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27 มิถุนายน OLHOS AZUISOlhos azuis cintilam na brancura rosada de uma face ainda imaculada. São pedras preciosas inscritas no alvor da pureza de uma alma tão grande, capaz de se dar ao esplendor do próprio Universo.
Nos seus finos lábios sempre se rasga um sorriso luminoso, tão incandescente, quanto a mais bela das estrelas, deste céu que ainda nos cobre.
Que doçura inspira nos que a olham, na sua inocência de menina, tão pura, tão leve que, o mais ténue sopro, pode arrastar a seu espírito até às profundezas da Terra.
Sabe amar como ninguém.
Esses lindos olhos azuis fazem transparecer esse amor verdadeiro, em cada lento e terno pestanejar.
Azul do céu. Azul do mar. Azul da Lua… Azul daquilo que se quiser…Azul do tudo e do nada… Azul que, sempre, reflecte um singelo ser transparente, uma dádiva divina. A infinitude do ser, do estar e do amar que lhe é próprio.
Azul dos espaços siderais. Azul do infinito, do ilimitado de todos os horizontes. Azul de todos os desejos, de todos os instintos, de todas as pulsões. Azul de todos os amores, da esperança, do olhar fixo e profundo, que tudo olha e vê.
Isabel Rosete 9/1/2001- 3/7/2007
UMA ESPÉCIE DE SOSSEGO MUSICALUma espécie de sossego musical Desponta Numa alma Sempre aberta A todos os Renascimentos
Sempre disposta A partilhar Com a alteridade Os mais preciosos frutos De cada amanhecer
Isabel Rosete (8/3/99)
PROCURO A INOCÊNCIA E A BELEZAProcuro a inocência e a beleza Em cada amanhecer Em cada olhar Em cada gesto Por mais simples E singelo que seja
Procuro a paz Em cada ente Que cruza O meu caminho Tão errante Como o das Aves migratórias
Encontro o meu Eu Permaneço Em estado de graça
A tranquilidade assoma O mundo Avança
Escuto o canto dos pássaros Tão virgem Como a terra imaculada
Penso no infinito Contemplo as estrelas Que tudo iluminam Até os meus passos Em calçadas escorregadias
Desperdiço o afecto dos outros Centro-me em mim Nas minhas paixões Vividas e por viver…
Uma ânsia de futuro Do amanhã De um tempo outro
Tudo corre em infinitas direcções Num tempo e num espaço Que me escapam Mesmo que os viva Assim Tão intensamente
Quero o Universo em mim O mundo não besta É demasiado pequeno Para comportar os meus desejos
Uma espécie de megalomania universal Percorre todo o meu ser Prenhe de pensamentos De ideias Claras e distintas…
Movem-se num espaço Completamente aberto Sem fronteiras Sem limites Sem freios
Sou completamente livre
O Universo espera-me Em nome do reencontro derradeiro Com o Uno primordial
Apolo toca a sua lira Faz brotar o sonho A ilusão A medida A aparência O brilho A forma….
Dionísio solta a embriaguez O delírio O êxtase O instinto A força selvagem das entranhas da Terra Num único e majestoso canto De celebração Sem o comércio das palavras Incapazes de dizer o indizível…
Resta o inefável O enigma O mistério, O ante-cantar Que as almas Dignifica
Os sons Vão e vêm Se apossam De todo o ente carente À espera do sossego musical Da magia inebriante da música A arte das Musas Que tudo atinge Que tudo penetra Até os tenebrosos rochedos Do Cáucaso Onde permanece Prometeu Agrilhoado O prudente O previdente…
Aos homens O fogo doou Como sinal do seu amor Qual espécie errante, Bicéfala Capaz das maiores proezas E das mais cruéis atrocidades…
Isabel Rosete 31/o5/ 20007 (7h.20m)
EM NOME DO AMOREm nome do amor Navegámos por um mar longínquo Encalhámos no cais mais distante De nós de do mundo Remámos contra a maré E não nos encontrámos
Em nome do amor Percorremos Serras e Montes De uma altitude inimaginável Caímos E não nos levantámos
Em nome do amor Caminhámos pelas estradas da vida Nem sempre vivida Com a felicidade que desejámos Por vezes Rimos Por vezes Chorámos E ainda não nos encontrámos
Isabel Rosete (17/3/99)
AMO O SOLAmo o Sol Tudo o que brilha Numa intensa e vã agonia
As palavras soltam-se Da minha boca Como dados certeiros
Aos homens se dirigem Visam o seu rosto Dependurado na face do mistério Nos terrores da guerra Na s faces sanguinárias De todos os opressores Nos medos das gentes Acabrunhadas Maltratadas Em nome de um tal dito progresso
Amo a Lua E as suas diversas caras As caras de todos os outros Escondidas noutras faces Ocultas Veladas Pesadas Por vezes, Serenas… Marcadas pelas cicatrizes da vida Que nada perdoa Amarga e doce Com espinhos Aveludadas pétalas Envolventes do nosso ser-aí Inquietante Medonho Ordinário e Extra-ordinário Descomunal Vil Monstruoso e pacificante…
Amo a Criatividade Originalidade De animais castradores…
A morte do outro Apraz-nos bem Engrandece o Ego Sempre em busca de auto-satisfação Mesmo que seja com a desgraça dos outros…
Quem disse que o homem Nasce naturalmente bom?
Quanta ilusão Quanta alucinação
Aparência, Aparência da aparência…
O brilho de Apolo Contra a lucidez dionisíaca O imenso A embriaguez O instinto O hiperbólico A grandiosidade Do “crescendo” De todo o acto de criação…
Não O artista não é um imitador A arte não é mimésis A arte dá-se no desflorar da verdade No brilho da sua adveniência Que é o Belo
Na plena libertação dos sentidos E do sentir…
È matéria e forma Talento e génio O dizível e o indizível O latente e o manifesto O in-habitual Uma outra mundividência Que nos aliena do quotidiano
Uma dádiva epifânica Que aí se mostra E sempre nos fala Do íntimo Das coisas-mesmas Sempre tão próximas…. Sempre tão distantes…
Amo a Arte A mais nobre invenção do espírito humano Que a si tudo chama, Clama… Canta… Eterniza Epifaniza
Na mostração de um tempo outro O artista dá-se Na sua identidade Iluminatória
Um ente hábil Que tudo vê Que tudo acolhe Recolhe… Escuta Com as orelhas da Terra Em permanente grito de alerta, Contra as investidas tecnológicas, Contra os desequilíbrios ecossistemáticos, Contra as malhas Artimanhas do progresso Que sempre avança Sem auto-crítica E racionalidade…
Isabel Rosete 26/05/2007 (17.ooh)
ODEIO A HIPOCRISIAOdeio A hipocrisia A solidão das multidões Que crescem Em espaços vazios Dispersos Indiferentes…
O outro Ali apostado Atónito Num mundo que não é mais só seu
As viagens são múltiplas Os caminhos diversos Os do Ser e os do não-Ser Os do Nada…
A metamorfose A mudança Comandam o mundo
O Ser não permanece mais Na sua imutabilidade originária
As sombras As aparências Ofuscam o olhar Dos que querem ver A essência O miolo De um pão bolorento…
A identidade perde-se Somos o mesmo rebanho
Corremos na mesma direcção E já nada identificamos com precisão
A amalgama do mundo Corre nas nossas veias
Do caos faz-se a ordem Do império da Razão Transmutamo-nos Para o reino dos sentidos Holisticamente conjugados Numa teia emaranhada De sendas e vendas Num regresso à unidade primordial
Odeio O “politicamente correcto” A ausência de Ética… O falso puritanismo Dos não puritanos A pretensa intelectualização Dos pseudo-intelectuais Os rótulos existenciais Dos que ignoram a diferença Dos que lutam em prol da diversidade
Odeio Os que vivem da vulgaridade De um estar que não é o seu Os que ultrapassam As barreiras do humanismo
Odeio Os discursos retóricos As palavras que iludem a alma E que nada dizem
Esses discursos demagógicos Que ludibriam a Razão Que enternece os inocentes Com falsas promessa Sempre adiadas… Nunca cumpridas…
Odeio A guerra As matanças desenferadas Dos povos desprevenidos Dos que vivem em paz perpétua E não ficaram Para escrever outros opúsculos
Odeio O Mundo na sua prepotência Os estados totalitários Tirânicos Opressores dos oprimidos
Odeio A má fé Os sorrisos abertos Dissimulados Que aniquilam os outros
Odeio As gentes Que não sabem distinguir A realidade da aparência A sombra do arquétipo A cópia do modelo
As mentes transviadas, Eternamente transviadas Em pleno caos intelectual Em permanente desvairo Mergulhadas num espaço quadrado Onde todas as ideias Esbarram em todos os vértices…
Odeio As pretensas acções morais De todos os Narcisos Esquecidos dos deveres para com o outro
Odeio A Humanidade Pela ausência de solidariedade Para com as causas mais nobres, As menos vísseis Pela propaganda enganosa Que fez da caridade Um verdadeiro momento de glória…
Odeio… Odeio… Odeio tanta coisa… Neste Mundo que age Inconsciente Em nome de vã glória…
È tudo tão descartável Que os Homens já não sabem mais Qual o seu topos originário Há muito perdido No Labirinto do Minotauro Sem nenhum fio de Ariana Por perto…
Isabel Rosete
9/6/2007 (5.50h)
CONTRADIÇÕESContradições
Vivo o intenso desespero do ser e naõ-ser ao mesmo tempo, Do querer e do não querer, Do considerar que posso ser feliz, Mas ao mesmo tempo de me ver impotente Para alcançar essa felicidade, Tão desejada… Tão esperada… Eternamente vivida num tempo outro
Luto drasticamente contra mim mesma Para realizar os meus sonhos Ao mesmo tempo, Não sei se vale a pena
Estou farta de lutar contra mim, Contra o mundo que não me compreende E no qual não me integro
Sinto-me “atopos”, Quiçá, “Persona no grata”, Ao mesmo tempo que desejada, Amada, Odiada, Perseguida pela inveja, Pela tentativa de aniquilação dos outros Que me rodeiam, Sempre dispostos a destruir o meu sossego psíquico, O meu equilíbrio espiritual…
Mesmo assim, Permaneço, E Aqui estou…
Isabel Rosete, 17/01/2003 AMOAmo Não sei bem o que amo
Tenho medo de amar De voltar a sofrer De voltar a sonhar…
As ilusões crescem Quando se ama
Emerge A dor A insatisfação A insanidade e a insensatez A cólera… A presença ausente de um outro estado Sempre inacabado… Sempre adiado…
Caminhos que não conduzem A parte alguma Espreitam-nos no amor
Nos caminhos Que se bifurcam Perdemo-nos De nós Do outro…
Encontramos o desfiladeiro Assoma o vazio De uma alma deserta Dispersa Em con-fusão
Alienada pela adrenalina Que sobe Escorrega Desampara Inquieta…
O êxtase da alma É insuportável Em qualquer paixão
As mãos tremem Transpiram…
O coração Consome-se No seu ritmo Acelerado Incontrolável… Incontornável…
O estômago Já não se contém Com tanta ansiedade
Calafrios Pela coluna Sobem e descem
Tudo se move Tudo se transforma A um ritmo Desenfreado Imparável Desmedido…
Assim é o amor Força Que move e comove Despista Corrói…
Cego e surdo Táctil e visual Transporta-nos Para a realidade Do possível, Para o possível Do impossível Para o imaginável Do inimaginável, Para o sonho Do in-sonhável…
Para as correntes tumultuosas De um mar sem fim
Para o infinito Do próprio finito…
Para a alucinação Da sensatez…
Para a irrazoabilidade Do razoável…
Para o ilimitado De todos os limites, Conscientes Ou inconscientes…
Assim é o Amor, Uma força tremenda Gigantesca Arrebatadora Desmedida Enorme…
Dentro de um tempo redondo De um eterno retorno Do mesmo e do outro Com princípio e fim…
Isabel Rosete 26/05/20007
SÓ QUERO DORMIRSó quero dormir, Descansar os olhos Da vasta podridão do mundo, Um mundo que não é feito à minha medida
Paira o horror, O egoísmo, O des-humano, O tédio De uma existência animal, Instintiva E competitiva
O que vence não é o melhor, Mas o que parece ser mais apto Para aquela função, Forjada por compadrio
É a hipocrisia camuflada Que dita todas ad regras, As do ser e as do não-ser, As do parecer-ser, As do cheio e as do vazio
E, depois, falam de Ética! Mas que Ética, Se não estão mais presentes Os deveres para com o outro, E os deveres para consigo mesmo?
O falso Permanece nas relações humanas, Repletas de vãs e ilusórias aparências Aí plantadas, No domínio do sensorial, Do meramente visível
De olhos míopes, Somos incapazes de ver Para além do visível
De escutar os ultra-sons, De saborear, O amargo e o doce, Como instantes existenciais De um mesmo ser
De olhos e orelhas fechadas, Vagueamos tacteando, Procuramos todos os lugares, E nada nos satisfaz
Nada fixamos como seguro, A instabilidade corrói-nos
Mesmo assim, Ainda somos capazes de rir, Embora já não saibamos O que é um sorriso…
Caminhamos entre as multidões, Atónitos, Completamente perdidos, De nós e do Mundo
Somos nós e todos os outros E não somos nada Nem ninguém Ao mesmo tempo Permanecemos no glaciar da incógnita.
Isabel Rosete, 09/05/2007 (5h 50m) QUANTOS SÃO OS MISTÉRIOS DA ESCRITA
Quantos são os mistérios da escrita, No seio da imensidão do nosso universo linguístico
As pausas, Os silêncios, E sempre as palavras Que nos comovem ou, Simplesmente, Nos fazem explodir
Sentimos o enigma do mundo, Na sua dispersão e re-união
Uma inquietante estranheza inicial Coloca-nos na face dos mistérios Insondáveis, Da Natureza E do Homem
Ficamos atónitos O silêncio regressa, Apesar de toda a prosologia
Iniciamos a próxima viagem, Mais uma, Em todo o nosso peregrinar, Tão genuíno como o canto dos pássaros que, A todo o instante, Nos fazem escutar Os seus hinos de celebração da Terra, Que sempre acolhe os nossos passos, Tão pesados quanto a massa do Mundo
Caminhamos para uma nova era, Embora nunca saibamos, Exactamente, Para onde correm os rios
Os rios do “obscuro” de Éfeso Que nos doou essa maravilhosa metáfora Da sucessiva transformação De todas as coisas, Sempre outras, Sempre outras…
Sempre as mesmas, Num eterno retorno, Marcado pelos traços Da esmagadora infinitude… Isabel Rosete 27/o2/2007
AMAR É O DESESPERO DE UMA ALMA CARENTE
Amar é o desespero de um coração carente À procura da outra metade que o complete
Somos incapazes de nos completar a nós mesmos Precisamos sempre de um outro Qualquer um outro… Procuramos o outro de nós…
Essa terrível e eterna dependência do outro Que não conseguimos Encontrar em nós …
Que desgraça A do coração humano, Sempre em falta, Irremediavelmente só e despedaçado
Lamenta, Lamenta-se…
Não sabe estar só, Dialogar consigo mesmo
Encontra, No seu âmago, O vazio Do seu próprio preenchimento
Amar, É coisa dos homens Sem dúvida Desses seres solitários, Incapazes de percepcionar A solidão como outra forma de amor: O amar-se a si mesmo…
E isso não basta, A estas criaturas errantes?
Não Não basta… Nada basta…
Há sempre um mais e um depois, Que aflora Em todos os pensamentos, Até mesmo, Nos mais recônditos, Inconscientes….
Isabel Rosete 09/05/20007 (6.00h)
08 มิถุนายน PENSAR ABRIL
PENSAR ABRIL
I
Viva o 25 de Abril. Viva Liberdade.
Viva o Zeca que nos fêz acordar de uma longa noite de trevas. Viva a voz audaz de um povo, até então, calado e adormecido. Viva a consciência dessa voz que nos iluminou o futuro.
O futuro? Que futuro? O da politica demagógica? O da falsa democracia?
Viva o futuro que já não se silencia. Viva o futuro da expressão de todas as cores: rosa, laranja, vermelho, verde, amarelo…
Viva o eco de pensamentos outros, Do diálogo ou da conversa fiada, Da trama das ideologias e da teoria da inexistência das ideologias.
Viva o amor e a paz, sempre adiadas, Mesmo depois do fim da guerra colonial, Dos homens mutilados, Dos corações de mulheres despedaçados; Das almas das crianças órfãs, Que assim nas ceram à luz da promessa de uma nova idade.
Viva o 25 de Abril! Viva a Liberdade!
II
Vinte e cinco anos passados. Restam-nos as memórias dos horrores da Guerra, De uma sociedade que, em nome dos cravos vermelhos, Um dia ousou gritar: Liberdade.
Liberdade: Essa palavra de ordem que fez cair um Regime eternamente enraizado, Que arrancou, com todas as armas, a tirania dos pretensos opressores.
Liberdade: O sinal do dizer aberto, Há muito ocultado, pelo véu da falsa ordem, Há muito camuflado, sobre a tríade, Deus, Pátria e Família;
O sinal do dizer aberto, Há muito velado, nos meandros da paupérrima cultura de um povo, Que convinha manter ignorante, analfabeto … Em nome da ausência do espírito crítico, Da mente desperta e do pensar astuto.
Vinte e cinco anos passados. E aqui estamos nós, quiçá em uníssono, A comemorar, Com milhares de cravos vermelhos, O grande acontecimento da Liberdade.
III
Volvidos 25 anos. Já não somos os mesmos.
Avistamo-nos com um outro rosto; O rosto da política da integração europeia; Da integração comunitária, Da moeda única, Da adaptação ideológica.
O rosto, quiçá, da desintegração cultural é apátrida. O rosto, cuja voz, já não sabe cantar o hino nacional. O rosto, cujos traços e as cores, Já não são, talvez, Os da nossa bandeira.
Volvidos vinte e cinco anos. Já não somos os mesmos.
E o que somos, então? Um povo errante, Ainda e sempre no resto da cauda do mundo, Que outrora conquistámos, No preciso momento em que o perdemos.
Erguemos o Convento de Mafra, Com o ouro vindo do Brasil;
Edificámos a Torre de Belém E o Monumento das Descobertas, À custa de longas e saudosas lágrimas, Dos que sempre partiram E dos que sempre ficaram.
Qual Velho do Restelo se ousa, ainda, erguer? Qual Adamastor, povoa, ainda, os nossos mares? Quais ondas alterosas se erguem, ainda, desse imenso mar?
Isabel Rosete 24.4.1999
PENSAR
Pensar
Pensar é ver as estrelas, Que um dia, Desabaram sobre o tecto do Mundo.
Pensar é ler o além, tão esperado, Como desesperante, Face ao ministério do mundo, De que apenas temos sinais, Signos e vestígios de signos.
Vem o martelar da água salgada nas rochas, Que habitam as praias desertas; Essas, onde passam, De sobrevoo, As gaivotas E, por vezes, Os homens Em busca da serenidade Outrora perdida.
Deambulam pelas areias movediças, Autênticos palcos do mundo Onde constroem e destroem As suas próprias moradas.
Uma linguagem incompreensível Vocifera das suas próprias bocas, Com o sabor amargo Da vida não vivida Em terreno firme.
A vida, O trampolim, A barra olímpica Onde caminhamos em perplexos des-equilíbrios, Ao sabor do vento Que bole nossas pernas trôpegas, Como se mal tivéssemos começado a andar.
Nada se fixa no e sobre o homem. E se o mundo é composto de mudança, A metamorfose é o traço do viso desta humanidade, Que a ritmos triclitantes, Cresce dentro desse ser cheio de vazio que somos, Cada um de nós, Um dia rotulados de “animais racionais”, Pretensamente, Supostamente, Pensantes, Inteligentes, Portadores de um raciocínio lógico-discursivo, Hipoteticamente emersos do melhor dos mundos possíveis,
E, afinal, O que queremos de nós, Seres errantes?
E o que queremos do Mundo Que em torno de nós Se move A uma velocidade incomensurável?
Ou desfazemos essa aura de entes Onde fomos depositados, Um dia, Sem que o nosso querer Fosse chamado a opinar Sobre esse modo de existência de caos e de ordem Que, afinal, nos caracteriza, De que somos co-autores e co-produtos Voluntária ou involuntariamente?
Perdemos o rumo, O norte. Mas encontrámos o fio de Ariana Que comanda o nosso Destino. Destino? Mas que Destino? O de sermos uma humanidade emaranhada Nos nós da sua própria teia?
Ariana e a aranha Estão sobre a caução de um certo e mesmo invólucro, Tão opaco, como transparente, Tão sublime, quanto miserável.
E, apesar disso, Ainda podemos falar Da harmonia heracliteana dos contrários? Do caos criativo que, Quiçá, Gera a nossa própria ordem desordenada?
Definitivamente, Somos viandantes. Passageiros de múltiplas paragens, Sem lugar certo e determinado, Sem pátria, sem habitação, sem morada… Permanecentes metamorfoses de espaços de combustão, Do Tempo finitamente infinito, Que também nos domina, Enquanto temos a vã pretensão De o controlar pela minuciosa máquina Que o nosso pulso suporta, Sempre voltada Para os nossos olhos ansiosos De um tempo outro, Onde qualquer ideal possa ser consumado, De preferência, “ad eternum”.
Que ilusão, somos nós, Homens! Entes de palpites inconstantes No pulsar do mundo Que nunca adormece. Desse mundo inquieto, Por vezes, Turbulento, Que gira sobre nós próprios, Que nos faz mover Dentro e fora das nossas órbitas, No espaço debilitado da nossa condição De estritos seres de passagem, Em digressão, Sabe-se lá para onde…
Os pratos da balança Já não se equilibram mais. A medida certa acabou. A incerteza, A dúvida, É o paradeiro do nosso próprio caminhar Em terreno Irremediavelmente movediço, Ao mesmo tempo que estanque… Sempre nos prende as pernas, Sempre trava o nosso caminhar.
Que ilusão, a dos homens, Em querem ser senhores, Dominadores do universo, Físico e humano, Que escassamente habitam.
E o Mundo está aí. Permanece imutável, Na sua essência, Apesar de todas as investidas de uma humanidade, Sempre solitária Que acompanha o furor Das multidões em revolta, Contra o imposto pelas Instituições, Pela Natureza;
De uma humanidade que, Um dia, Alimentou a vã ilusão de Tudo manipular, De ser a gestora de um Universo que, Amiúde, Gosta de se esconder, Na sua mutabilidade camaliónica.
Isabel Rosete 19.01.2001
VAGUENADO...
Vagueando…
Pensar, morrer, amar, odiar, ou simplesmente vacilar. São estados existenciais de todos os humanos mergulhados num passado que, sempre, corrói.
Somos, eternamente, seres do passado e do presente. Meros instantes, momentos de cólera, de paixão e de compaixão. Seres mundanos e intra-mundanos que se excedem nos limites indeterminados do Universo. Nele nos movemos como pequenos pontos repletos de grandes desejos, de intensas ambições de marés imensas de ilusão, de utopias em que cremos, como se de realidades autênticas se tratassem.
Somos Prozac. Adrenalina pura. Sempre prontos a explodir.
Passeamos, calmante, pelos jardins das nossas cidades, esses jardins de pedra e de caminhos por onde vagueia o nosso imaginário, algures perdido… Mesmo transbordando de originalidade, somos tão comuns, tão mesquinhos, como todos os outros que se nos apresentam como inferiores e, até mesmo, indignos das nossas palavras, dos nossos gestos, por mais insignificantes que sejam. E aí estamos nós. Homens e mulheres, no gigantesco teatro do Mundo, cujo palco é a Vida, a nossa vida, marcada por uma azafama constante, não se sabendo bem em nome de quê, nem para quê… Habituámo-nos a viver em multidão. Perdemos a individualidade. Sabemos que já não vale a pena ser Narciso. Eco morreu longe. A sua voz de alerta não paira mais em derredor dos nossos ouvidos.
Somos todos os outros. Menos nós mesmos. Fixamos o infinito. E perdemo-nos dos outros e nós mesmos. Balbuciamos algumas palavras que, apenas, a nós, nos dizem respeito. Por vezes, também gritamos, bem alto, para que o Mundo inteiro nos ouça. Precisamos de extrapolar todo o sofrimento vivido e por viver. E aí somos o passado. Sim. O passado, mas lançados num futuro que vemos em sonho, alucinados, inquietos, como se tivéssemos a obrigação de controlar tudo. E como se o Tudo fosse ainda pouco. Como se declarássemos a morte ao Acaso, ao Fado, ao Destino.
Somos tão estranhos e tão complexos que mergulhamos, sempre atónitos, na tragédia que, a cada passo, criamos como traço central da nossa própria existência. Marcamos o passo e o compasso do nosso caminhar, mas a um ritmo tão irregular que nos perdemos no contra-tempo.
Somos o tabuleiro do jogo. Outras vezes as peças que sobre ele se deslocam, segundo a vontade dos jogadores, os outros de nós mesmos. E ainda por cima, escravos de tudo isto, como se o papel e a caneta tivessem a estrita e peremptória obrigação de serem os nossos fiéis confessores.
Somos tão estúpidos, tão bestiais… que fingimos não ver o que realmente vemos. Esse célebre pleonasmo, do “visto, claramente visto”, já não faz parte dos tramites da nossa consciência de animais com cio, de tarântulas voadoras, ou de qualquer espécie de aberração que deixámos, pelas nossas próprias mãos, que a Natureza, um dia, criasse. Iludimo-nos e pensamos que somos donos de tudo. Quando, afinal, nem sobre nós mesmos temos algum domínio digno de consideração.
Somos incapazes de perceber o estado da nossa própria humanidade, se é que este vocábulo, tantas vezes repetido, ainda tem algum sentido, algum conteúdo, explícito ou implícito, que nos possa falar. No entanto, continuamos, mesmo que nos vejamos despidos de tudo, desses traços de uma tal humanidade que há muito perdemos de vista, ou que a nossa vista já não alcança…
Meu Deus…! Como a nossa miopia cresceu nestas últimas décadas…! O “Homo Sapiens, Sapiens”, assim nos chamam, é, nos tempos modernos, o “Homo miupus”, aquele que não é capaz de ver para além do que a sua vista torna simplesmente visível na proximidade dos objectos.
Somos, amiúde, puros espectadores passivos, entes sem convicção de identidade própria e determinada.
Somo o que somos. Mas não sabemos o que somos…
Chegamos mesmo ao estado de objecto, entre outros objectos. Nada mais. Passamos por elementos de cálculo, de factura, de recibo, tão descartáveis como quaisquer outros materiais informes, peças de uso quotidiano que, marginalmente, vão excedendo e ascendendo…
Somos estádios de passagem; pequenos detritos do lixo cósmico; pedaços de meteoritos que se estilhaçaram; folhas de árvores caducas, a todo o momento espezinhadas nas ruas, nas praças, nas calçadas perpetuadas pelos passos das gentes…
Mas que tédio…! Que cansaço…! Que atrocidade esta coisa de ser humano entre milhões de ditos e re-ditos seres humanos.
Homem: transcende-te, de uma vez por todas. Passa ao outro de ti mesmo, esse que usa o verdadeiro rosto escondido por detrás do opaco véu do teu inútil viso. Ou, então, se te queres matar, mata-te de uma vez, depois de te esqueceres que és um existente envolto e impregnado em dilemas que te fazem rodopiar como um pião.
Homem: pára, escuta e cresce... Ouve os apelos do Mundo e da Terra que, mesmo martirizados por ti próprio, ainda alcançam o seu grito de alerta, em sinal de um advindo acolhimento, re-colhimento...
Homem: parte e rasga todos os horizontes, reais e possíveis. Só assim quebrarás com o passado, e encontrarás as réstias de um radioso dia…os traços de um tempo outro, ou de um outro tempo…de uma nova idade…de um novo amanhecer…de um outro re-nascer…
Isabel Rosete 24/12/2001
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