Poesia, tal como a essência da Poesia é compreendida a partir da essência da Linguagem. A Linguagem não é apenas criação e inovação ontológica, como já se havia referido, mas, sobretudo, a sede, o lugar do acontecimento do Ser, como o abrir-se das aberturas históricas em que o Da-sein está lançado. É a linguagem que "rege o nosso estar-aí" e, por esta razão, dependemos dela de um modo umbilicalmente profundo: «a linguagem não é mais um instrumento disponível para o homem, mas aquele acontecimento que dispõe da maior possibilidade de ser homem». Enquanto tal, apropria-se de nós, na medida em que, com as suas estruturas, delimita, desde o início, o campo da nossa possível experiência do Mundo. Só na Linguagem as coisas nos podem aparecer, e só no modo como ela as faz aparecer. É a palavra que proporciona o Ser da coisa. Todo o falar concreto, autêntico, pressupõe que a Linguagem já tenha aberto o Mundo e que também, a nós, nos tenha colocado nele.
Toda a problematização sobre a Linguagem e, em rigor, todo o seu uso ôntico, requerer que ela já nos tenha falado. A Linguagem é mais do que uma faculdade de que dispomos. É um "dirigir-se a nós", sem o qual não poderíamos falar. Se isto significa, para Heidegger, que todo o falar autêntico é fundamentalmente uma escrita, não quer dizer, no entanto, que o homem seja um ouvinte passivo. A Linguagem não é, acidentalmente, um "dirigir-se a nós". É nesse "dirigir-se a nós", que somos os seus ouvintes e respondedores privilegiados, que consiste a sua própria essência. A linguagem, afirma o filósofo em Sein und Zeit (Ser e Tempo)[10], «tem necessidade da fala humana, embora não seja um produto da nossa actividade linguística». É anúncio, apelo, mensagem, e nós, homens, somos por ela usados como ”mensageiros da voz do Ser". A Linguagem não se dá senão no falar do Da-sein. Este falar encontra já delimitadas as suas possibilidades e os seus contornos na própria Linguagem, ainda que não como uma estrutura rígida que o obrigue, mas como um apelo a que responde. É neste sentido que devemos entender porque é que Heidegger retoma do ”poeta do poeta", o romântico Hölderlin, a caracterização do homem como Diálogo, porque é que o ser do homem se funda na Linguagem e, ainda, porque é que só acontece verdadeiramente no Diálogo. A Linguagem não é, portanto, um mero instrumento ou um meio de comunicação, mas a expressão representativa da veracidade do que é comunicado, sempre numa relação com a alteridade: «A linguagem é a casa do Ser (Die Sprache ist das Hause des Seins), sendo por excelência os pensadores (die Denkenden) e os Poetas (das Dichtenden) os guardas (der Wacheter) desta habitação (dieser Behausung)»[11], embora os poetas se apresentem numa relação de primazia para com os pensadores, uma vez que a «poesia penetra toda a arte, todo o acto pelo qual o ser essencial (das Wesende) é desvelado no Belo»[12]. Significará esta afirmação que a Arquitectura (Bauen) e as Artes Plásticas (Bilden) devem ser necessariamente fundadas sobre a Dichtung? Serão todas as Artes meras variantes da arte da palavra? Temos de nos desviar deste impasse bizarro. A Poesia é apenas um modo, entre outros, do projecto de iluminação do Ser. Todavia, sendo a sua essência a Linguagem, a Arquitectura e as Artes Plásticas só são possíveis, só advêm verdadeiramente, por meio da abertura operada pelo dizer e pelo nomear. Só assim podem ser efectivamente guiadas. Todas as artes são, cada uma a seu modo, Dichtung, Poesia, no interior da clareira do Ser, advindo em obra. A Poesia é pensada por Heidegger a partir da poihsiz (Poiesis), ou seja, como um dos modos de manifestação do Ser. A essência da Poesia, apreendida a partir da experiência grega do pensar, brota do Ser, como do seu fundamento original. A questão da essência do poético, bem como a da Arte, não pode ser pensada senão a partir da “Questão do Ser”. Quando o Ser não é mais compreendido no horizonte do tempo, a historicidade poética manifesta-se como o domínio próprio onde a sua Verdade é colocada em obra. Longe de exprimir simplesmente uma Cultura, a Poesia torna possível toda a Cultura. Por conseguinte, se a Arte é na sua essência Dichtung, a essência da Dichtung é precisamente a instauração da Verdade.
Isabel Rosete Agosto 2007 [1] Heidegger, UKW, in Holzwege, pp. 59 e 62. [2] .”O que aqui se impõe como digno de questão reúne-se então no genuíno lugar da explicação, onde se toca a essência da linguagem e da Poesia, tudo isto, uma vez mais, tendo apenas em vista a pertença recíproca do ser e da palavra”, Martin Heidegger, “Zusätze”, in Holzwege, p. 74 [3] Martin Heidegger, op. cit., p. 82. [4] Martin Heidegger, Sein und Zeit, p.201. [5] Heidegger, UKw, in Holzwege, p. 59. [6] Op. cit., pp. 59-60. [7] Martin Heidegger, Hölderlin und das Wesen der Dichtung, p. 40. [8] Martin Heidegger, Einführung in die Metaphysik, p. 37. [9] Martin Heidegger, op. cit., p. 78. [10] Martin Heidegger, Sein und Zeit, p. 13. [11] Martin Heidegger, Lettre sur L’Humanisme, p. 45. [12] Martin Heidegger, Esais et Conférences, p. 47. VAGUEANDO...
Vagueando…
Pensar, morrer, amar, odiar, ou simplesmente vacilar. São estados existenciais de todos os humanos mergulhados num passado que, sempre, corrói.
Somos, eternamente, seres do passado e do presente. Meros instantes, momentos de cólera, de paixão e de compaixão. Seres mundanos e intra-mundanos que se excedem nos limites indeterminados do Universo. Nele nos movemos como pequenos pontos repletos de grandes desejos, de intensas ambições de marés imensas de ilusão, de utopias em que cremos, como se de realidades autênticas se tratassem.
Somos Prozac. Adrenalina pura. Sempre prontos a explodir.
Passeamos, calmante, pelos jardins das nossas cidades, esses jardins de pedra e de caminhos por onde vagueia o nosso imaginário, algures perdido… Mesmo transbordando de originalidade, somos tão comuns, tão mesquinhos, como todos os outros que se nos apresentam como inferiores e, até mesmo, indignos das nossas palavras, dos nossos gestos, por mais insignificantes que sejam. E aí estamos nós. Homens e mulheres, no gigantesco teatro do Mundo, cujo palco é a Vida, a nossa vida, marcada por uma azafama constante, não se sabendo bem em nome de quê, nem para quê… Habituámo-nos a viver em multidão. Perdemos a individualidade. Sabemos que já não vale a pena ser Narciso. Eco morreu longe. A sua voz de alerta não paira mais em derredor dos nossos ouvidos.
Somos todos os outros. Menos nós mesmos. Fixamos o infinito. E perdemo-nos dos outros e nós mesmos. Balbuciamos algumas palavras que, apenas, a nós, nos dizem respeito. Por vezes, também gritamos, bem alto, para que o Mundo inteiro nos ouça. Precisamos de extrapolar todo o sofrimento vivido e por viver. E aí somos o passado. Sim. O passado, mas lançados num futuro que vemos em sonho, alucinados, inquietos, como se tivéssemos a obrigação de controlar tudo. E como se o Tudo fosse ainda pouco. Como se declarássemos a morte ao Acaso, ao Fado, ao Destino.
Somos tão estranhos e tão complexos que mergulhamos, sempre atónitos, na tragédia que, a cada passo, criamos como traço central da nossa própria existência. Marcamos o passo e o compasso do nosso caminhar, mas a um ritmo tão irregular que nos perdemos no contra-tempo.
Somos o tabuleiro do jogo. Outras vezes as peças que sobre ele se deslocam, segundo a vontade dos jogadores, os outros de nós mesmos. E ainda por cima, escravos de tudo isto, como se o papel e a caneta tivessem a estrita e peremptória obrigação de serem os nossos fiéis confessores.
Somos tão estúpidos, tão bestiais… que fingimos não ver o que realmente vemos. Esse célebre pleonasmo, do “visto, claramente visto”, já não faz parte dos tramites da nossa consciência de animais com cio, de tarântulas voadoras, ou de qualquer espécie de aberração que deixámos, pelas nossas próprias mãos, que a Natureza, um dia, criasse. Iludimo-nos e pensamos que somos donos de tudo. Quando, afinal, nem sobre nós mesmos temos algum domínio digno de consideração.
Somos incapazes de perceber o estado da nossa própria humanidade, se é que este vocábulo, tantas vezes repetido, ainda tem algum sentido, algum conteúdo, explícito ou implícito, que nos possa falar. No entanto, continuamos, mesmo que nos vejamos despidos de tudo, desses traços de uma tal humanidade que há muito perdemos de vista, ou que a nossa vista já não alcança…
Meu Deus…! Como a nossa miopia cresceu nestas últimas décadas…! O “Homo Sapiens, Sapiens”, assim nos chamam, é, nos tempos modernos, o “Homo miupus”, aquele que não é capaz de ver para além do que a sua vista torna simplesmente visível na proximidade dos objectos.
Somos, amiúde, puros espectadores passivos, entes sem convicção de identidade própria e determinada.
Somo o que somos. Mas não sabemos o que somos…
Chegamos mesmo ao estado de objecto, entre outros objectos. Nada mais. Passamos por elementos de cálculo, de factura, de recibo, tão descartáveis como quaisquer outros materiais informes, peças de uso quotidiano que, marginalmente, vão excedendo e ascendendo…
Somos estádios de passagem; pequenos detritos do lixo cósmico; pedaços de meteoritos que se estilhaçaram; folhas de árvores caducas, a todo o momento espezinhadas nas ruas, nas praças, nas calçadas perpetuadas pelos passos das gentes…
Mas que tédio…! Que cansaço…! Que atrocidade esta coisa de ser humano entre milhões de ditos e re-ditos seres humanos.
Homem: transcende-te, de uma vez por todas. Passa ao outro de ti mesmo, esse que usa o verdadeiro rosto escondido por detrás do opaco véu do teu inútil viso. Ou, então, se te queres matar, mata-te de uma vez, depois de te esqueceres que és um existente envolto e impregnado em dilemas que te fazem rodopiar como um pião.
Homem: pára, escuta e cresce... Ouve os apelos do Mundo e da Terra que, mesmo martirizados por ti próprio, ainda alcançam o seu grito de alerta, em sinal de um advindo acolhimento, re-colhimento...
Homem: parte e rasga todos os horizontes, reais e possíveis. Só assim quebrarás com o passado, e encontrarás as réstias de um radioso dia…os traços de um tempo outro, ou de um outro tempo…de uma nova idade…de um novo amanhecer…de um outro re-nascer…
Isabel Rosete 24/12/2001
SOMOS AMANTES
Somos amantes Inter-seccionados
Esquecemos o Mundo
Fechamo-nos Nas nossas próprias conchas…
Esquecemos os homens
Queremos ser só nós Nada mais importa…
O Amor preenche-nos Por completo
Alimenta Os nossos corpos Ardentes…
As nossas almas Inundadas Da mais intensa alucinação…
Temo-nos um ao outro E isso basta…
É mais do que tudo Está para além do Nada…
Tornamo-nos esféricos Auto-suficientes…
Esquecemos O próprio Universo
Somos o mesmo corpo A mesma alma O mesmo sangue O mesmo plasma A mesma pele…
Somos um só organismo Que se auto-preenche Sempre prenhe de fertilidade…
Esquecemos a vida Cá fora Repleta de futilidades….
Esquecemos a morte Somos eternos…
Isabel Rosete (06/08/07)
SINTO A HUMANIDADE
Sinto a Humanidade Penso nos Homens No mundo que construíram Em pleno estado de combustão
Os meus horizontes auditivos alargam-se Escuto o pulsar inquietante De todos os corações aflitos Amargurados Despedaçados…
Já não ousam sonhar Já não ousam ter esperança Mesmo que Numa aura longínqua Sintam Pressintam A vizinhança Da salvação
Violência Crime Desrespeito Pelos direitos fundamentais Da Pessoa Humana Enchem a panóplia Do mundo em que vivemos...
Isabel Rosete (14/07/07) PENSAR A HUMANIDADE
Pensar a Humanidade…
É descortinar o abismo do Ser
O inquietante momento originário
Do Tudo e do Nada
Pensar a Humanidade…
É presentificar
A metamorfose
A mudança
As múltiplas faces
De entes camalionicos
De entes que vagueiam
Em derredor
Do seu próprio círculo
Descentrado
Do ponto-chave
Da gravitação
Universal…
Pensar a humanidade…
É o des-velar de caminhos cruzados
E entre-cruzados…
De encontros
E desencontros…
Do determinismo
Da liberdade…
Do livre-arbítrio
Da vontade…
De uma racionalidade
Que apesar
De todos as calamidades
Ainda se considera imaculada…
Nascemos com o rótulo
De “animais racionais”…
Mas o que diremos
Dessa “racionalidade”…?
Perante o vandalismo
O des-equilíbrio
O caos…
A inversão dos valores
A indignidade
Do ser Pessoa
A des-humanidade…
Isabel Rosete
(14/07/07 - 5.00h)
NÃO SEI VIVER
Não sei viver Sem sonhar Sem o prazer Imenso De uma terrível Ou doce ilusão
Sair Evadir-me… É uma necessidade Cada vez mais Imperiosa
Preciso viver outros mundos Outros espaços Outras gentes Outras realidades Outros universos Outros planetas Outros…
Como se a realidade Presente Esta em que vivo Se esgotasse Num instante
Ficasse vazia Sem essência, Sem nada
O Mundo é Tão grande E tão pequeno Ao mesmo tempo…
Esmaga-me Transporta-me Para outros lugares Reais Ou imaginários
Preenche-me E torna-me vazia Num paradoxo infinito De um jogo de forças contrárias Em atracção E exclusão Permanentes…
Tudo morre Tudo nasce Tudo se transforma
Nada permanece… Nada permanece…
A perpétua mudança Instaura-se Num equilíbrio indelével…
E o Ser está aí Permanecente Em cada alvorecer Em cada desfloramento Ocultando-se De todas as coisas… Desvelando-se Em todas as coisas…
Isabel Rosete 06/08/07
EIS A VIVA EXPRESSÃO
Eis a viva expressão Por finos traços De quem agarra a vida Por todos os fios Possíveis De um imaginário Sempre reprodutivo
Quais traços Que descem E ascendem Em múltiplas direcções
Indicam o infinito Que nos apraz bem
São múltiplos os caminhos Não todos os caminhos
Mas os caminhos das palavras Das notas Que preenchem a partitura Que torna presente Todos os sons
Há sempre um som que nos embala Que nos faz vibrar Estremecer ou sonhar Por entre as linhas Nem sempre unidas Dos finos traços Que delineiam os caminhos
O chamamento do som Emerge Que grande promessa…
O som estridente Cristalino do sino Semi-oculto Semi-descoberto Que envolve o corpo e a alma De quem ainda sabe escutar
A escuta Qual motor do mundo Que faz mover o pequeno corpo da bailarina Cujos gestos Mesmo os mais simples Manifestam a pureza De uma alma A nobreza de um carácter Em momentos De perpétua comunhão
Esse corpo e essa alma Que fundidos Se dão a outros corpos E a outras almas Nunca em vão…
Dançam ao som De todos os acordes Fazedores do renascer Em cada instante De um Ser outro De um Ser Sempre renovado Algures Camuflado No seio Da nossa própria interioridade…
Isabel Rosete (1999)
UM OUTRO...
Um outro…
Sempre em ânsia pela hora Em que chegará essa criatura Que tanto amo.
Criatura? Sim. Porque não?
Todo o ser humano é uma criatura, Quiçá, Uma bênção de Deus, Uma dádiva da Natureza…
Trabalho e penso no seu rosto, A cada instante. Nesse jeito calmo de ser, Terno, Com um cheiro de malícia E extrema sensualidade Inconfundível Que percorre todo o seu corpo E a sua alma.
Uma alma que vive intensamente Cada momento Da sua existência individual e colectiva, Como se cada momento fosse O último da sua vida…
Respira e expira a própria vida; Sempre a expira pelas largas narinas Desse rechonchudo nariz, Que diz, Ser a única peça que não se harmoniza Com o seu rosto moreno, Moreno – bombom…
Aí estão apensos uns profundos olhos negros, Que dizem ver sempre mais longe, Até mesmo nos olhos dos outros, Quando os observa Na mais profunda intensidade; Sem pestanejar, Tão fixamente, Como as estrelas que, No céu estrelado, Mantêm o seu brilho. Um brilho denso… quase eterno…
São pérolas negras Que fustigam o meu olhar, Que me trespassam Na minha própria visceralidade, Tal como a penetração Do seu membro erecto Que encaixa e rodopia no fundo da minha intimidade.
Há sempre uma certa magia Em todos os seus actos, Em todos os seus gestos…
Na sua voz grave, Ao mesmo tempo, Doce e terna, De sons gerúndios, Como é típico de todo o ser da América do Sul. Essa magia apaixona, Fascina, Atrai, Como um hímen a limalha de ferro.
De repente, Penetra-nos, Quase sem darmos por isso.
Envolve-nos num misto de sedução, De prazer e de felicidade, Que não é momentânea…
Perpetua-se em cada sinal, Em cada movimento De um corpo deambulante, Exemplificante da singularidade Da alma que o habita;
Tão livre como a da ave que, A qualquer momento, Sabe que pode abandonar a sua gaiola, Mas não a sua prisão.
Vagueara, Quiçá, sem destino, Pelas múltiplas paragens da vida E de todos os destinos humanos.
A atracão que exerce É estranhamente intensa, Torna-se quase inexplicável, Indizível… Inefável… Pertence ao domínio inviolável do SENTIR, Excedendo todo o campo semântico, Por mais Intenso e rico que ele seja.
Tem um toque diferente, Como, Se às vezes, Pertencesse a um outro mundo, A um outro espaço, Que extravasa a vulgaridade De todas as possíveis vivências quotidianas.
Mantém tudo no seu preciso lugar, Como se em si residisse, Irremediavelmente, Um “lugar natural”, Um topos para cada coisa. Todo o desvio é assumido como uma violação inevitável.
A sua presença é tão envolvente, Tão cheia, Tão redonda, Que nada pode deixar de fora.
E aí permanece Como a aranha na sua própria teia.
Todos os seus movimentos Rodopiam nas malhas dessa teia gigantesca, Abrangedora de tudo o que o rodeia, Até mesmo de tudo aquilo De que não tem consciência imediata.
O seu estar Presentifica o próprio Universo; Como se só existíssemos os dois; Como se isso A que chamamos realidade Entrasse em nós, Totalmente.
Nada, Absolutamente nada Pode estar fora do nosso alcance.
Emerge a sensação de absoluto, De Totalidade, Como se nós e Mundo Fossemos uma e a mesma coisa.
Todas as dualidades desaparecem. A união das partes é, De tal modo, Plena, Que a divisibilidade não tem lugar, Em nenhum momento.
Em nós, Permanece o Cheio, O Aberto, Em perfeita comunhão.
E a vida, Apesar de todas as adversidades, Torna-se tão simples, Tão singela, Tão leve, Tão radiosa, Tão apetecível, Que o próprio dormir Não é efémero, Mas um eterno momento de serenidade, De paz, Tão sólida e inevitável, Que nada parece poder deixar de alcançar.
Sempre que esses dois seres se unem, Até ao mais íntimo de si mesmos, O mundo, Neles também penetra, Na forma da mais pura e bela gratuitidade, Que alguma vez Se possa sentir ou imaginar.
A “paz perpétua” assoma, Mesmo nos momentos Onde se gera a agonia, A ansiedade, A angústia, Quando extravasa, Pelo álcool, O néctar dos deuses, Os limites da dita racionalidade, Da dita sobriedade...
São esses os momentos de excesso, Da pura embriaguez catártica.
Os meandros, As fronteiras, Do seu pensamento, Esbatem-se Até às lágrimas.
As ideias, Os sentimentos E pressentimentos, Fluem, Transbordam, Como um rio, Do seu próprio leito.
Há, Nele, Um excesso de caudal Que só a embriaguez despoleta.
Depois, Volta ao silêncio; Ao silêncio da voz. Mas nunca ao silêncio do pensar.
São os momentosos da introversão que, A catarse da embriaguez, Voltará, Depois, A fazer brilhar.
Mas com tanto sofrimento, Com tanta angústia, Que o mundo parece desabar.
A queda é, assaz, efémera, E logo do caos se ergue, De novo, A ordem, Quando diz: “acordar para a realidade”, Numa necessidade De dela sempre se evadir…
Este é o comportamento típico De todo o ser sensível, Plenamente consciente Das atrocidades da Existência humana, Em pleno E permanente sobressalto.
Urge esquecer tudo, Entrar numa outra ordem, Num outro espaço, Trazido por todos os alucinogénios.
E, nem por isso, A ressaca, É assim tão terrível…
A lucidez parece nunca ser Totalmente perdida. É apenas desviada Para outras paragens, Que a imaginação Requerer percorrer.
O mundo e os homens Obrigam-nos a esse esquecimento, Em prol, Mesmo, Da mais efémera ilusão de serenidade.
Nestes momentos, Torna-se um outro de si mesmo. O seu corpo Lânguido, Derrubado, Perde toda a sua natural sensualidade magistral.
Vacila entre o Ser e o Não-ser, Entre o tudo e o nada, Como se quisesse penetrar, De um modo hiperbólico, Nas entranhas de tudo,
Como se fosse uma cobra Que entra pelo meio do silvado E que, Depois de estarrecida, Aí permanece exposta, Desarmada, Porque exausta, Depois de ter comido a sua presa.
Não tem mais forças para se erguer. Quebrou todos os escudos, Tornou-se completamente indefeso, Confundindo-se com o próprio chão, Onde caiu E amoleceu instantaneamente. Sem mais…
Aí permanece estendido, Não com os olhos penetrantes, Fulminantes, Mas amortecidos, Semicerrados, Pelo excesso que neles assoma, Oriundo da aura que espelham.
A alma, Também ela derretida, Despedaçada, Sempre à espera de um novo reencontro consigo mesma, De mais um nascimento, Entre tantos outros passados E entre tantos outros que possivelmente Se adivinham…
Isabel Rosete 02/02/2001
AMAR É O DESESPERO DE UM CORAÇÃO CARENTE
Amar é o desespero de um coração carente À procura da outra metade que o complete
Somos incapazes de nos completar a nós mesmos Precisamos sempre de um outro Qualquer um outro… Procuramos o outro de nós…
Essa terrível e eterna dependência do outro Que não conseguimos Encontrar em nós …
Que desgraça A do coração humano, Sempre em falta, Irremediavelmente só e despedaçado
Lamenta, Lamenta-se…
Não sabe estar só, Dialogar consigo mesmo
Encontra, No seu âmago, O vazio Do seu próprio preenchimento
Amar, É coisa dos homens Sem dúvida Desses seres solitários, Incapazes de percepcionar A solidão como outra forma de amor: O amar-se a si mesmo…
E isso não basta, A estas criaturas errantes?
Não Não basta… Nada basta…
Há sempre um mais e um depois, Que aflora Em todos os pensamentos, Até mesmo, Nos mais recônditos, Inconscientes….
Isabel Rosete 09/05/20007 (6.00h)
ANGEOLOGIAS EM PROSA POÉTICA
ANGEOLOGIAS EM PROSA POÉTICA
Entrar no universo dos Anjos.
Uma metafísica angeológica se nos impõe.
Mas também uma ontologia uma diferença ontológica, uma escala de gradação de entes, de criaturas, na sua irredutibilidade ontológica, ou “enteológica”, uma diferenciação topológica e cronológica, no traço invisível da dualidade cosmológica.
Dois mundos completamente distintos se presentificam, se interpenetram, pelo mais ténue sopro que choca com o rosto dos homens, um sopro oriundo de um a presença incógnita, que se sente e presente, mas que não se vislumbra mais…
Pela mão que toca no ombro, num momento de angústia ou de desespero existencial, para acalmar, apaziguar… ou para trazer a esperança da vinda de um mundo mais radioso, isento de vazio e de solidão.
O toque de uma mão também não vista, mas incomensuravelmente sentida, por um encéfalo, fonte de inteligência, de recordação e de afecto, que comunica monadicamente com outros encéfalos, no seio da multidão, da massa humana indiferente e indiferenciada, do caótico trânsito da cidade minada por projectos ideias, onde ainda se medita, em escassos momentos, sobre o sentido da vida e da morte, do ser, do não-ser e do nada… em busca de um caminho que entrelaça o mesmo “jardim de caminhos que se bifurcam”, entre uma visão a cores e outras a preto e branco.
Sim, “os caminhos que se bifurcam”. Qual universo borgesiano, onde, a cada passo, se ergue um labirinto, no qual todos os homens se perdem…
Um labirinto perdido, infinito, um labirinto de labirintos. O labirinto do Minotauro…
Um sinuoso labirinto crescente, abarca o passado e o futuro, envolvente, ao mesmo tempo que indeterminado e proporcionador de um conhecimento abstracto do mundo.
De longe se vislumbram os restos de tarde, entre os caminhos que se bifurcam, entre as várzeas indistintas…
Paira uma música, ao mesmo tempo aguda, grave e inquietantemente suave, agressiva e embaladora, mágica e embriagante.
Silábica se aproxima a melodia, ao mesmo tempo que afasta, no vaivém do vento que as folhas faz mover. Encaminha os bandos de pássaros que o céu povoam, como nuvens escuras, anunciantes de tempestades...
E aí se encontram os Anjos, no alto, eternos observadores dos homens; mensageiros, comissionários das palavras, anunciadores, intermediários, companheiros, guardas e sombras dos homens.
De assas brancas ou negras, neste tempo de indigência, são entes alados, vagueantes num espaço atópico, num tempo intemporal, num tempo redondo, num espaço e num tempo outro, fora do alcance dos homens.
Atentamente viajam, vigiam e escutam, penetram na interioridade dos homens, eles que são “Nada”, e estes “Tudo”...
É o mundo dos Anjos, eternamente invisíveis, sempre “tão longe e tão perto”, “nas asas do desejo”, entre o mundo dos homens, da efemeridade do visível, das coisas mutantes, da permanente metamorfose, da qual não temos fuga possível, até que a morte nos separe, até que vejamos esse outro lado da vida que não está iluminado, virado para nós…
Assim nos informou Rilke, o poeta do Anjo belo e terrível, consagrado islamicamente, nessa vida confinada à celebração da Vida, à morte e aos amantes, aos terrestres e aos celestes, ao Aberto, à Terra silente, que grita desesperadamente perante o ruído ensurdecedor das máquinas…
Isabel Rosete 2 de Fevereiro de 2005 PENSAR
Pensar
Pensar é ver as estrelas, Que um dia, Desabaram sobre o tecto do Mundo.
Pensar é ler o além, tão esperado, Como desesperante, Face ao ministério do mundo, De que apenas temos sinais, Signos e vestígios de signos.
Vem o martelar da água salgada nas rochas, Que habitam as praias desertas; Essas, onde passam, De sobrevoo, As gaivotas E, por vezes, Os homens Em busca da serenidade Outrora perdida.
Deambulam pelas areias movediças, Autênticos palcos do mundo Onde constroem e destroem As suas próprias moradas.
Uma linguagem incompreensível Vocifera das suas próprias bocas, Com o sabor amargo Da vida não vivida Em terreno firme.
A vida, O trampolim, A barra olímpica Onde caminhamos em perplexos des-equilíbrios, Ao sabor do vento Que bole nossas pernas trôpegas, Como se mal tivéssemos começado a andar.
Nada se fixa no e sobre o homem. E se o mundo é composto de mudança, A metamorfose é o traço do viso desta humanidade, Que a ritmos triclitantes, Cresce dentro desse ser cheio de vazio que somos, Cada um de nós, Um dia rotulados de “animais racionais”, Pretensamente, Supostamente, Pensantes, Inteligentes, Portadores de um raciocínio lógico-discursivo, Hipoteticamente emersos do melhor dos mundos possíveis,
E, afinal, O que queremos de nós, Seres errantes?
E o que queremos do Mundo Que em torno de nós Se move A uma velocidade incomensurável?
Ou desfazemos essa aura de entes Onde fomos depositados, Um dia, Sem que o nosso querer Fosse chamado a opinar Sobre esse modo de existência de caos e de ordem Que, afinal, nos caracteriza, De que somos co-autores e co-produtos Voluntária ou involuntariamente?
Perdemos o rumo, O norte. Mas encontrámos o fio de Ariana Que comanda o nosso Destino. Destino? Mas que Destino? O de sermos uma humanidade emaranhada Nos nós da sua própria teia?
Ariana e a aranha Estão sobre a caução de um certo e mesmo invólucro, Tão opaco, como transparente, Tão sublime, quanto miserável.
E, apesar disso, Ainda podemos falar Da harmonia heracliteana dos contrários? Do caos criativo que, Quiçá, Gera a nossa própria ordem desordenada?
Definitivamente, Somos viandantes. Passageiros de múltiplas paragens, Sem lugar certo e determinado, Sem pátria, sem habitação, sem morada… Permanecentes metamorfoses de espaços de combustão, Do Tempo finitamente infinito, Que também nos domina, Enquanto temos a vã pretensão De o controlar pela minuciosa máquina Que o nosso pulso suporta, Sempre voltada Para os nossos olhos ansiosos De um tempo outro, Onde qualquer ideal possa ser consumado, De preferência, “ad eternum”.
Que ilusão, somos nós, Homens! Entes de palpites inconstantes No pulsar do mundo Que nunca adormece. Desse mundo inquieto, Por vezes, Turbulento, Que gira sobre nós próprios, Que nos faz mover Dentro e fora das nossas órbitas, No espaço debilitado da nossa condição De estritos seres de passagem, Em digressão, Sabe-se lá para onde…
Os pratos da balança Já não se equilibram mais. A medida certa acabou. A incerteza, A dúvida, É o paradeiro do nosso próprio caminhar Em terreno Irremediavelmente movediço, Ao mesmo tempo que estanque… Sempre nos prende as pernas, Sempre trava o nosso caminhar.
Que ilusão, a dos homens, Em querem ser senhores, Dominadores do universo, Físico e humano, Que escassamente habitam.
E o Mundo está aí. Permanece imutável, Na sua essência, Apesar de todas as investidas de uma humanidade, Sempre solitária Que acompanha o furor Das multidões em revolta, Contra o imposto pelas Instituições, Pela Natureza;
De uma humanidade que, Um dia, Alimentou a vã ilusão de Tudo manipular, De ser a gestora de um Universo que, Amiúde, Gosta de se esconder, Na sua mutabilidade camaliónica.
Isabel Rosete 19.01.2001
ODEIO A HIPOCRISIA
Odeio A hipocrisia A solidão das multidões Que crescem Em espaços vazios Dispersos Indiferentes…
O outro Ali apostado Atónito Num mundo que não é mais só seu
As viagens são múltiplas Os caminhos diversos Os do Ser e os do não-Ser Os do Nada…
A metamorfose A mudança Comandam o mundo
O Ser não permanece mais Na sua imutabilidade originária
As sombras As aparências Ofuscam o olhar Dos que querem ver A essência O miolo De um pão bolorento…
A identidade perde-se Somos o mesmo rebanho
Corremos na mesma direcção E já nada identificamos com precisão
A amalgama do mundo Corre nas nossas veias
Do caos faz-se a ordem Do império da Razão Transmutamo-nos Para o reino dos sentidos Holisticamente conjugados Numa teia emaranhada De sendas e vendas Num regresso à unidade primordial
Odeio O “politicamente correcto” A ausência de Ética… O falso puritanismo Dos não puritanos A pretensa intelectualização Dos pseudo-intelectuais Os rótulos existenciais Dos que ignoram a diferença Dos que lutam em prol da diversidade
Odeio Os que vivem da vulgaridade De um estar que não é o seu Os que ultrapassam As barreiras do humanismo
Odeio Os discursos retóricos As palavras que iludem a alma E que nada dizem
Esses discursos demagógicos Que ludibriam a Razão Que enternece os inocentes Com falsas promessa Sempre adiadas… Nunca cumpridas…
Odeio A guerra As matanças desenferadas Dos povos desprevenidos Dos que vivem em paz perpétua E não ficaram Para escrever outros opúsculos
Odeio O Mundo na sua prepotência Os estados totalitários Tirânicos Opressores dos oprimidos
Odeio A má fé Os sorrisos abertos Dissimulados Que aniquilam os outros
Odeio As gentes Que não sabem distinguir A realidade da aparência A sombra do arquétipo A cópia do modelo
As mentes transviadas, Eternamente transviadas Em pleno caos intelectual Em permanente desvairo Mergulhadas num espaço quadrado Onde todas as ideias Esbarram em todos os vértices…
Odeio As pretensas acções morais De todos os Narcisos Esquecidos dos deveres para com o outro
Odeio A Humanidade Pela ausência de solidariedade Para com as causas mais nobres, As menos vísseis Pela propaganda enganosa Que fez da caridade Um verdadeiro momento de glória…
Odeio… Odeio… Odeio tanta coisa… Neste Mundo que age Inconsciente Em nome de vã glória…
È tudo tão descartável Que os Homens já não sabem mais Qual o seu topos originário Há muito perdido No Labirinto do Minotauro Sem nenhum fio de Ariana Por perto…
Isabel Rosete
9/6/2007 (5.50h)
NÃO POSSO PENSAR
Não posso pensar No rosto dos homens Sem ver o interior Da sua Alma…
Cada acto É um sinal Visível Desse interior…
Em fragmentação Em sobressalto Em agonia Em prazer Em comoção…
Tudo se passa Como se alguma coisa Lhe faltasse
Um sorriso Por vezes Doce Por vezes Pardacento…
A Alma humana Destituiu-se de si….
Paira Na bruma Das tardes cinzentas Sem paz…
Percorre Os infinitos caminhos do Mundo…
Procura o Paraíso Em todos os corpos outros Sem saber Qual a sua linhagem…
Ofusca-se com os raios do Sol Vagueia pelas ondas do mar Revoltoso…
Parceiro dos ventos do Norte Que consigo Tudo arrastam…
A Alma Esse sopro de Vida Não cabe mais Dentro dos seus próprios limites…
Transcende-se Rumo ao encontro De todos os desencontros Ao impossível de todos os possíveis…
Evada-se nas densas dunas Das praias desertas Onde se respira A virgindade da Natureza…
Onde se escutam Os sons primeiros Vindos das profundezas Do mar Salgado…
Ora verde Ora azul Ora vermelho Pelo sangue dos corpos Nele derramados…
Quantas batalhas Quantas guerras Nele foram sepultadas…
A Alma humana Co-afim com o mar…
Em revolta Se move Em calmaria Se descobre…
A eterna beleza das coisas simples Que escapa Ao turbilhão do mundo…
Isabel Rosete (06/o7/o7)
CONTRADIÇÕES
Contradições
Vivo o intenso desespero do ser e naõ-ser ao mesmo tempo, Do querer e do não querer, Do considerar que posso ser feliz, Mas ao mesmo tempo de me ver impotente Para alcançar essa felicidade, Tão desejada… Tão esperada… Eternamente vivida num tempo outro
Luto drasticamente contra mim mesma Para realizar os meus sonhos Ao mesmo tempo, Não sei se vale a pena
Estou farta de lutar contra mim, Contra o mundo que não me compreende E no qual não me integro
Sinto-me “atopos”, Quiçá, “Persona no grata”, Ao mesmo tempo que desejada, Amada, Odiada, Perseguida pela inveja, Pela tentativa de aniquilação dos outros Que me rodeiam, Sempre dispostos a destruir o meu sossego psíquico, O meu equilíbrio espiritual…
Mesmo assim, Permaneço, E Aqui estou…
Isabel Rosete, 17/01/2003 AMO O SOL
Amo o Sol Tudo o que brilha Numa intensa e vã agonia
As palavras soltam-se Da minha boca Como dados certeiros
Aos homens se dirigem Visam o seu rosto Dependurado na face do mistério Nos terrores da guerra Na s faces sanguinárias De todos os opressores Nos medos das gentes Acabrunhadas Maltratadas Em nome de um tal dito progresso
Amo a Lua E as suas diversas caras As caras de todos os outros Escondidas noutras faces Ocultas Veladas Pesadas Por vezes, Serenas… Marcadas pelas cicatrizes da vida Que nada perdoa Amarga e doce Com espinhos Aveludadas pétalas Envolventes do nosso ser-aí Inquietante Medonho Ordinário e Extra-ordinário Descomunal Vil Monstruoso e pacificante…
Amo a Criatividade Originalidade De animais castradores…
A morte do outro Apraz-nos bem Engrandece o Ego Sempre em busca de auto-satisfação Mesmo que seja com a desgraça dos outros…
Quem disse que o homem Nasce naturalmente bom?
Quanta ilusão Quanta alucinação
Aparência, Aparência da aparência…
O brilho de Apolo Contra a lucidez dionisíaca O imenso A embriaguez O instinto O hiperbólico A grandiosidade Do “crescendo” De todo o acto de criação…
Não O artista não é um imitador A arte não é mimésis A arte dá-se no desflorar da verdade No brilho da sua adveniência Que é o Belo
Na plena libertação dos sentidos E do sentir…
È matéria e forma Talento e génio O dizível e o indizível O latente e o manifesto O in-habitual Uma outra mundividência Que nos aliena do quotidiano
Uma dádiva epifânica Que aí se mostra E sempre nos fala Do íntimo Das coisas-mesmas Sempre tão próximas…. Sempre tão distantes…
Amo a Arte A mais nobre invenção do espírito humano Que a si tudo chama, Clama… Canta… Eterniza Epifaniza
Na mostração de um tempo outro O artista dá-se Na sua identidade Iluminatória
Um ente hábil Que tudo vê Que tudo acolhe Recolhe… Escuta Com as orelhas da Terra Em permanente grito de alerta, Contra as investidas tecnológicas, Contra os desequilíbrios ecossistemáticos, Contra as malhas Artimanhas do progresso Que sempre avança Sem auto-crítica E racionalidade…
Isabel Rosete 26/05/2007 (17.ooh)
AMAMOS OS OUTROS...
Amamos os outros… Mas não amamos Os outros…
Amamo-nos a nós mesmos Centros de todos os Mundos De todos os Universos De todos os espaços siderais
O egocentrismo É a nossa Marca perpétua
A alteridade Está aí Vemo-la Escutamo-la Mas recusamo-nos A senti-la
Queremos o outro Mas não queremos o outro…
Queremo-nos a nós mesmos Em nós mesmos E não no outro
Fazemos sempre do outro O outro de nós
Giramos em círculo… Nem sempre perfeito Em torno do outro De nós mesmos
Um eterno retorno Ao Ego É a marcha De todos os nossos dias
Bifurcamo-nos nos caminhos dos outros Para nos encontramos A nós mesmos
A permanente busca da Identidade É traço do nosso destino Errante…
Isabel Rosete 6/08/07
AMO
Amo Não sei bem o que amo
Tenho medo de amar De voltar a sofrer De voltar a sonhar…
As ilusões crescem Quando se ama
Emerge A dor A insatisfação A insanidade e a insensatez A cólera… A presença ausente de um outro estado Sempre inacabado… Sempre adiado…
Caminhos que não conduzem A parte alguma Espreitam-nos no amor
Nos caminhos Que se bifurcam Perdemo-nos De nós Do outro…
Encontramos o desfiladeiro Assoma o vazio De uma alma deserta Dispersa Em con-fusão
Alienada pela adrenalina Que sobe Escorrega Desampara Inquieta…
O êxtase da alma É insuportável Em qualquer paixão
As mãos tremem Transpiram…
O coração Consome-se No seu ritmo Acelerado Incontrolável… Incontornável…
O estômago Já não se contém Com tanta ansiedade
Calafrios Pela coluna Sobem e descem
Tudo se move Tudo se transforma A um ritmo Desenfreado Imparável Desmedido…
Assim é o amor Força Que move e comove Despista Corrói…
Cego e surdo Táctil e visual Transporta-nos Para a realidade Do possível, Para o possível Do impossível Para o imaginável Do inimaginável, Para o sonho Do in-sonhável…
Para as correntes tumultuosas De um mar sem fim
Para o infinito Do próprio finito…
Para a alucinação Da sensatez…
Para a irrazoabilidade Do razoável…
Para o ilimitado De todos os limites, Conscientes Ou inconscientes…
Assim é o Amor, Uma força tremenda Gigantesca Arrebatadora Desmedida Enorme…
Dentro de um tempo redondo De um eterno retorno Do mesmo e do outro Com princípio e fim…
Isabel Rosete 26/05/20007
APOLO TOCA A SUA LIRA
Apolo toca a sua lira Faz brotar o sonho A ilusão A medida A aparência O brilho A forma….
Dionísio solta a embriaguez O delírio O êxtase O instinto A força selvagem das entranhas da Terra Num único e majestoso canto De celebração Sem o comércio das palavras Incapazes de dizer o indizível…
Resta o inefável O enigma O mistério, O ante-cantar Que as almas Dignifica…
Os sons Vão e vêm Se apossam De todo o ente carente À espera do sossego musical Da magia inebriante da música A arte das Musas Que tudo atinge Que tudo penetra Até os tenebrosos rochedos Do Cáucaso Onde permaneceu Prometeu Agrilhoado O prudente O previdente…
Aos homens O fogo doou Como sinal do seu amor Qual espécie errante Nasceu Bicéfala Capaz das maiores proezas E das maiores atrocidades…
Isabel Rosete 31/o5/ 20007 (7h.20m)
QUANTOS SÃO OS MISTÉRIOS DA ESCRITA...
Quantos são os mistérios da escrita, No seio da imensidão do nosso universo linguístico
As pausas, Os silêncios, E sempre as palavras Que nos comovem ou, Simplesmente, Nos fazem explodir
Sentimos o enigma do mundo, Na sua dispersão e re-união
Uma inquietante estranheza inicial Coloca-nos na face dos mistérios Insondáveis, Da Natureza E do Homem
Ficamos atónitos O silêncio regressa, Apesar de toda a prosologia
Iniciamos a próxima viagem, Mais uma, Em todo o nosso peregrinar, Tão genuíno como o canto dos pássaros que, A todo o instante, Nos fazem escutar Os seus hinos de celebração da Terra, Que sempre acolhe os nossos passos, Tão pesados quanto a massa do Mundo
Caminhamos para uma nova era, Embora nunca saibamos, Exactamente, Para onde correm os rios
Os rios do “obscuro” de Éfeso Que nos doou essa maravilhosa metáfora Da sucessiva transformação De todas as coisas, Sempre outras, Sempre outras…
Sempre as mesmas, Num eterno retorno, Marcado pelos traços Da esmagadora infinitude… Isabel Rosete 27/o2/2007 |
|
|