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15 กันยายน

A ARTE COMO POESIA ESSENCIAL EM QUE UM POVO DIZ O SER

A ARTE COMO POESIA ESSENCIAL EM QUE UM POVO DIZ O SER

 

 

 

                                               « (...) Pois desde que a Poesia se libertou dos lábios

                                               Mortais, exalando a paz, e o nosso canto,

                                               Benfazejo na dor e na fortuna, alegrou

                                               O coração dos homens, também nós,

 

                                               Cantores do povo, gostamos de estar entre os                                                                                                              viventes

                                               Onde muitos se reúnem, ‑ alegres amigos de cada um,

                                               Abertos a cada um; assim também

                                               O nosso avô, o Deus do Sol, (...)»

                                                                                                          Hölderlin

 

 

 

NOTA INTRODUTÓRIA

 

Heidegger é absolutamente peremptório quando afirma que a Arte é, por essência, Poesia, qual modo privilegiado do obrar humano onde a verdade acontece como espaço de combate ocultante/des-velante.

Na sua essência repousam o artista e a obra de arte, pela qual a verdade é posta em obra, ao mesmo tempo que nos transporta para além do habitual, para além do dado na trivialidade da mostração quotidiana comum dos homens que não nomeiam, como o Poeta, a originariedade do Ser.

É por isso que a «verdade, observa Heidegger, como clareira e ocultação do ente, acontece na medida em que se poetiza. Toda a arte, enquanto deixar-se acontecer da adveniência da verdade do ente como tal, é na sua essência Poesia. A essência da arte, na qual repousam simultaneamente a obra de arte e o artista, é o pôr-em-obra-da-verdade. A partir da essência poetante da arte acontece que, no meio do ente, ele erige um espaço aberto, em cuja abertura tudo se mostra de um outro modo que não o habitual”.“(...) a poesia é aqui pensada num sentido tão vasto e, ao mesmo tempo, numa união essencial tão íntima com a linguagem e a palavra que tem de permanecer em aberto se a arte, e mais propriamente em todos os seus modos, desde a arquitectura à poesia, esgota a essência da poesia».[1]

 

 

I. A INSTAURAÇÃO DA VERDADE COMO COMEÇO E A ARTE COMO POESIA

 

                                                                       Die hier waltende Fragwürdigkeit sammelt sich

 dann an den eigentlichen Ort der Erörterung,

 dorthin, wo das Wesen der Sprache und der

Dichtung gestreift werden, alles dies wiederum

 nur im Hinblick auf die Zusammengehörigkeit

 von Sein und Sage”[2]

                                                                                                                                              M. Heidegger

 

A Arte, na medida em que deixa advir com a máxima fidelidade a verdade do ente é, por excelência, Dichtung, Poema.

Por Dichtung não se entende, em sentido próprio, a poesia enquanto género literário, pois o poema jamais é tomado como o resultado de uma “vagabundagem do espírito” inventada a seu bel-prazer, ou como um deixar fluir da imaginação até terminar na irracionalidade.

Dichtung, enquanto verdadeiro Poema, é um projecto de iluminação na Abertura, na Lichtung, na clareira, do Ser. A essência do Poema só poderá ser buscada, com um alcance suficientemente claro e evidente, a partir do momento em que a desviarmos dessa qualidade da alma[3]. A Poesia é, radicalmente falando, a obra suprema da Linguagem.

A reflexão heideggeriana sobre a linguagem não é mais uma mera perspectivação da relação possivelmente patenteada entre a linguagem e a realidade, sobre a propriedade ou impropriedade da mesma para descrever as coisas, nem tão-só uma mera análise sobre um "aspecto" do estar-aí (Da-sein) do homem.

Trata-se, ao invés, de uma reflexão sobre a forma mais eminente do mostra-se da experiência e da expressão da própria realidade. É na linguagem que se dá a abertura do Mundo, que se dá o aparecer do ser de todas as coisas e, por isso, o verdadeiro modo de perscrutação daquilo que se afirma como existente, só pode ser atingido através do auscultar do significado primordial das palavras.

As coisas não são fundamentalmente coisas presentes no mundo-exterior, mas na palavra que as nomeia originariamente e as torna acessíveis, até mesmo na presença espacio-temporal. As coisas só são, no sentido do recolectante “fazer-morar", na Linguagem concebida como Poesia. Eis como deveremos entender a afirmação segundo a qual é a palavra que "torna coisa" (be-dinget), a coisa (Ding)”.

Para compreendermos este modo de ser da coisa na palavra devemos pensar, antes de mais, no gosto heideggeriano pela etimologia, qual meio de remontar, através das vicissitudes e das conexões das palavras, às dimensões autênticas, ontológicas, da coisa em si mesma nomeada.

A figura etimológica, a escavação do significado a partir das raízes verbais e da história das palavras é, na sua mais plena acepção, uma "emergência", um “des-ocultamento", um movimento para a luz.

Qualquer investigação séria sobre o ente deve adoptar, como ponto de vista, as considerações linguísticas, em virtude da linguagem se apresentar como a chave que abre a porta do des-velamento do Ser, do Homem e do Mundo.

A palavra é um caminho (Weg), ou melhor, o caminho privilegiado que nos permite pensar, através do depoimento existencial que transmite, o Ser do ente, quer dizer, o Ser daquilo que realmente é, amiúde obnubilado no nosso discurso quotidiano, no seio do qual as palavras perderam o seu referente primordial, remetendo umas para as outras e não mais para o Ser.

Deparamo-nos, todos os dias, com discursos vazios de conteúdo. O modo de significação do que é, emaranha-se na sequência mais ou menos lógica, no encadeamento de um conjunto de fonemas mais ou menos articulados, mas que perderam de vista a sua veraz significação ontológica.

As coisas só são, realmente, enquanto se dão na proximidade do próprio Ser, tomado como aquilo que funda e abre toda a abertura histórica, embora ele-mesmo não se reduza a uma tal abertura.

Perspectivando à luz da tese heideggeriana as vivências quotidianas do "Homo Superfulus" – que habita cada vez mais em cada um de nós – não podemos deixar de afirmar, que a palavra e a linguagem jamais são invólucros onde as coisas podem ser empacotadas para o comércio daqueles que as utilizam. Não se podem consumir do mesmo modo que os triviais produtos que esta sociedade consumista nos apresenta e nos pressiona a angariar, sem que tenhamos a mais lúcida consciência disso, nos tão frequentados hipermercados, onde as palavras, os livros que as encerram, são comercializadas de modo similar e, quiçá, com o mesmo estatuto do quilo de arroz.

O pensamento ocidental esqueceu, desde há muito, a máxima essencial: é na linguagem, nas palavras, que as coisas nascem e são. Afirmar a existência, dizer que uma coisa é, significa falar do ser das coisas, como somente a Linguagem originária pode fazê-lo. Impõe-se-nos, como estritamente necessária, a refutação da tese que defende a existência de uma arbitrariedade entre o que se diz e o que é, entre o Dizer e o Ser, porque em cada sentença que proferimos o Ser é efectivamente nomeado.

Devemos recusar a tendência nominalista da sociedade contemporânea, particularmente registada depois do grande advento da Publicidade que tem feito crer ao comum dos mortais – vagueantes, com as suas mentes errantes por este universo de uma quase arbitrariedade semântica – que as coisas ou os objectos da experiência não têm realidade intrínseca fora da linguagem que as descreve e as faz falar.

A linguagem opera o des-velamento das significações do Mundo, não havendo, portanto, dois planos: o do percebido e o do conhecido; o do falado e o do expresso.

A palavra não introduz um sentido num conteúdo. É o conteúdo que se revela significante na linguagem. É forçoso, propõe-nos o filósofo da Floresta Negra, que destruamos a perspectiva metafísica: a linguagem não se torna significante a partir dos objectos compreendidos pelo pensamento e significados, em seguida, pelas palavras. São os objectos que adquirem a sua plena capacidade de significação a partir da linguagem falada.

O sentido do Discurso – definido por Heidegger em Sein und Zeit como sendo «a articulação significativa da compreensão do ser-no-mundo no sentimento de situação»[4] – nunca é construído, mas sempre descoberto.

O mundo mostra-se-nos investido de significações utilitárias e poéticas. Daí que a linguagem seja entendida como uma leitura hermenêutica da experiência, assumindo uma vasta e originária significação ontológica, ao indicar a manifestação do carácter linguístico do Acontecimento do Ser.

O homem compreende sempre o Mundo no interior de um projecto interpretativo, cuja linguagem é a sua única justificação. Muito embora as coisas existam fora do gesto falado, o Mundo, esse horizonte inteligível que abre o acesso aos entes, só existe, em sentido autêntico, na e pela interpretação efectuada através da Linguagem.

Apenas onde há linguagem há Mundo, quer dizer, uma esfera em permanente transição de decisão e de obra, de acção e de responsabilidade, mas também de arbítrio e de con-fusão.

A análise existencial não é senão um estudo do homem no universo do Discurso. O Da-sein determina o modo como o próprio homem se interpreta como ente que fala. E falar equivale a fazer surgir o Ser do real: a linguagem é um modo do Ser, uma estrutura da Ek-sistência.

Porém, não é um existencial entre outros, mas o existencial fundamental no qual todos os outros ganham corpo. A linguagem não é somente uma possibilidade do Da-sein, mas uma determinação essencial do ser-homem, não obstante constituir, a um tempo, a sua grandeza e a sua miséria.

O Discurso do Mundo é, inextrincavelmente, uma palavra do Ser. E a Ek-sistência é o discurso que reflecte esta linguagem fundamental: «a linguagem é a casa do ser», na qual o homem habita e, deste modo, ek-siste, pertencendo à verdade do Ser que ele próprio vigia.

Em Unterwegs zur Sprache (Caminhos da Linguagem), Heidegger afasta toda a falsa interpretação desta metáfora que, aliás, é muito mais do que uma simples metáfora: uma casa recolhe passivamente aqueles que abriga, enquanto a Linguagem tem o poder efectivo de trazer à luz, de des-velar a essência do Ser e o ser do Homem.

A importância crucial conferida pelo filósofo à linguagem, na citada passagem de Briefe Über den Humanismus (Carta sobre o Humanismo), resulta justamente da firme convicção segundo a qual a Linguagem é própria do homem, não apenas porque, para além de todas as suas outras faculdades, o homem também tem a genial capacidade de falar, de comunicar inteligivelmente através das palavras mas, sobretudo, porque apenas por intermédio desta irredutível via, tem acesso privilegiado ao Ser.

 

 

II. LINGUAGEM E ACONTECIMENTO DO SER

 

«Por isso (...) foi dado ao homem a língua, o mais perigoso dos bens (...) para que ele dê testemunho do que ele é (...)».

                                                                                                                                                                             Hölderlin

 

A função da Linguagem é deixar que o Ser seja. Jamais poderemos obnubilar que não é mais o homem que determina o Ser, mas o Ser que, através da Linguagem, se revela ao homem e o determina.

Face à significação atribuída a este modo específico de re-velação, o homem surge-nos tão-só como o portador da Linguagem. A Linguagem não radica propriamente na essência do homem. Manifesta uma essência histórico-ontológica fundamental, sendo segundo esta essência que ela é dita como a "Casa do Ser". Cabe ao homem a função exclusiva de mostrar o Ser por seu intermédio.

Revelando esse extraordinário poder de manifestar a originariedade e primacialidade da Existência, de fazer advir o Ser à luz, de o des-ocultar, de o colocar na não-latência e com ele a essência do homem, a Linguagem afigura-se como a única morada onde o Ser pode ser realmente acolhido e, posteriormente, mostrado na sua nudez primordial.

A Linguagem do Ser suporta a nossa linguagem de todos os dias: o Ser é o não-dito e o não-falado de que se alimenta a nossa palavra. O encontro com o para além das palavras é possível porque o Ser, essa Alma da Linguagem, é o lugar da nossa permanência.

A Linguagem, que nos faz comunicar com o Mundo e com os outros homens, exprime sempre algo de diferente do que se diz. Exprime sempre as relações ocultas que as palavras mantêm com o Ser, ou seja, com aquilo que em si mesmo é e não necessita de nada para que seja.

A Linguagem é um acontecimento (Ereignis) que, ao manifestar-se, produz a indicação e a língua. A palavra é a marca do acontecimento interior à Linguagem. E a escrita o depósito da Tradição do Ser.

Ao interrogar-se o Ser, a Linguagem arranca constantemente a palavra ao peso significativo da tradição, e a escrita aos limites do signo, para a fazer regressar à presença originária que permitiu a sua manifestação. A Linguagem reside na diferença interior à palavra do Ser que se inscreve entre o acontecimento, o qual, ao mesmo tempo, desvela e oculta a letra ou a palavra que morre no limiar da coisa.

A ideia de uma linguagem transparente ao espírito é, seguramente, uma ilusão de representação. Há sempre para além da própria palavra, uma palavra essencial que o coloca na presença, mas que não pode ser captada como palavra, porque o acontecimento do Ser é a sua marca concomitantemente oculta e des-velada.

Se em Sein und Zeit (Ser e Tempo) a Linguagem já ocupava uma posição peculiar – na medida em que, como signo, revelava a própria estrutura ontológica da mundaneidade – em obras posteriores, como Der Ursprung des Kunstwerkes (A Origem da Obra de Arte) e Hölderlin und das Wesen der Dichtung (Hölderlin e a Essência da Poesia), mostra-se ao filósofo, nesse caminho de des-construção da concepção vulgar de Linguagem (tão-só um meio de comunicação), como o modo próprio do abrir-se na abertura do Ser, enquanto é pensada como Poesia, a Arte originária da palavra: «Segundo a concepção corrente, a linguagem surge como uma forma de comunicação. Serve para a conversação e para a concertação em geral, para o entendimento. A linguagem não é apenas – e não é em primeiro lugar – uma expressão oral e escrita do que importa comunicar. Não transporta apenas em palavras e frases o patente e o latente visado como tal, mas a linguagem é o que primeiro trás ao aberto o ente enquanto ente. Onde nenhuma linguagem advém, como no ser da pedra, da planta e do animal, também aí não há abertura alguma do ente e, consequentemente, também nenhuma abertura de não ente e do vazio.»[5]

É neste sentido que a Linguagem é, para Heidegger, “Poesia em sentido essencial”: «porque a linguagem é o acontecimento em que, para o homem, o ente como ente se abre. A Poesia em sentido estrito, é a poesia mais original, no sentido essencial. A linguagem não é, por isso, Poesia, por ser a poesia primordial (Urpoesie), mas a Poesia acontece na linguagem, porque esta guarda a essência original da Poesia.»[6]



[1] Heidegger, UKW, in Holzwege, pp. 59 e 62.

[2] .”O que aqui se impõe como digno de questão reúne-se então no genuíno lugar da explicação, onde se toca a essência da linguagem e da Poesia, tudo isto, uma vez mais, tendo apenas em vista a pertença recíproca do ser e da palavra”, Martin Heidegger, “Zusätze”, in Holzwege, p. 74

[3] Martin Heidegger, op. cit., p. 82.

[4] Martin Heidegger, Sein und Zeit, p.201.

[5] Heidegger, UKw, in Holzwege, p. 59.

[6] Op. cit., pp. 59-60.

 

A ARTE COMO POESIA ESSENCIAL EM QUE UM POVO DIZ O SER (continuação)

 

III. A LINGUAGEM COMO POESIA ESSENCIAL

 

                                                                                                              «Gerado no teu seio

                                                                                                              O divino menino e em volta dele

                                                                                                              O filho da amiga, chamado João

                                                                                                              Pelo pai mudo, o audaz

                                                                                                              A quem foi dado

                                                                                                              O poder da língua,

                                                                                                              Para interpretar (...)»

                                                                                                                                             Hölderlin

 

Posto que a abertura do Mundo se dá, sobretudo, na Linguagem, é nela que se pode perscrutar a autêntica inovação ontológica. A «linguagem é poesia no sentido essencial»[7], ou como Heidegger refere, em Einführung in die Metaphysik (Introdução à Metafísica)[8], «a linguagem é poesia originária (Ur-dichtung) em que um povo diz o Ser» e, inversamente, a Grande Poesia, pela qual um povo entra na sua História, inicia a configuração da Linguagem.

Dizer que a Linguagem é Poesia, apenas no sentido essencial, significa afirmar que o falar autêntico é criação, abertura e inovação ontológica. Nem todo o falar é criação, já que comummente se torna um mero instrumento de comunicação que se limita a articular e a desenvolver, a partir do seu próprio interior, a abertura já aberta.

Na linguagem essencial instituem-se os mundos históricos em que o estar-aí e o ente se relacionam entre si nos vários modos de presença humana no Mundo, o que faz da linguagem, tomada na sua dimensão poética, «o fundo que rege a História do homem», porque, afinal, «o que perdura fundam‑no os poetas».

Fundar o que permanece, ou fundar o permanecente, significa des-velar o Ser para que o ente apareça, só pelos poetas alcançado, os únicos capazes de nomear os Deuses e todas as coisas, naquilo que em si mesmas são.

O nomear do poeta não consiste em atribuir um nome a uma coisa anteriormente conhecida. Falando, o poeta celebra a palavra essencial e, celebrando-a, o ente passa a ser nomeado no que é. Através desta nomeação, torna-se conhecido enquanto é, pois a poesia é, na sua essência, a "fundação do Ser pela palavra" e esta fundação é doação livre.

Quando os Deuses são nomeados originariamente pelo poeta e a essência das coisas se torna palavra, a própria existência humana é inserida num contexto firme e é colocada sobre o terreno desta fundação.

A Poesia é, radicalmente falando, não um fenómeno da Cultura ou a expressão de uma "alma natural", mas a obra suprema da Linguagem, dada como projecto de iluminação na abertura, na clareira (Lichtung) do Ser.

O dizer do poeta é este mesmo projecto de iluminação onde é dito como o ente chega à abertura. Este dizer que é, em si mesmo, poema, nomeia o Mundo e a Terra, assim como o espaço de jogo do seu combate. Cada língua é o surgimento do dizer no qual, para um povo, se abre historicamente o seu Mundo e onde é salvaguardada a veracidade da Terra, no seu oferecimento primordial.

A poesia é – onde a língua manifesta a sua essência, que é o dizer do Ser de todos os entes – essencialmente Pensamento. Pensamento não significa aqui qewria (Théoria), determinação do conhecer como atitude teórica, ou tecnh (Técnica), tomada no sentido da reflexão ao serviço do fazer e do produzir, ou praxiz (Práxis), mas aquilo que pertence (gehören) e escuta (horen) o Ser. «Numa palavra, o pensamento é o pensamento do Ser»[9].

A Poesia é uma forma de Pensamento e este, por seu turno, é por essência, poetizar (dichten). É difícil distinguir, segundo este modo de perspectivação, a Linguagem autêntica, o Pensamento e a Dichtung. Em última análise, e não obstante as diferenças conceptuais que possam evidenciar, estes conceitos acabam por se tornar homólogos, homologia esta que é estabelecida por uma comunidade essencial: das Sein, o Ser.

 

 

 

 

 

IV. A INSTAURAÇÃO POÉTICA DO SER E DA VERDADE PELA POESIA

 

 

                                                                           «Muito aprendeu o homem. Dos Celestiais muito nomeou,

                                                                                              Desde que somos um Diálogo

                                                                                              E podemos ouvir uns dos outros»

                                                                                                                                                              Hölderlin

 

 

Dispondo desse poderoso “instrumento” de des-velamento – a Linguagem – a Poesia afigura-se como sendo uma forma de alhqeia (alêtheia), tal como todas as formas da arte se dar. Em vez de banirmos os Poetas da cidade, como havia pretendido Platão, urge requerê-los. Os Poetas são, para Heidegger, os únicos entes que privilegiadamente dispõem da genial capacidade de instaurar uma ordem durável, ao nomearem as coisas que permanecem inacessíveis ao vulgo.

Dizendo o que é o ente na radicalidade do seu Ser, a Poesia instaura-o; e tal instauração possui o carácter de ser um dom fundante e inicial, rebatendo toda a familiaridade da aparência.

Fundando poeticamente tudo o que é, o homem funda-se a si mesmo. Compreendemos, assim, porque é que o Das-ein é poético (dichtrich) e em que sentido é dito que «de um modo poético habita o homem sobre esta Terra». Habitar poeticamente significa: estar na presença dos Deuses e ser tocado pela proximidade das coisas.

O fundamento do "ser-aí" (Da-sein) humano é, pois, poético, como o próprio acontecer da Linguagem primordial, que é Poesia como fundação do Ser. Se compreendermos esta essência da Poesia – dada como Linguagem primordial de um povo historicamente concebido pela qual diz o seu ser – percebemos, ao mesmo tempo, que a essencialidade da Linguagem tem que ser compreendida a partir da essência da Poesia, tal como a essência da Poesia é compreendida a partir da essência da Linguagem.

A Linguagem não é apenas criação e inovação ontológica, como já se havia referido, mas, sobretudo, a sede, o lugar do acontecimento do Ser, como o abrir-se das aberturas históricas em que o Da-sein está lançado.

É a linguagem que "rege o nosso estar-aí" e, por esta razão, dependemos dela de um modo umbilicalmente profundo: «a linguagem não é mais um instrumento disponível para o homem, mas aquele acontecimento que dispõe da maior possibilidade de ser homem». Enquanto tal, apropria-se de nós, na medida em que, com as suas estruturas, delimita, desde o início, o campo da nossa possível experiência do Mundo.

Só na Linguagem as coisas nos podem aparecer, e só no modo como ela as faz aparecer. É a palavra que proporciona o Ser da coisa. Todo o falar concreto, autêntico, pressupõe que a Linguagem já tenha aberto o Mundo e que também, a nós, nos tenha colocado nele.

 

Toda a problematização sobre a Linguagem e, em rigor, todo o seu uso ôntico, requerer que ela já nos tenha falado. A Linguagem é mais do que uma faculdade de que dispomos. É um "dirigir-se a nós", sem o qual não poderíamos falar.

Se isto significa, para Heidegger, que todo o falar autêntico é fundamentalmente uma escrita, não quer dizer, no entanto, que o homem seja um ouvinte passivo. A Linguagem não é, acidentalmente, um "dirigir-se a nós". É nesse "dirigir-se a nós", que somos os seus ouvintes e respondedores privilegiados, que consiste a sua própria essência.

A linguagem, afirma o filósofo em Sein und Zeit (Ser e Tempo)[10], «tem necessidade da fala humana, embora não seja um produto da nossa actividade linguística». É anúncio, apelo, mensagem, e nós, homens, somos por ela usados como ”mensageiros da voz do Ser".

A Linguagem não se dá senão no falar do Da-sein. Este falar encontra já delimitadas as suas possibilidades e os seus contornos na própria Linguagem, ainda que não como uma estrutura rígida que o obrigue, mas como um apelo a que responde.

É neste sentido que devemos entender porque é que Heidegger retoma do ”poeta do poeta", o romântico Hölderlin, a caracterização do homem como Diálogo, porque é que o ser do homem se funda na Linguagem e, ainda, porque é que só acontece verdadeiramente no Diálogo.

A Linguagem não é, portanto, um mero instrumento ou um meio de comunicação, mas a expressão representativa da veracidade do que é comunicado, sempre numa relação com a alteridade: «A linguagem é a casa do Ser (Die Sprache ist das Hause des Seins), sendo por excelência os pensadores (die Denkenden) e os Poetas (das Dichtenden) os guardas (der Wacheter) desta habitação (dieser Behausung)»[11], embora os poetas se apresentem numa relação de primazia para com os pensadores, uma vez que a «poesia penetra toda a arte, todo o acto pelo qual o ser essencial (das Wesende) é desvelado no Belo»[12].

Significará esta afirmação que a Arquitectura (Bauen) e as Artes Plásticas (Bilden) devem ser necessariamente fundadas sobre a Dichtung? Serão todas as Artes meras variantes da arte da palavra?

Temos de nos desviar deste impasse bizarro. A Poesia é apenas um modo, entre outros, do projecto de iluminação do Ser. Todavia, sendo a sua essência a Linguagem, a Arquitectura e as Artes Plásticas só são possíveis, só advêm verdadeiramente, por meio da abertura operada pelo dizer e pelo nomear. Só assim podem ser efectivamente guiadas. Todas as artes são, cada uma a seu modo, Dichtung, Poesia, no interior da clareira do Ser, advindo em obra.

A Poesia é pensada por Heidegger a partir da poihsiz (Poiesis), ou seja, como um dos modos de manifestação do Ser. A essência da Poesia, apreendida a partir da experiência grega do pensar, brota do Ser, como do seu fundamento original.

A questão da essência do poético, bem como a da Arte, não pode ser pensada senão a partir da “Questão do Ser”. Quando o Ser não é mais compreendido no horizonte do tempo, a historicidade poética manifesta-se como o domínio próprio onde a sua Verdade é colocada em obra.

Longe de exprimir simplesmente uma Cultura, a Poesia torna possível toda a Cultura. Por conseguinte, se a Arte é na sua essência Dichtung, a essência da Dichtung é precisamente a instauração da Verdade.

 

 

 

 

                                                                                              Isabel Rosete

                                                                                              Agosto 2007



[1] Heidegger, UKW, in Holzwege, pp. 59 e 62.

[2] .”O que aqui se impõe como digno de questão reúne-se então no genuíno lugar da explicação, onde se toca a essência da linguagem e da Poesia, tudo isto, uma vez mais, tendo apenas em vista a pertença recíproca do ser e da palavra”, Martin Heidegger, “Zusätze”, in Holzwege, p. 74

[3] Martin Heidegger, op. cit., p. 82.

[4] Martin Heidegger, Sein und Zeit, p.201.

[5] Heidegger, UKw, in Holzwege, p. 59.

[6] Op. cit., pp. 59-60.

[7] Martin Heidegger, Hölderlin und das Wesen der Dichtung, p. 40.

[8] Martin Heidegger, Einführung in die Metaphysik, p. 37.

[9] Martin Heidegger, op. cit., p. 78.

[10] Martin Heidegger, Sein und Zeit, p. 13.

[11] Martin Heidegger, Lettre sur L’Humanisme, p. 45.

[12] Martin Heidegger, Esais et Conférences, p. 47.

  

VAGUEANDO...

 

Vagueando…

 

Pensar, morrer, amar, odiar, ou simplesmente vacilar. São estados existenciais de todos os humanos mergulhados num passado que, sempre, corrói.

 

Somos, eternamente, seres do passado e do presente. Meros instantes, momentos de cólera, de paixão e de compaixão. Seres mundanos e intra-mundanos que se excedem nos limites indeterminados do Universo. Nele nos movemos como pequenos pontos repletos de grandes desejos, de intensas ambições de marés imensas de ilusão, de utopias em que cremos, como se de realidades autênticas se tratassem.

 

Somos Prozac. Adrenalina pura. Sempre prontos a explodir.

 

Passeamos, calmante, pelos jardins das nossas cidades, esses jardins de pedra e de caminhos por onde vagueia o nosso imaginário, algures perdido…

Mesmo transbordando de originalidade, somos tão comuns, tão mesquinhos, como todos os outros que se nos apresentam como inferiores e, até mesmo, indignos das nossas palavras, dos nossos gestos, por mais insignificantes que sejam.

E aí estamos nós. Homens e mulheres, no gigantesco teatro do Mundo, cujo palco é a Vida, a nossa vida, marcada por uma azafama constante, não se sabendo bem em nome de quê, nem para quê…

Habituámo-nos a viver em multidão. Perdemos a individualidade. Sabemos que já não vale a pena ser Narciso. Eco morreu longe. A sua voz de alerta não paira mais em derredor dos nossos ouvidos.

 

Somos todos os outros. Menos nós mesmos. Fixamos o infinito. E perdemo-nos dos outros e nós mesmos.

Balbuciamos algumas palavras que, apenas, a nós, nos dizem respeito. Por vezes, também gritamos, bem alto, para que o Mundo inteiro nos ouça. Precisamos de extrapolar todo o sofrimento vivido e por viver. E aí somos o passado. Sim. O passado, mas lançados num futuro que vemos em sonho, alucinados, inquietos, como se tivéssemos a obrigação de controlar tudo. E como se o Tudo fosse ainda pouco. Como se declarássemos a morte ao Acaso, ao Fado, ao Destino.

 

Somos tão estranhos e tão complexos que mergulhamos, sempre atónitos, na tragédia que, a cada passo, criamos como traço central da nossa própria existência.

Marcamos o passo e o compasso do nosso caminhar, mas a um ritmo tão irregular que nos perdemos no contra-tempo.

 

Somos o tabuleiro do jogo. Outras vezes as peças que sobre ele se deslocam, segundo a vontade dos jogadores, os outros de nós mesmos. E ainda por cima, escravos de tudo isto, como se o papel e a caneta tivessem a estrita e peremptória obrigação de serem os nossos fiéis confessores.

 

Somos tão estúpidos, tão bestiais… que fingimos não ver o que realmente vemos. Esse célebre pleonasmo, do “visto, claramente visto”, já não faz parte dos tramites da nossa consciência de animais com cio, de tarântulas voadoras, ou de qualquer espécie de aberração que deixámos, pelas nossas próprias mãos, que a Natureza, um dia, criasse.

Iludimo-nos e pensamos que somos donos de tudo. Quando, afinal, nem sobre nós mesmos temos algum domínio digno de consideração.

 

Somos incapazes de perceber o estado da nossa própria humanidade, se é que este vocábulo, tantas vezes repetido, ainda tem algum sentido, algum conteúdo, explícito ou implícito, que nos possa falar.

No entanto, continuamos, mesmo que nos vejamos despidos de tudo, desses traços de uma tal humanidade que há muito perdemos de vista, ou que a nossa vista já não alcança…

 

Meu Deus…! Como a nossa miopia cresceu nestas últimas décadas…! O “Homo Sapiens, Sapiens”, assim nos chamam, é, nos tempos modernos, o “Homo miupus”, aquele que não é capaz de ver para além do que a sua vista torna simplesmente visível na proximidade dos objectos.

 

Somos, amiúde, puros espectadores passivos, entes sem convicção de identidade própria e determinada.

 

Somo o que somos. Mas não sabemos o que somos…

 

Chegamos mesmo ao estado de objecto, entre outros objectos. Nada mais. Passamos por elementos de cálculo, de factura, de recibo, tão descartáveis como quaisquer outros materiais informes, peças de uso quotidiano que, marginalmente, vão excedendo e ascendendo…

 

Somos estádios de passagem; pequenos detritos do lixo cósmico; pedaços de meteoritos que se estilhaçaram; folhas de árvores caducas, a todo o momento espezinhadas nas ruas, nas praças, nas calçadas perpetuadas pelos passos das gentes…

 

Mas que tédio…! Que cansaço…! Que atrocidade esta coisa de ser humano entre milhões de ditos e re-ditos seres humanos.

 

Homem: transcende-te, de uma vez por todas. Passa ao outro de ti mesmo, esse que usa o verdadeiro rosto escondido por detrás do opaco véu do teu inútil viso.

Ou, então, se te queres matar, mata-te de uma vez, depois de te esqueceres que és um existente envolto e impregnado em dilemas que te fazem rodopiar como um pião.

 

Homem: pára, escuta e cresce... Ouve os apelos do Mundo e da Terra que, mesmo martirizados por ti próprio, ainda alcançam o seu grito de alerta, em sinal de um advindo acolhimento, re-colhimento...

 

Homem: parte e rasga todos os horizontes, reais e possíveis. Só assim quebrarás com o passado, e encontrarás as réstias de um radioso dia…os traços de um tempo outro, ou de um outro tempo…de uma nova idade…de um novo amanhecer…de um outro re-nascer…

 

 

                                                                                              Isabel Rosete

                                                                                              24/12/2001

 

 

 

 

 

 

  

SOMOS AMANTES

 

Somos amantes

Inter-seccionados

 

Esquecemos o Mundo

 

Fechamo-nos

Nas nossas próprias conchas…

 

Esquecemos os homens

 

Queremos ser só nós

Nada mais importa…

 

O Amor preenche-nos

Por completo

 

Alimenta

Os nossos corpos

Ardentes…

 

As nossas almas

Inundadas

Da mais intensa alucinação…

 

Temo-nos um ao outro

E isso basta…

 

É mais do que tudo

Está para além do Nada…

 

Tornamo-nos esféricos

Auto-suficientes…

 

Esquecemos

O próprio Universo

 

Somos o mesmo corpo

A mesma alma

O mesmo sangue

O mesmo plasma

A mesma pele…

 

Somos um só organismo

Que se auto-preenche

Sempre prenhe de fertilidade…

 

Esquecemos a vida

Cá fora

Repleta de futilidades….

 

Esquecemos a morte

Somos eternos…

 

 

Isabel Rosete

(06/08/07)

 

  

SINTO A HUMANIDADE

 

Sinto a Humanidade

Penso nos Homens

No mundo que construíram

Em pleno estado de combustão

 

Os meus horizontes auditivos alargam-se

Escuto o pulsar inquietante

De todos os corações aflitos

Amargurados

Despedaçados…

 

Já não ousam sonhar

Já não ousam ter esperança

Mesmo que

Numa aura longínqua

Sintam

Pressintam

A vizinhança

Da salvação

 

Violência

Crime

Desrespeito

Pelos direitos fundamentais

Da Pessoa Humana

Enchem a panóplia

Do mundo em que vivemos...

 

 

Isabel Rosete

(14/07/07) 

PENSAR A HUMANIDADE

 

 

Pensar a Humanidade…

É descortinar o abismo do Ser

O inquietante momento originário

Do Tudo e do Nada

 

Pensar a Humanidade…

É presentificar

A metamorfose

A mudança

As múltiplas faces

De entes camalionicos

De entes que vagueiam

Em derredor

Do seu próprio círculo

Descentrado

Do ponto-chave

Da gravitação

Universal…

 

Pensar a humanidade…

É o des-velar de caminhos cruzados

E entre-cruzados…

 

De encontros

E desencontros…

 

Do determinismo

Da liberdade…

 

Do livre-arbítrio

Da vontade…

 

De uma racionalidade

Que apesar

De todos as calamidades

Ainda se considera imaculada…

 

Nascemos com o rótulo

De “animais racionais”…

 

Mas o que diremos

Dessa “racionalidade”…?

 

Perante o vandalismo

O des-equilíbrio

O caos…

 

A inversão dos valores

A indignidade

Do ser Pessoa

A des-humanidade…

 

 

Isabel Rosete

(14/07/07 - 5.00h)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

NÃO SEI VIVER

 

Não sei viver

Sem sonhar

Sem o prazer

Imenso

De uma terrível

Ou doce ilusão

 

Sair

Evadir-me…

É uma necessidade

Cada vez mais

Imperiosa

 

Preciso viver outros mundos

Outros espaços

Outras gentes

Outras realidades

Outros universos

Outros planetas

Outros…

 

Como se a realidade

Presente

Esta em que vivo

Se esgotasse

Num instante

 

Ficasse vazia

Sem essência,

Sem nada

 

O Mundo é

Tão grande

E tão pequeno

Ao mesmo tempo…

 

Esmaga-me

Transporta-me

Para outros lugares

Reais

Ou imaginários

 

Preenche-me

E torna-me vazia

Num paradoxo infinito

De um jogo de forças contrárias

Em atracção

E exclusão

Permanentes…

 

 

Tudo morre

Tudo nasce

Tudo se transforma

 

Nada permanece…

Nada permanece…

 

A perpétua mudança

Instaura-se

Num equilíbrio indelével…

 

E o Ser está aí

Permanecente

Em cada alvorecer

Em cada desfloramento

Ocultando-se

De todas as coisas…

Desvelando-se

Em todas as coisas…

 

 

Isabel Rosete

06/08/07

  

EIS A VIVA EXPRESSÃO

 

Eis a viva expressão

Por finos traços

De quem agarra a vida

Por todos os fios

Possíveis

De um imaginário

Sempre reprodutivo

 

Quais traços

Que descem

E ascendem

Em múltiplas direcções

 

Indicam o infinito

Que nos apraz bem

 

São múltiplos os caminhos

Não todos os caminhos

 

Mas os caminhos das palavras

Das notas

Que preenchem a partitura

Que torna presente

Todos os sons

 

Há sempre um som que nos embala

Que nos faz vibrar

Estremecer ou sonhar

Por entre as linhas

Nem sempre unidas

Dos finos traços

Que delineiam os caminhos

 

O chamamento do som

Emerge

Que grande promessa…

 

O som estridente

Cristalino do sino

Semi-oculto

Semi-descoberto

Que envolve o corpo e a alma

De quem ainda sabe escutar

 

A escuta

Qual motor do mundo

Que faz mover o pequeno corpo da bailarina

Cujos gestos

Mesmo os mais simples

Manifestam a pureza

De uma alma

A nobreza de um carácter

Em momentos

De perpétua comunhão

 

Esse corpo e essa alma

Que fundidos

Se dão a outros corpos

E a outras almas

Nunca em vão…

 

Dançam ao som

De todos os acordes

Fazedores do renascer

Em cada instante

De um Ser outro

De um Ser

Sempre renovado

Algures

Camuflado

No seio

Da nossa própria interioridade…

 

 

Isabel Rosete

(1999)

 

  

UM OUTRO...

 

Um outro…

 

Sempre em ânsia pela hora

Em que chegará essa criatura

Que tanto amo.

 

Criatura?

Sim.

Porque não?

 

Todo o ser humano é uma criatura,

Quiçá,

Uma bênção de Deus,

Uma dádiva da Natureza…

 

Trabalho e penso no seu rosto,

A cada instante.

Nesse jeito calmo de ser,

Terno,

Com um cheiro de malícia

E extrema sensualidade

Inconfundível

Que percorre todo o seu corpo

E a sua alma.

 

Uma alma que vive intensamente

Cada momento

 Da sua existência individual e colectiva,

Como se cada momento fosse

 O último da sua vida…

 

Respira e expira a própria vida;

Sempre a expira pelas largas narinas

Desse rechonchudo nariz,

Que diz,

Ser a única peça que não se harmoniza

Com o seu rosto moreno,

Moreno – bombom…

 

Aí estão apensos uns profundos olhos negros,

Que dizem ver sempre mais longe,

Até mesmo nos olhos dos outros,

Quando os observa

 Na mais profunda intensidade;

Sem pestanejar,

Tão fixamente,

Como as estrelas que,

No céu estrelado,

Mantêm o seu brilho.

Um brilho denso… quase eterno…

 

São pérolas negras

Que fustigam o meu olhar,

Que me trespassam

Na minha própria visceralidade,

Tal como a penetração

Do seu membro erecto

Que encaixa e rodopia no fundo da minha intimidade.

 

Há sempre uma certa magia

Em todos os seus actos,

Em todos os seus gestos…

 

Na sua voz grave,

Ao mesmo tempo,

Doce e terna,

De sons gerúndios,

Como é típico de todo o ser da América do Sul.

Essa magia apaixona,

Fascina,

Atrai,

Como um hímen a limalha de ferro.

 

De repente,

Penetra-nos,

Quase sem darmos por isso.

 

Envolve-nos num misto de sedução,

De prazer e de felicidade,

Que não é momentânea…

 

Perpetua-se em cada sinal,

Em cada movimento

 De um corpo deambulante,

Exemplificante da singularidade

 Da alma que o habita;

 

Tão livre como a da ave que,

A qualquer momento,

Sabe que pode abandonar a sua gaiola,

Mas não a sua prisão.

 

Vagueara,

Quiçá, sem destino,

Pelas múltiplas paragens da vida

E de todos os destinos humanos.

 

A atracão que exerce

É estranhamente intensa,

Torna-se quase inexplicável,

Indizível…

Inefável…

Pertence ao domínio inviolável do SENTIR,

Excedendo todo o campo semântico,

Por mais Intenso e rico que ele seja.

 

Tem um toque diferente,

Como,

Se às vezes,

Pertencesse a um outro mundo,

A um outro espaço,

Que extravasa a vulgaridade

De todas as possíveis vivências quotidianas.

 

Mantém tudo no seu preciso lugar,

Como se em si residisse,

Irremediavelmente,

Um “lugar natural”,

Um topos para cada coisa.

Todo o desvio é assumido como uma violação inevitável.

 

A sua presença é tão envolvente,

Tão cheia,

Tão redonda,

Que nada pode deixar de fora.

 

E aí permanece

Como a aranha na sua própria teia.

 

Todos os seus movimentos

Rodopiam nas malhas dessa teia gigantesca,

Abrangedora de tudo o que o rodeia,

Até mesmo de tudo aquilo

De que não tem consciência imediata.

 

O seu estar

Presentifica o próprio Universo;

Como se só existíssemos os dois;

Como se isso

A que chamamos realidade

Entrasse em nós,

Totalmente.

 

Nada,

Absolutamente nada

Pode estar fora do nosso alcance.

 

Emerge a sensação de absoluto,

De Totalidade,

Como se nós e Mundo

Fossemos uma e a mesma coisa.

 

Todas as dualidades desaparecem.

A união das partes é,

De tal modo,

Plena,

Que a divisibilidade não tem lugar,

Em nenhum momento.

 

Em nós,

Permanece o Cheio,

O Aberto,

Em perfeita comunhão.

 

E a vida,

Apesar de todas as adversidades,

Torna-se tão simples,

Tão singela,

Tão leve,

Tão radiosa,

Tão apetecível,

Que o próprio dormir

Não é efémero,

Mas um eterno momento de serenidade,

De paz,

Tão sólida e inevitável,

Que nada parece poder deixar de alcançar.

 

Sempre que esses dois seres se unem,

Até ao mais íntimo de si mesmos,

O mundo,

Neles também penetra,

Na forma da mais pura e bela gratuitidade,

Que alguma vez

Se possa sentir ou imaginar.

 

A “paz perpétua” assoma,

Mesmo nos momentos

Onde se gera a agonia,

A ansiedade,

A angústia,

Quando extravasa,

Pelo álcool,

O néctar dos deuses,

Os limites da dita racionalidade,

Da dita sobriedade...

 

São esses os momentos de excesso,

Da pura embriaguez catártica.

 

Os meandros,

As fronteiras,

Do seu pensamento,

Esbatem-se

Até às lágrimas.

 

As ideias,

Os sentimentos

E pressentimentos,

Fluem,

Transbordam,

Como um rio,

Do seu próprio leito.

 

Há,

Nele,

Um excesso de caudal

Que só a embriaguez despoleta.

 

Depois,

Volta ao silêncio;

Ao silêncio da voz.

Mas nunca ao silêncio do pensar.

 

São os momentosos da introversão que,

A catarse da embriaguez,

Voltará,

Depois,

A fazer brilhar.

 

Mas com tanto sofrimento,

Com tanta angústia,

Que o mundo parece desabar.

 

A queda é, assaz, efémera,

E logo do caos se ergue,

De novo,

A ordem,

Quando diz: “acordar para a realidade”,

Numa necessidade

De dela sempre se evadir…

 

Este é o comportamento típico

De todo o ser sensível,

Plenamente consciente

Das atrocidades da Existência humana,

Em pleno

E permanente sobressalto.

 

Urge esquecer tudo,

Entrar numa outra ordem,

Num outro espaço,

Trazido por todos os alucinogénios.

 

E, nem por isso,

A ressaca,

É assim tão terrível…

 

A lucidez parece nunca ser

Totalmente perdida.

É apenas desviada

Para outras paragens,

Que a imaginação

Requerer percorrer.

 

O mundo e os homens

Obrigam-nos a esse esquecimento,

Em prol,

Mesmo,

Da mais efémera ilusão de serenidade.

 

Nestes momentos,

Torna-se um outro de si mesmo.

O seu corpo

Lânguido,

Derrubado,

Perde toda a sua natural sensualidade magistral.

 

Vacila entre o Ser e o Não-ser,

Entre o tudo e o nada,

Como se quisesse penetrar,

De um modo hiperbólico,

Nas entranhas de tudo,

 

Como se fosse uma cobra

Que entra pelo meio do silvado

 E que,

Depois de estarrecida,

Aí permanece exposta,

Desarmada,

Porque exausta,

Depois de ter comido a sua presa.

 

Não tem mais forças para se erguer.

Quebrou todos os escudos,

Tornou-se completamente indefeso,

Confundindo-se com o próprio chão,

Onde caiu

E amoleceu instantaneamente.

Sem mais…

 

Aí permanece estendido,

Não com os olhos penetrantes,

Fulminantes,

Mas amortecidos,

Semicerrados,

Pelo excesso que neles assoma,

Oriundo da aura que espelham.

 

A alma,

Também ela derretida,

Despedaçada,

Sempre à espera de um novo reencontro consigo mesma,

De mais um nascimento,

Entre tantos outros passados

E entre tantos outros que possivelmente

Se adivinham…

 

                                                                                  Isabel Rosete

                                                                                  02/02/2001

 

 

 

 

  

AMAR É O DESESPERO DE UM CORAÇÃO CARENTE

 

Amar é o desespero de um coração carente

À procura da outra metade que o complete

 

Somos incapazes de nos completar a nós mesmos

Precisamos sempre de um outro

Qualquer um outro…

Procuramos o outro de nós…

 

Essa terrível e eterna dependência do outro

Que não conseguimos

Encontrar em nós …

 

Que desgraça

A do coração humano,

Sempre em falta,

Irremediavelmente só e despedaçado

 

Lamenta,

Lamenta-se…

 

Não sabe estar só,

Dialogar consigo mesmo

 

Encontra,

No seu âmago,

O vazio

Do seu próprio preenchimento

 

Amar,

É coisa dos homens

Sem dúvida

Desses seres solitários,

Incapazes de percepcionar

A solidão como outra forma de amor:

O amar-se a si mesmo…

 

E isso não basta,

A estas criaturas errantes?

 

Não

Não basta…

Nada basta…

 

Há sempre um mais e um depois,

Que aflora

Em todos os pensamentos,

Até mesmo,

Nos mais recônditos,

Inconscientes….

 

 

    Isabel Rosete

   09/05/20007

   (6.00h)

 

 

 

  

ANGEOLOGIAS EM PROSA POÉTICA

 

ANGEOLOGIAS EM PROSA POÉTICA

 

 

Entrar no universo dos Anjos.

 

Uma metafísica angeológica se nos impõe.

 

Mas também uma ontologia

uma diferença ontológica,

uma escala de gradação de entes,

de criaturas,

na sua irredutibilidade ontológica,

ou “enteológica”,

uma diferenciação topológica e cronológica,

no traço invisível da dualidade cosmológica.

 

Dois mundos completamente distintos se presentificam,

se interpenetram,

pelo mais ténue sopro que choca com o rosto dos homens,

um sopro oriundo de um a presença incógnita,

que se sente e presente, mas que não se vislumbra mais…

 

Pela mão que toca no ombro, num momento de angústia

ou de desespero existencial,

para acalmar, apaziguar…

ou para trazer a esperança da vinda de um mundo mais radioso,

isento de vazio e de solidão.

 

O toque de uma mão também não vista,

mas incomensuravelmente sentida,

por um encéfalo,

fonte de inteligência,

de recordação e de afecto,

que comunica monadicamente com outros encéfalos,

no seio da multidão,

da massa humana indiferente e indiferenciada,

do caótico trânsito da cidade minada por projectos ideias,

onde ainda se medita,

em escassos momentos,

sobre o sentido da vida e da morte, do ser, do não-ser e do nada…

em busca de um caminho que entrelaça o mesmo “jardim de caminhos que se bifurcam”, entre uma visão a cores e outras a preto e branco.

 

Sim, “os caminhos que se bifurcam”.

Qual universo borgesiano,

onde,

a cada passo,

se ergue um labirinto,

no qual todos os homens se perdem…

 

Um labirinto perdido, infinito,

um labirinto de labirintos.

O labirinto do Minotauro…

 

Um sinuoso labirinto crescente,

abarca o passado e o futuro,

envolvente,

ao mesmo tempo que indeterminado

e proporcionador de um conhecimento

abstracto do mundo.

 

De longe se vislumbram os restos de tarde,

entre os caminhos que se bifurcam,

entre as várzeas indistintas…

 

Paira uma música, ao mesmo tempo aguda, grave e inquietantemente suave,

agressiva e embaladora, mágica e embriagante.

 

Silábica se aproxima a melodia,

ao mesmo tempo que afasta,

no vaivém do vento que as folhas faz mover.

Encaminha os bandos de pássaros que o céu povoam,

como nuvens escuras,

anunciantes de tempestades...

 

E aí se encontram os Anjos,

no alto,

eternos observadores dos homens;

mensageiros,

comissionários das palavras,

anunciadores,

intermediários,

companheiros,

guardas e sombras dos homens.

 

De assas brancas ou negras,

neste tempo de indigência,

são entes alados,

vagueantes num espaço atópico,

num tempo intemporal,

num tempo redondo,

num espaço e num tempo outro,

fora do alcance dos homens.

 

Atentamente viajam,

vigiam e escutam,

penetram na interioridade dos homens,

eles que são “Nada”,

e estes “Tudo”...

 

É o mundo dos Anjos,

eternamente invisíveis,

sempre “tão longe e tão perto”,

“nas asas do desejo”,

entre o mundo dos homens,

da efemeridade do visível,

das coisas mutantes,

da permanente metamorfose,

da qual não temos fuga possível,

até que a morte nos separe,

até que vejamos esse outro lado da vida que não está iluminado,

virado para nós…

 

Assim nos informou Rilke,

o poeta do Anjo belo e terrível,

consagrado islamicamente,

nessa vida confinada à celebração da Vida,

à morte e aos amantes,

aos terrestres e aos celestes,

ao Aberto,

à Terra silente,

que grita desesperadamente

perante o ruído ensurdecedor das máquinas…

 

Isabel Rosete

2 de Fevereiro de 2005 

PENSAR

 

Pensar

 

Pensar é ver as estrelas,

Que um dia,

Desabaram sobre o tecto do Mundo.

 

Pensar é ler o além, tão esperado,

Como desesperante,

Face ao ministério do mundo,

De que apenas temos sinais,

Signos e vestígios de signos.

 

Vem o martelar da água salgada nas rochas,

Que habitam as praias desertas;

Essas, onde passam,

De sobrevoo,

As gaivotas

E, por vezes,

Os homens

Em busca da serenidade

Outrora perdida.

 

Deambulam pelas areias movediças,

Autênticos palcos do mundo

Onde constroem e destroem

As suas próprias moradas.

 

Uma linguagem incompreensível

Vocifera das suas próprias bocas,

Com o sabor amargo

Da vida não vivida

Em terreno firme.

 

A vida,

O trampolim,

A barra olímpica

Onde caminhamos em perplexos des-equilíbrios,

Ao sabor do vento

Que bole nossas pernas trôpegas,

Como se mal tivéssemos começado a andar.

 

Nada se fixa no e sobre o homem.

E se o mundo é composto de mudança,

A metamorfose é o traço do viso desta humanidade,

Que a ritmos triclitantes,

Cresce dentro desse ser cheio de vazio que somos,

Cada um de nós,

Um dia rotulados de “animais racionais”,

Pretensamente,

Supostamente,

Pensantes,

Inteligentes,

Portadores de um raciocínio lógico-discursivo,

Hipoteticamente emersos do melhor dos mundos possíveis,

 

E, afinal,

O que queremos de nós,

Seres errantes?

 

E o que queremos do Mundo

Que em torno de nós

Se move

A uma velocidade incomensurável?

 

Ou desfazemos essa aura de entes

Onde fomos depositados,

Um dia,

Sem que o nosso querer

Fosse chamado a opinar

Sobre esse modo de existência de caos e de ordem

Que, afinal, nos caracteriza,

De que somos co-autores e co-produtos

Voluntária ou involuntariamente?

 

Perdemos o rumo,

O norte.

Mas encontrámos o fio de Ariana

Que comanda o nosso Destino.

Destino?

Mas que Destino?

O de sermos uma humanidade emaranhada

Nos nós da sua própria teia?

 

Ariana e a aranha

Estão sobre a caução de um certo e mesmo invólucro,

Tão opaco, como transparente,

Tão sublime, quanto miserável.

 

E, apesar disso,

Ainda podemos falar

Da harmonia heracliteana dos contrários?

Do caos criativo que,

Quiçá,

Gera a nossa própria ordem desordenada?

 

Definitivamente,

Somos viandantes.

Passageiros de múltiplas paragens,

Sem lugar certo e determinado,

Sem pátria, sem habitação, sem morada…

Permanecentes metamorfoses de espaços de combustão,

Do Tempo finitamente infinito,

Que também nos domina,

Enquanto temos a vã pretensão

De o controlar pela minuciosa máquina

Que o nosso pulso suporta,

Sempre voltada

Para os nossos olhos ansiosos

De um tempo outro,

Onde qualquer ideal possa ser consumado,

De preferência, “ad eternum”.

 

Que ilusão, somos nós,

Homens!

Entes de palpites inconstantes

No pulsar do mundo

Que nunca adormece.

Desse mundo inquieto,

Por vezes,

Turbulento,

Que gira sobre nós próprios,

Que nos faz mover

Dentro e fora das nossas órbitas,

No espaço debilitado da nossa condição

De estritos seres de passagem,

Em digressão,

Sabe-se lá para onde…

 

Os pratos da balança

Já não se equilibram mais.

A medida certa acabou.

A incerteza,

A dúvida,

É o paradeiro do nosso próprio caminhar

Em terreno

Irremediavelmente movediço,

Ao mesmo tempo que estanque…

Sempre nos prende as pernas,

Sempre trava o nosso caminhar.

 

Que ilusão, a dos homens,

Em querem ser senhores,

Dominadores do universo,

Físico e humano,

Que escassamente habitam.

 

E o Mundo está aí.

Permanece imutável,

Na sua essência,

Apesar de todas as investidas de uma humanidade,

Sempre solitária

Que acompanha o furor

Das multidões em revolta,

Contra o imposto pelas Instituições,

Pela Natureza;

 

De uma humanidade que,

Um dia,

Alimentou a vã ilusão de Tudo manipular,

De ser a gestora de um Universo que,

Amiúde,

Gosta de se esconder,

Na sua mutabilidade camaliónica.

 

 

  Isabel Rosete

  19.01.2001

 

 

 

  

ODEIO A HIPOCRISIA

 

Odeio

A hipocrisia

A solidão das multidões

Que crescem

Em espaços vazios

Dispersos

Indiferentes…

 

O outro

Ali apostado

Atónito

Num mundo que não é mais só seu

 

As viagens são múltiplas

Os caminhos diversos

Os do Ser e os do não-Ser

Os do Nada…

 

A metamorfose

A mudança

Comandam o mundo

 

O Ser não permanece mais

Na sua imutabilidade originária

 

As sombras

As aparências

Ofuscam o olhar

Dos que querem ver

A essência

O miolo

De um pão bolorento…

 

A identidade perde-se

Somos o mesmo rebanho

 

Corremos na mesma direcção

E já nada identificamos com precisão

 

A amalgama do mundo

Corre nas nossas veias

 

Do caos faz-se a ordem

Do império da Razão

Transmutamo-nos

Para o reino dos sentidos

Holisticamente conjugados

Numa teia emaranhada

De sendas e vendas

Num regresso à unidade primordial

 

Odeio

O “politicamente correcto”

A ausência de Ética…

O falso puritanismo

Dos não puritanos

A pretensa intelectualização

Dos pseudo-intelectuais

Os rótulos existenciais

Dos que ignoram a diferença

Dos que lutam em prol da diversidade

 

Odeio

Os que vivem da vulgaridade

De um estar que não é o seu

Os que ultrapassam

As barreiras do humanismo

 

Odeio

Os discursos retóricos

As palavras que iludem a alma

E que nada dizem

 

Esses discursos demagógicos

Que ludibriam a Razão

Que enternece os inocentes

Com falsas promessa

Sempre adiadas…

Nunca cumpridas…

 

Odeio

A guerra

As matanças desenferadas

Dos povos desprevenidos

Dos que vivem em paz perpétua

E não ficaram

Para escrever outros opúsculos

 

Odeio

O Mundo na sua prepotência

Os estados totalitários

Tirânicos

Opressores dos oprimidos

 

Odeio

A má fé

Os sorrisos abertos

Dissimulados

Que aniquilam os outros

 

Odeio

As gentes

Que não sabem distinguir

A realidade da aparência

A sombra do arquétipo

A cópia do modelo

 

As mentes transviadas,

Eternamente transviadas

Em pleno caos intelectual

Em permanente desvairo

Mergulhadas num espaço quadrado

Onde todas as ideias

Esbarram em todos os vértices…

 

Odeio

As pretensas acções morais

De todos os Narcisos

Esquecidos dos deveres para com o outro

 

Odeio

A Humanidade

Pela ausência de solidariedade

Para com as causas mais nobres,

As menos vísseis

Pela propaganda enganosa

Que fez da caridade

Um verdadeiro momento de glória…

 

Odeio…

Odeio…

Odeio tanta coisa…

Neste Mundo que age

Inconsciente

Em nome de vã glória…

 

È tudo tão descartável

Que os Homens já não sabem mais

Qual o seu topos originário

Há muito perdido

No Labirinto do Minotauro

Sem nenhum fio de Ariana

Por perto…

 

Isabel Rosete

 

9/6/2007

(5.50h)

 

  

NÃO POSSO PENSAR

 

Não posso pensar

No rosto dos homens

Sem ver o interior

Da sua Alma…

 

Cada acto

É um sinal

Visível

Desse interior…

 

Em fragmentação

Em sobressalto

Em agonia

Em prazer

Em comoção…

 

Tudo se passa

Como se alguma coisa

Lhe faltasse

 

Um sorriso

Por vezes

Doce

Por vezes

Pardacento…

 

A Alma humana

Destituiu-se de si….

 

Paira

Na bruma

Das tardes cinzentas

Sem paz…

 

Percorre

Os infinitos caminhos do Mundo…

 

Procura o Paraíso

Em todos os corpos outros

Sem saber

Qual a sua linhagem…

 

Ofusca-se com os raios do Sol

Vagueia pelas ondas do mar

Revoltoso…

 

Parceiro dos ventos do Norte

Que consigo

Tudo arrastam…

 

A Alma

Esse sopro de Vida

Não cabe mais

Dentro dos seus próprios limites…

 

Transcende-se

Rumo ao encontro

De todos os desencontros

Ao impossível de todos os possíveis…

 

Evada-se nas densas dunas

Das praias desertas

Onde se respira

A virgindade da Natureza…

 

Onde se escutam

Os sons primeiros

Vindos das profundezas

Do mar

Salgado…

 

Ora verde

Ora azul

Ora vermelho

Pelo sangue dos corpos

Nele derramados…

 

Quantas batalhas

Quantas guerras

Nele foram sepultadas…

 

A Alma humana

Co-afim com o mar…

 

Em revolta

Se move

Em calmaria

Se descobre…

 

A eterna beleza das coisas simples

Que escapa

Ao turbilhão do mundo…

 

 

Isabel Rosete

(06/o7/o7)

 

 

 

  

CONTRADIÇÕES

 

Contradições

 

Vivo o intenso desespero do ser e naõ-ser ao mesmo tempo,

Do querer e do não querer,

Do considerar que posso ser feliz,

Mas ao mesmo tempo de me ver impotente

Para alcançar essa felicidade,

Tão desejada…

Tão esperada…

Eternamente vivida num tempo outro

 

Luto drasticamente contra mim mesma

Para realizar os meus sonhos

Ao mesmo tempo,

Não sei se vale a pena

 

Estou farta de lutar contra mim,

Contra o mundo que não me compreende

E no qual não me integro

 

Sinto-me “atopos”,

Quiçá,

“Persona no grata”,

Ao mesmo tempo que desejada,

Amada,

Odiada,

Perseguida pela inveja,

Pela tentativa de aniquilação dos outros

Que me rodeiam,

Sempre dispostos a destruir o meu sossego psíquico,

O meu equilíbrio espiritual…

 

Mesmo assim,

Permaneço,

E Aqui estou…

 

Isabel Rosete, 17/01/2003 

AMO O SOL

 

Amo o Sol

Tudo o que brilha

Numa intensa e vã agonia

 

As palavras soltam-se

Da minha boca

Como dados certeiros

 

Aos homens se dirigem

Visam o seu rosto

Dependurado na face do mistério

Nos terrores da guerra

Na s faces sanguinárias

De todos os opressores

Nos medos das gentes

Acabrunhadas

Maltratadas

Em nome de um tal dito progresso

 

Amo a Lua

E as suas diversas caras

As caras de todos os outros

Escondidas noutras faces

Ocultas

Veladas

Pesadas

Por vezes,

Serenas…

Marcadas pelas cicatrizes da vida

Que nada perdoa

Amarga e doce

Com espinhos

Aveludadas pétalas

Envolventes do nosso ser-aí

Inquietante

Medonho

Ordinário e Extra-ordinário

Descomunal

Vil

Monstruoso e pacificante…

 

Amo a Criatividade

Originalidade

De animais castradores…

 

A morte do outro

Apraz-nos bem

Engrandece o Ego

Sempre em busca de auto-satisfação

Mesmo que seja com a desgraça dos outros…

 

Quem disse que o homem

Nasce naturalmente bom?

 

Quanta ilusão

Quanta alucinação

 

Aparência,

Aparência da aparência…

 

O brilho de Apolo

Contra a lucidez dionisíaca

O imenso

A embriaguez

O instinto

O hiperbólico

A grandiosidade

Do “crescendo”

De todo o acto de criação…

 

Não

O artista não é um imitador

A arte não é mimésis

A arte dá-se no desflorar da verdade

No brilho da sua adveniência

Que é o Belo

 

Na plena libertação dos sentidos

E do sentir…

 

È matéria e forma

Talento e génio

O dizível e o indizível

O latente e o manifesto

O in-habitual

Uma outra mundividência

Que nos aliena do quotidiano

 

Uma dádiva epifânica

Que aí se mostra

E sempre nos fala

Do íntimo

Das coisas-mesmas

Sempre tão próximas….

Sempre tão distantes…

 

Amo a Arte

A mais nobre invenção do espírito humano

Que a si tudo chama,

Clama…

Canta…

Eterniza

Epifaniza

 

Na mostração de um tempo outro

O artista dá-se

Na sua identidade

Iluminatória

 

Um ente hábil

Que tudo vê

Que tudo acolhe

Recolhe…

Escuta

Com as orelhas da Terra

Em permanente grito de alerta,

Contra as investidas tecnológicas,

Contra os desequilíbrios ecossistemáticos,

Contra as malhas

Artimanhas do progresso

Que sempre avança

Sem auto-crítica

E racionalidade…

 

 

                                                                                  Isabel Rosete

                                                                                  26/05/2007

                                                                                  (17.ooh)

 

 

 

 

 

 

  

AMAMOS OS OUTROS...

 

Amamos os outros…

Mas não amamos

Os outros…

 

Amamo-nos a nós mesmos

Centros de todos os Mundos

De todos os Universos

De todos os espaços siderais

 

O egocentrismo

É a nossa

Marca perpétua

 

A alteridade

Está aí

Vemo-la

Escutamo-la

Mas recusamo-nos

A senti-la

 

Queremos o outro

Mas não queremos o outro…

 

Queremo-nos a nós mesmos

Em nós mesmos

E não no outro

 

Fazemos sempre do outro

O outro de nós

 

Giramos em círculo…

Nem sempre perfeito

Em torno do outro

De nós mesmos

 

Um eterno retorno

Ao Ego

É a marcha

De todos os nossos dias

 

 

Bifurcamo-nos nos caminhos dos outros

Para nos encontramos

A nós mesmos

 

A permanente busca da Identidade

É traço do nosso destino

Errante…

 

 

Isabel Rosete

6/08/07

  

AMO

 

Amo

Não sei bem o que amo

 

Tenho medo de amar

De voltar a sofrer

De voltar a sonhar…

 

As ilusões crescem

Quando se ama

 

Emerge

A dor

A insatisfação

A insanidade e a insensatez

A cólera…

A presença ausente de um outro estado

Sempre inacabado…

Sempre adiado…

 

Caminhos que não conduzem

A parte alguma

Espreitam-nos no amor

 

Nos caminhos

Que se bifurcam

Perdemo-nos

De nós

Do outro…

 

Encontramos o desfiladeiro

Assoma o vazio

De uma alma deserta

Dispersa

Em con-fusão

 

Alienada pela adrenalina

Que sobe

Escorrega

Desampara

Inquieta…

 

O êxtase da alma

É insuportável

Em qualquer paixão

 

As mãos tremem

Transpiram…

 

O coração

Consome-se

No seu ritmo

Acelerado

Incontrolável…

Incontornável…

 

O estômago

Já não se contém

Com tanta ansiedade

 

Calafrios

Pela coluna

Sobem e descem

 

Tudo se move

Tudo se transforma

A um ritmo

Desenfreado

Imparável

Desmedido…

 

Assim é o amor

Força

Que move e comove

Despista

Corrói…

 

Cego e surdo

Táctil e visual

Transporta-nos

Para a realidade

Do possível,

Para o possível

Do impossível

Para o imaginável

Do inimaginável,

Para o sonho

Do in-sonhável…

 

Para as correntes tumultuosas

De um mar sem fim

 

Para o infinito

Do próprio finito…

 

Para a alucinação

Da sensatez…

 

Para a irrazoabilidade

Do razoável…

 

Para o ilimitado

De todos os limites,

Conscientes

Ou inconscientes…

 

Assim é o Amor,

Uma força tremenda

Gigantesca

Arrebatadora

Desmedida

Enorme…

 

Dentro de um tempo redondo

De um eterno retorno

Do mesmo e do outro

Com princípio e fim…

 

 

                                                                       Isabel Rosete

                                                                       26/05/20007

 

  

APOLO TOCA A SUA LIRA

 

Apolo toca a sua lira

Faz brotar o sonho

A ilusão

A medida

A aparência

O brilho

A forma….

 

Dionísio solta a embriaguez

O delírio

O êxtase

O instinto

A força selvagem das entranhas da Terra

Num único e majestoso canto

De celebração

Sem o comércio das palavras

Incapazes de dizer o indizível…

 

Resta o inefável

O enigma

O mistério,

O ante-cantar

Que as almas

Dignifica…

 

Os sons

Vão e vêm

Se apossam

De todo o ente carente

À espera do sossego musical

Da magia inebriante da música

A arte das Musas

Que tudo atinge

Que tudo penetra

Até os tenebrosos rochedos

Do Cáucaso

Onde permaneceu Prometeu

Agrilhoado

O prudente

O previdente…

 

Aos homens

O fogo doou

Como sinal do seu amor

Qual espécie errante

Nasceu

Bicéfala

Capaz das maiores proezas

E das maiores atrocidades…

 

 

                                                                       Isabel Rosete

                                                                       31/o5/ 20007

                                                                       (7h.20m)

 

 

 

  

QUANTOS SÃO OS MISTÉRIOS DA ESCRITA...

 

Quantos são os mistérios da escrita,

No seio da imensidão do nosso universo linguístico

 

As pausas,

Os silêncios,

E sempre as palavras

Que nos comovem ou,

Simplesmente,

Nos fazem explodir

 

Sentimos o enigma do mundo,

Na sua dispersão e re-união

 

Uma inquietante estranheza inicial

Coloca-nos na face dos mistérios

Insondáveis,

Da Natureza

E do Homem

 

Ficamos atónitos

O silêncio regressa,

Apesar de toda a prosologia

 

Iniciamos a próxima viagem,

Mais uma,

Em todo o nosso peregrinar,

Tão genuíno como o canto dos pássaros que,

A todo o instante,

Nos fazem escutar

Os seus hinos de celebração da Terra,

Que sempre acolhe os nossos passos,

Tão pesados quanto a massa do Mundo

 

Caminhamos para uma nova era,

Embora nunca saibamos,

Exactamente,

Para onde correm os rios

 

Os rios do “obscuro” de Éfeso

Que nos doou essa maravilhosa metáfora

Da sucessiva transformação

De todas as coisas,

Sempre outras,

Sempre outras…

 

Sempre as mesmas,

Num eterno retorno,

Marcado pelos traços

Da esmagadora infinitude…

Isabel Rosete

27/o2/2007