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27 มิถุนายน

OLHOS AZUIS

Olhos azuis cintilam na brancura rosada de uma face ainda imaculada.

São pedras preciosas inscritas no alvor da pureza de uma alma tão grande, capaz de se dar ao esplendor do próprio Universo.

 

Nos seus finos lábios sempre se rasga um sorriso luminoso, tão incandescente, quanto a mais bela das estrelas, deste céu que ainda nos cobre.

 

Que doçura inspira nos que a olham, na sua inocência de menina, tão pura, tão leve que, o mais ténue sopro, pode arrastar a seu espírito até às profundezas da Terra.

 

Sabe amar como ninguém.

 

Esses lindos olhos azuis fazem transparecer esse amor verdadeiro, em cada lento e terno pestanejar.

 

Azul do céu. Azul do mar. Azul da Lua…

Azul daquilo que se quiser…Azul do tudo e do nada…

Azul que, sempre, reflecte um singelo ser transparente, uma dádiva divina.

A infinitude do ser, do estar e do amar que lhe é próprio.

 

Azul dos espaços siderais.

Azul do infinito, do ilimitado de todos os horizontes.

Azul de todos os desejos, de todos os instintos, de todas as pulsões.

Azul de todos os amores, da esperança, do olhar fixo e profundo, que tudo olha e vê.

 

 

                                                                                                          Isabel Rosete

                                                                                                          9/1/2001- 3/7/2007

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

UMA ESPÉCIE DE SOSSEGO MUSICAL

Uma espécie de sossego musical

Desponta

Numa alma

Sempre aberta

A todos os Renascimentos

 

Sempre disposta

A partilhar

Com a alteridade

Os mais preciosos frutos

De cada amanhecer

 

Isabel Rosete

(8/3/99)

 

 

PROCURO A INOCÊNCIA E A BELEZA

Procuro a inocência e a beleza

Em cada amanhecer

Em cada olhar

Em cada gesto

Por mais simples

E singelo que seja

 

Procuro a paz

Em cada ente

Que cruza

O meu caminho

Tão errante

Como o das

Aves migratórias

 

Encontro o meu Eu

Permaneço

Em estado de graça

 

A tranquilidade assoma

O mundo

Avança

 

Escuto o canto dos pássaros

Tão virgem

Como a terra imaculada

 

Penso no infinito

Contemplo as estrelas

Que tudo iluminam

Até os meus passos

Em calçadas escorregadias

 

Desperdiço o afecto dos outros

Centro-me em mim

Nas minhas paixões

Vividas e por viver…

 

Uma ânsia de futuro

Do amanhã

De um tempo outro

 

Tudo corre em infinitas direcções

Num tempo e num espaço

Que me escapam

Mesmo que os viva

Assim

Tão intensamente

 

Quero o Universo em mim

O mundo não besta

É demasiado pequeno

Para comportar os meus desejos

 

Uma espécie de megalomania universal

Percorre todo o meu ser

Prenhe de pensamentos

De ideias

Claras e distintas…

 

Movem-se num espaço

Completamente aberto

Sem fronteiras

Sem limites

Sem freios

 

Sou completamente livre

 

O Universo espera-me

Em nome do reencontro derradeiro

Com o Uno primordial

 

Apolo toca a sua lira

Faz brotar o sonho

A ilusão

A medida

A aparência

O brilho

A forma….

 

Dionísio solta a embriaguez

O delírio

O êxtase

O instinto

A força selvagem das entranhas da Terra

Num único e majestoso canto

De celebração

Sem o comércio das palavras

Incapazes de dizer o indizível…

 

Resta o inefável

O enigma

O mistério,

O ante-cantar

Que as almas

Dignifica

 

Os sons

Vão e vêm

Se apossam

De todo o ente carente

À espera do sossego musical

Da magia inebriante da música

A arte das Musas

Que tudo atinge

Que tudo penetra

Até os tenebrosos rochedos

Do Cáucaso

Onde permanece Prometeu

Agrilhoado

O prudente

O previdente…

 

Aos homens

O fogo doou

Como sinal do seu amor

Qual espécie errante,

Bicéfala

Capaz das maiores proezas

E das mais cruéis atrocidades…

 

 

                                                                       Isabel Rosete

                                                                       31/o5/ 20007

                                                                       (7h.20m)

 

 

 

EM NOME DO AMOR

Em nome do amor

Navegámos por um mar longínquo

Encalhámos no cais mais distante

De nós de do mundo

Remámos contra a maré

E não nos encontrámos

 

Em nome do amor

Percorremos Serras e Montes

De uma altitude inimaginável

Caímos

E não nos levantámos

 

Em nome do amor

Caminhámos pelas estradas da vida

Nem sempre vivida

Com a felicidade que desejámos

Por vezes

Rimos

Por vezes

Chorámos

E ainda não nos encontrámos

 

 

Isabel Rosete

(17/3/99)

 

AMO O SOL

Amo o Sol

Tudo o que brilha

Numa intensa e vã agonia

 

As palavras soltam-se

Da minha boca

Como dados certeiros

 

Aos homens se dirigem

Visam o seu rosto

Dependurado na face do mistério

Nos terrores da guerra

Na s faces sanguinárias

De todos os opressores

Nos medos das gentes

Acabrunhadas

Maltratadas

Em nome de um tal dito progresso

 

Amo a Lua

E as suas diversas caras

As caras de todos os outros

Escondidas noutras faces

Ocultas

Veladas

Pesadas

Por vezes,

Serenas…

Marcadas pelas cicatrizes da vida

Que nada perdoa

Amarga e doce

Com espinhos

Aveludadas pétalas

Envolventes do nosso ser-aí

Inquietante

Medonho

Ordinário e Extra-ordinário

Descomunal

Vil

Monstruoso e pacificante…

 

Amo a Criatividade

Originalidade

De animais castradores…

 

A morte do outro

Apraz-nos bem

Engrandece o Ego

Sempre em busca de auto-satisfação

Mesmo que seja com a desgraça dos outros…

 

Quem disse que o homem

Nasce naturalmente bom?

 

Quanta ilusão

Quanta alucinação

 

Aparência,

Aparência da aparência…

 

O brilho de Apolo

Contra a lucidez dionisíaca

O imenso

A embriaguez

O instinto

O hiperbólico

A grandiosidade

Do “crescendo”

De todo o acto de criação…

 

Não

O artista não é um imitador

A arte não é mimésis

A arte dá-se no desflorar da verdade

No brilho da sua adveniência

Que é o Belo

 

Na plena libertação dos sentidos

E do sentir…

 

È matéria e forma

Talento e génio

O dizível e o indizível

O latente e o manifesto

O in-habitual

Uma outra mundividência

Que nos aliena do quotidiano

 

Uma dádiva epifânica

Que aí se mostra

E sempre nos fala

Do íntimo

Das coisas-mesmas

Sempre tão próximas….

Sempre tão distantes…

 

Amo a Arte

A mais nobre invenção do espírito humano

Que a si tudo chama,

Clama…

Canta…

Eterniza

Epifaniza

 

Na mostração de um tempo outro

O artista dá-se

Na sua identidade

Iluminatória

 

Um ente hábil

Que tudo vê

Que tudo acolhe

Recolhe…

Escuta

Com as orelhas da Terra

Em permanente grito de alerta,

Contra as investidas tecnológicas,

Contra os desequilíbrios ecossistemáticos,

Contra as malhas

Artimanhas do progresso

Que sempre avança

Sem auto-crítica

E racionalidade…

 

 

                                                                                  Isabel Rosete

                                                                                  26/05/2007

                                                                                  (17.ooh)

 

 

 

 

 

 

 

ODEIO A HIPOCRISIA

Odeio

A hipocrisia

A solidão das multidões

Que crescem

Em espaços vazios

Dispersos

Indiferentes…

 

O outro

Ali apostado

Atónito

Num mundo que não é mais só seu

 

As viagens são múltiplas

Os caminhos diversos

Os do Ser e os do não-Ser

Os do Nada…

 

A metamorfose

A mudança

Comandam o mundo

 

O Ser não permanece mais

Na sua imutabilidade originária

 

As sombras

As aparências

Ofuscam o olhar

Dos que querem ver

A essência

O miolo

De um pão bolorento…

 

A identidade perde-se

Somos o mesmo rebanho

 

Corremos na mesma direcção

E já nada identificamos com precisão

 

A amalgama do mundo

Corre nas nossas veias

 

Do caos faz-se a ordem

Do império da Razão

Transmutamo-nos

Para o reino dos sentidos

Holisticamente conjugados

Numa teia emaranhada

De sendas e vendas

Num regresso à unidade primordial

 

Odeio

O “politicamente correcto”

A ausência de Ética…

O falso puritanismo

Dos não puritanos

A pretensa intelectualização

Dos pseudo-intelectuais

Os rótulos existenciais

Dos que ignoram a diferença

Dos que lutam em prol da diversidade

 

Odeio

Os que vivem da vulgaridade

De um estar que não é o seu

Os que ultrapassam

As barreiras do humanismo

 

Odeio

Os discursos retóricos

As palavras que iludem a alma

E que nada dizem

 

Esses discursos demagógicos

Que ludibriam a Razão

Que enternece os inocentes

Com falsas promessa

Sempre adiadas…

Nunca cumpridas…

 

Odeio

A guerra

As matanças desenferadas

Dos povos desprevenidos

Dos que vivem em paz perpétua

E não ficaram

Para escrever outros opúsculos

 

Odeio

O Mundo na sua prepotência

Os estados totalitários

Tirânicos

Opressores dos oprimidos

 

Odeio

A má fé

Os sorrisos abertos

Dissimulados

Que aniquilam os outros

 

Odeio

As gentes

Que não sabem distinguir

A realidade da aparência

A sombra do arquétipo

A cópia do modelo

 

As mentes transviadas,

Eternamente transviadas

Em pleno caos intelectual

Em permanente desvairo

Mergulhadas num espaço quadrado

Onde todas as ideias

Esbarram em todos os vértices…

 

Odeio

As pretensas acções morais

De todos os Narcisos

Esquecidos dos deveres para com o outro

 

Odeio

A Humanidade

Pela ausência de solidariedade

Para com as causas mais nobres,

As menos vísseis

Pela propaganda enganosa

Que fez da caridade

Um verdadeiro momento de glória…

 

Odeio…

Odeio…

Odeio tanta coisa…

Neste Mundo que age

Inconsciente

Em nome de vã glória…

 

È tudo tão descartável

Que os Homens já não sabem mais

Qual o seu topos originário

Há muito perdido

No Labirinto do Minotauro

Sem nenhum fio de Ariana

Por perto…

 

Isabel Rosete

 

9/6/2007

(5.50h)

 

 

 

 

CONTRADIÇÕES

Contradições

 

Vivo o intenso desespero do ser e naõ-ser ao mesmo tempo,

Do querer e do não querer,

Do considerar que posso ser feliz,

Mas ao mesmo tempo de me ver impotente

Para alcançar essa felicidade,

Tão desejada…

Tão esperada…

Eternamente vivida num tempo outro

 

Luto drasticamente contra mim mesma

Para realizar os meus sonhos

Ao mesmo tempo,

Não sei se vale a pena

 

Estou farta de lutar contra mim,

Contra o mundo que não me compreende

E no qual não me integro

 

Sinto-me “atopos”,

Quiçá,

“Persona no grata”,

Ao mesmo tempo que desejada,

Amada,

Odiada,

Perseguida pela inveja,

Pela tentativa de aniquilação dos outros

Que me rodeiam,

Sempre dispostos a destruir o meu sossego psíquico,

O meu equilíbrio espiritual…

 

Mesmo assim,

Permaneço,

E Aqui estou…

 

                                                                      Isabel Rosete, 17/01/2003

AMO

Amo

Não sei bem o que amo

 

Tenho medo de amar

De voltar a sofrer

De voltar a sonhar…

 

As ilusões crescem

Quando se ama

 

Emerge

A dor

A insatisfação

A insanidade e a insensatez

A cólera…

A presença ausente de um outro estado

Sempre inacabado…

Sempre adiado…

 

Caminhos que não conduzem

A parte alguma

Espreitam-nos no amor

 

Nos caminhos

Que se bifurcam

Perdemo-nos

De nós

Do outro…

 

Encontramos o desfiladeiro

Assoma o vazio

De uma alma deserta

Dispersa

Em con-fusão

 

Alienada pela adrenalina

Que sobe

Escorrega

Desampara

Inquieta…

 

O êxtase da alma

É insuportável

Em qualquer paixão

 

As mãos tremem

Transpiram…

 

O coração

Consome-se

No seu ritmo

Acelerado

Incontrolável…

Incontornável…

 

O estômago

Já não se contém

Com tanta ansiedade

 

Calafrios

Pela coluna

Sobem e descem

 

Tudo se move

Tudo se transforma

A um ritmo

Desenfreado

Imparável

Desmedido…

 

Assim é o amor

Força

Que move e comove

Despista

Corrói…

 

Cego e surdo

Táctil e visual

Transporta-nos

Para a realidade

Do possível,

Para o possível

Do impossível

Para o imaginável

Do inimaginável,

Para o sonho

Do in-sonhável…

 

Para as correntes tumultuosas

De um mar sem fim

 

Para o infinito

Do próprio finito…

 

Para a alucinação

Da sensatez…

 

Para a irrazoabilidade

Do razoável…

 

Para o ilimitado

De todos os limites,

Conscientes

Ou inconscientes…

 

Assim é o Amor,

Uma força tremenda

Gigantesca

Arrebatadora

Desmedida

Enorme…

 

Dentro de um tempo redondo

De um eterno retorno

Do mesmo e do outro

Com princípio e fim…

 

 

                                                                       Isabel Rosete

                                                                       26/05/20007

 

 

SÓ QUERO DORMIR

Só quero dormir,

Descansar os olhos

Da vasta podridão do mundo,

Um mundo que não é feito à minha medida

 

Paira o horror,

O egoísmo,

O des-humano,

O tédio

De uma existência animal,

Instintiva

E competitiva

 

O que vence não é o melhor,

Mas o que parece ser mais apto

Para aquela função,

Forjada por compadrio

 

É a hipocrisia camuflada

Que dita todas ad regras,

As do ser e as do não-ser,

As do parecer-ser,

As do cheio e as do vazio

 

E, depois, falam de Ética!

Mas que Ética,

Se não estão mais presentes

Os deveres para com o outro,

E os deveres para consigo mesmo?

 

O falso

Permanece nas relações humanas,

Repletas de vãs e ilusórias aparências

Aí plantadas,

No domínio do sensorial,

Do meramente visível

 

De olhos míopes,

Somos incapazes de ver

Para além do visível

 

De escutar os ultra-sons,

De saborear,

O amargo e o doce,

Como instantes existenciais

De um mesmo ser

 

De olhos e orelhas fechadas,

Vagueamos tacteando,

Procuramos todos os lugares,

E nada nos satisfaz

 

Nada fixamos como seguro,

A instabilidade corrói-nos

 

Mesmo assim,

Ainda somos capazes de rir,

Embora já não saibamos

O que é um sorriso…

 

Caminhamos entre as multidões,

Atónitos,

Completamente perdidos,

De nós e do Mundo

 

Somos nós e todos os outros

E não somos nada

Nem ninguém

Ao mesmo tempo

Permanecemos no glaciar da incógnita.

 

                                                                       Isabel Rosete, 09/05/2007

                                                                       (5h 50m)

QUANTOS SÃO OS MISTÉRIOS DA ESCRITA

 

Quantos são os mistérios da escrita,

No seio da imensidão do nosso universo linguístico

 

As pausas,

Os silêncios,

E sempre as palavras

Que nos comovem ou,

Simplesmente,

Nos fazem explodir

 

Sentimos o enigma do mundo,

Na sua dispersão e re-união

 

Uma inquietante estranheza inicial

Coloca-nos na face dos mistérios

Insondáveis,

Da Natureza

E do Homem

 

Ficamos atónitos

O silêncio regressa,

Apesar de toda a prosologia

 

Iniciamos a próxima viagem,

Mais uma,

Em todo o nosso peregrinar,

Tão genuíno como o canto dos pássaros que,

A todo o instante,

Nos fazem escutar

Os seus hinos de celebração da Terra,

Que sempre acolhe os nossos passos,

Tão pesados quanto a massa do Mundo

 

Caminhamos para uma nova era,

Embora nunca saibamos,

Exactamente,

Para onde correm os rios

 

Os rios do “obscuro” de Éfeso

Que nos doou essa maravilhosa metáfora

Da sucessiva transformação

De todas as coisas,

Sempre outras,

Sempre outras…

 

Sempre as mesmas,

Num eterno retorno,

Marcado pelos traços

Da esmagadora infinitude…

Isabel Rosete

27/o2/2007

 

AMAR É O DESESPERO DE UMA ALMA CARENTE

 

Amar é o desespero de um coração carente

À procura da outra metade que o complete

 

Somos incapazes de nos completar a nós mesmos

Precisamos sempre de um outro

Qualquer um outro…

Procuramos o outro de nós…

 

Essa terrível e eterna dependência do outro

Que não conseguimos

Encontrar em nós …

 

Que desgraça

A do coração humano,

Sempre em falta,

Irremediavelmente só e despedaçado

 

Lamenta,

Lamenta-se…

 

Não sabe estar só,

Dialogar consigo mesmo

 

Encontra,

No seu âmago,

O vazio

Do seu próprio preenchimento

 

Amar,

É coisa dos homens

Sem dúvida

Desses seres solitários,

Incapazes de percepcionar

A solidão como outra forma de amor:

O amar-se a si mesmo…

 

E isso não basta,

A estas criaturas errantes?

 

Não

Não basta…

Nada basta…

 

Há sempre um mais e um depois,

Que aflora

Em todos os pensamentos,

Até mesmo,

Nos mais recônditos,

Inconscientes….

 

 

                                                                                              Isabel Rosete

                                                                                              09/05/20007

                                                                                              (6.00h)

 

 

 

 

08 มิถุนายน

PENSAR ABRIL

 

PENSAR ABRIL

 

I

 

Viva o 25 de Abril.

Viva Liberdade.

 

Viva o Zeca que nos fêz acordar de uma longa noite de trevas.

Viva a voz audaz de um povo, até então, calado e adormecido.

Viva a consciência dessa voz que nos iluminou o futuro.

 

O futuro?

Que futuro?

O da politica demagógica?

O da falsa democracia?

 

Viva o futuro que já não se silencia.

Viva o futuro da expressão de todas as cores: rosa, laranja, vermelho, verde, amarelo…

 

Viva o eco de pensamentos outros,

Do diálogo ou da conversa fiada,

Da trama das ideologias e da teoria da inexistência das ideologias.

 

Viva o amor e a paz, sempre adiadas,

Mesmo depois do fim da guerra colonial,

Dos homens mutilados,

Dos corações de mulheres despedaçados;

Das almas das crianças órfãs,

Que assim nas ceram à luz da promessa de uma nova idade.

 

Viva o 25 de Abril!

Viva a Liberdade!

 

 

II

 

Vinte e cinco anos passados.

Restam-nos as memórias dos horrores da Guerra,

De uma sociedade que, em nome dos cravos vermelhos,

Um dia ousou gritar: Liberdade.

 

Liberdade:

Essa palavra de ordem que fez cair um Regime eternamente enraizado,

Que arrancou, com todas as armas, a tirania dos pretensos opressores.

 

Liberdade:

O sinal do dizer aberto,

Há muito ocultado, pelo véu da falsa ordem,

Há muito camuflado, sobre a tríade,

Deus, Pátria e Família;

 

O sinal do dizer aberto,

Há muito velado, nos meandros da paupérrima cultura de um povo,

Que convinha manter ignorante, analfabeto …

Em nome da ausência do espírito crítico,

Da mente desperta e do pensar astuto.

 

Vinte e cinco anos passados.

E aqui estamos nós, quiçá em uníssono,

A comemorar,

Com milhares de cravos vermelhos,

O grande acontecimento da Liberdade.

 

III

 

Volvidos 25 anos.

Já não somos os mesmos.

 

Avistamo-nos com um outro rosto;

O rosto da política da integração europeia;

Da integração comunitária,

Da moeda única,

Da adaptação ideológica.

 

O rosto, quiçá, da desintegração cultural é apátrida.

O rosto, cuja voz, já não sabe cantar o hino nacional.

O rosto, cujos traços e as cores,

Já não são, talvez,

Os da nossa bandeira.

 

Volvidos vinte e cinco anos.

Já não somos os mesmos.

 

E o que somos, então?

Um povo errante,

Ainda e sempre no resto da cauda do mundo,

Que outrora conquistámos,

No preciso momento em que o perdemos.

 

Erguemos o Convento de Mafra,

Com o ouro vindo do Brasil;

 

Edificámos a Torre de Belém

E o Monumento das Descobertas,

À custa de longas e saudosas lágrimas,

Dos que sempre partiram

E dos que sempre ficaram.

 

Qual Velho do Restelo se ousa, ainda, erguer?

Qual Adamastor, povoa, ainda, os nossos mares?

Quais ondas alterosas se erguem, ainda, desse imenso mar?

 

 

 

                                                                                              Isabel Rosete

                                                                                              24.4.1999

 

PENSAR

 

Pensar

 

Pensar é ver as estrelas,

Que um dia,

Desabaram sobre o tecto do Mundo.

 

Pensar é ler o além, tão esperado,

Como desesperante,

Face ao ministério do mundo,

De que apenas temos sinais,

Signos e vestígios de signos.

 

Vem o martelar da água salgada nas rochas,

Que habitam as praias desertas;

Essas, onde passam,

De sobrevoo,

As gaivotas

E, por vezes,

Os homens

Em busca da serenidade

Outrora perdida.

 

Deambulam pelas areias movediças,

Autênticos palcos do mundo

Onde constroem e destroem

As suas próprias moradas.

 

Uma linguagem incompreensível

Vocifera das suas próprias bocas,

Com o sabor amargo

Da vida não vivida

Em terreno firme.

 

A vida,

O trampolim,

A barra olímpica

Onde caminhamos em perplexos des-equilíbrios,

Ao sabor do vento

Que bole nossas pernas trôpegas,

Como se mal tivéssemos começado a andar.

 

Nada se fixa no e sobre o homem.

E se o mundo é composto de mudança,

A metamorfose é o traço do viso desta humanidade,

Que a ritmos triclitantes,

Cresce dentro desse ser cheio de vazio que somos,

Cada um de nós,

Um dia rotulados de “animais racionais”,

Pretensamente,

Supostamente,

Pensantes,

Inteligentes,

Portadores de um raciocínio lógico-discursivo,

Hipoteticamente emersos do melhor dos mundos possíveis,

 

E, afinal,

O que queremos de nós,

Seres errantes?

 

E o que queremos do Mundo

Que em torno de nós

Se move

A uma velocidade incomensurável?

 

Ou desfazemos essa aura de entes

Onde fomos depositados,

Um dia,

Sem que o nosso querer

Fosse chamado a opinar

Sobre esse modo de existência de caos e de ordem

Que, afinal, nos caracteriza,

De que somos co-autores e co-produtos

Voluntária ou involuntariamente?

 

Perdemos o rumo,

O norte.

Mas encontrámos o fio de Ariana

Que comanda o nosso Destino.

Destino?

Mas que Destino?

O de sermos uma humanidade emaranhada

Nos nós da sua própria teia?

 

Ariana e a aranha

Estão sobre a caução de um certo e mesmo invólucro,

Tão opaco, como transparente,

Tão sublime, quanto miserável.

 

E, apesar disso,

Ainda podemos falar

Da harmonia heracliteana dos contrários?

Do caos criativo que,

Quiçá,

Gera a nossa própria ordem desordenada?

 

Definitivamente,

Somos viandantes.

Passageiros de múltiplas paragens,

Sem lugar certo e determinado,

Sem pátria, sem habitação, sem morada…

Permanecentes metamorfoses de espaços de combustão,

Do Tempo finitamente infinito,

Que também nos domina,

Enquanto temos a vã pretensão

De o controlar pela minuciosa máquina

Que o nosso pulso suporta,

Sempre voltada

Para os nossos olhos ansiosos

De um tempo outro,

Onde qualquer ideal possa ser consumado,

De preferência, “ad eternum”.

 

Que ilusão, somos nós,

Homens!

Entes de palpites inconstantes

No pulsar do mundo

Que nunca adormece.

Desse mundo inquieto,

Por vezes,

Turbulento,

Que gira sobre nós próprios,

Que nos faz mover

Dentro e fora das nossas órbitas,

No espaço debilitado da nossa condição

De estritos seres de passagem,

Em digressão,

Sabe-se lá para onde…

 

Os pratos da balança

Já não se equilibram mais.

A medida certa acabou.

A incerteza,

A dúvida,

É o paradeiro do nosso próprio caminhar

Em terreno

Irremediavelmente movediço,

Ao mesmo tempo que estanque…

Sempre nos prende as pernas,

Sempre trava o nosso caminhar.

 

Que ilusão, a dos homens,

Em querem ser senhores,

Dominadores do universo,

Físico e humano,

Que escassamente habitam.

 

E o Mundo está aí.

Permanece imutável,

Na sua essência,

Apesar de todas as investidas de uma humanidade,

Sempre solitária

Que acompanha o furor

Das multidões em revolta,

Contra o imposto pelas Instituições,

Pela Natureza;

 

De uma humanidade que,

Um dia,

Alimentou a vã ilusão de Tudo manipular,

De ser a gestora de um Universo que,

Amiúde,

Gosta de se esconder,

Na sua mutabilidade camaliónica.

 

 

                                                                                  Isabel Rosete

                                                                                  19.01.2001

 

 

 

 

VAGUENADO...

 

Vagueando…

 

Pensar, morrer, amar, odiar, ou simplesmente vacilar. São estados existenciais de todos os humanos mergulhados num passado que, sempre, corrói.

 

Somos, eternamente, seres do passado e do presente. Meros instantes, momentos de cólera, de paixão e de compaixão. Seres mundanos e intra-mundanos que se excedem nos limites indeterminados do Universo. Nele nos movemos como pequenos pontos repletos de grandes desejos, de intensas ambições de marés imensas de ilusão, de utopias em que cremos, como se de realidades autênticas se tratassem.

 

Somos Prozac. Adrenalina pura. Sempre prontos a explodir.

 

Passeamos, calmante, pelos jardins das nossas cidades, esses jardins de pedra e de caminhos por onde vagueia o nosso imaginário, algures perdido…

Mesmo transbordando de originalidade, somos tão comuns, tão mesquinhos, como todos os outros que se nos apresentam como inferiores e, até mesmo, indignos das nossas palavras, dos nossos gestos, por mais insignificantes que sejam.

E aí estamos nós. Homens e mulheres, no gigantesco teatro do Mundo, cujo palco é a Vida, a nossa vida, marcada por uma azafama constante, não se sabendo bem em nome de quê, nem para quê…

Habituámo-nos a viver em multidão. Perdemos a individualidade. Sabemos que já não vale a pena ser Narciso. Eco morreu longe. A sua voz de alerta não paira mais em derredor dos nossos ouvidos.

 

Somos todos os outros. Menos nós mesmos. Fixamos o infinito. E perdemo-nos dos outros e nós mesmos.

Balbuciamos algumas palavras que, apenas, a nós, nos dizem respeito. Por vezes, também gritamos, bem alto, para que o Mundo inteiro nos ouça. Precisamos de extrapolar todo o sofrimento vivido e por viver. E aí somos o passado. Sim. O passado, mas lançados num futuro que vemos em sonho, alucinados, inquietos, como se tivéssemos a obrigação de controlar tudo. E como se o Tudo fosse ainda pouco. Como se declarássemos a morte ao Acaso, ao Fado, ao Destino.

 

Somos tão estranhos e tão complexos que mergulhamos, sempre atónitos, na tragédia que, a cada passo, criamos como traço central da nossa própria existência.

Marcamos o passo e o compasso do nosso caminhar, mas a um ritmo tão irregular que nos perdemos no contra-tempo.

 

Somos o tabuleiro do jogo. Outras vezes as peças que sobre ele se deslocam, segundo a vontade dos jogadores, os outros de nós mesmos. E ainda por cima, escravos de tudo isto, como se o papel e a caneta tivessem a estrita e peremptória obrigação de serem os nossos fiéis confessores.

 

Somos tão estúpidos, tão bestiais… que fingimos não ver o que realmente vemos. Esse célebre pleonasmo, do “visto, claramente visto”, já não faz parte dos tramites da nossa consciência de animais com cio, de tarântulas voadoras, ou de qualquer espécie de aberração que deixámos, pelas nossas próprias mãos, que a Natureza, um dia, criasse.

Iludimo-nos e pensamos que somos donos de tudo. Quando, afinal, nem sobre nós mesmos temos algum domínio digno de consideração.

 

Somos incapazes de perceber o estado da nossa própria humanidade, se é que este vocábulo, tantas vezes repetido, ainda tem algum sentido, algum conteúdo, explícito ou implícito, que nos possa falar.

No entanto, continuamos, mesmo que nos vejamos despidos de tudo, desses traços de uma tal humanidade que há muito perdemos de vista, ou que a nossa vista já não alcança…

 

Meu Deus…! Como a nossa miopia cresceu nestas últimas décadas…! O “Homo Sapiens, Sapiens”, assim nos chamam, é, nos tempos modernos, o “Homo miupus”, aquele que não é capaz de ver para além do que a sua vista torna simplesmente visível na proximidade dos objectos.

 

Somos, amiúde, puros espectadores passivos, entes sem convicção de identidade própria e determinada.

 

Somo o que somos. Mas não sabemos o que somos…

 

Chegamos mesmo ao estado de objecto, entre outros objectos. Nada mais. Passamos por elementos de cálculo, de factura, de recibo, tão descartáveis como quaisquer outros materiais informes, peças de uso quotidiano que, marginalmente, vão excedendo e ascendendo…

 

Somos estádios de passagem; pequenos detritos do lixo cósmico; pedaços de meteoritos que se estilhaçaram; folhas de árvores caducas, a todo o momento espezinhadas nas ruas, nas praças, nas calçadas perpetuadas pelos passos das gentes…

 

Mas que tédio…! Que cansaço…! Que atrocidade esta coisa de ser humano entre milhões de ditos e re-ditos seres humanos.

 

Homem: transcende-te, de uma vez por todas. Passa ao outro de ti mesmo, esse que usa o verdadeiro rosto escondido por detrás do opaco véu do teu inútil viso.

Ou, então, se te queres matar, mata-te de uma vez, depois de te esqueceres que és um existente envolto e impregnado em dilemas que te fazem rodopiar como um pião.

 

Homem: pára, escuta e cresce... Ouve os apelos do Mundo e da Terra que, mesmo martirizados por ti próprio, ainda alcançam o seu grito de alerta, em sinal de um advindo acolhimento, re-colhimento...

 

Homem: parte e rasga todos os horizontes, reais e possíveis. Só assim quebrarás com o passado, e encontrarás as réstias de um radioso dia…os traços de um tempo outro, ou de um outro tempo…de uma nova idade…de um novo amanhecer…de um outro re-nascer…

 

 

                                                                                              Isabel Rosete

                                                                                              24/12/2001