Em seu estudo seminal As Funções da Linguagem em Psicanálise, Lacan menciona brevemente "a técnica conhecida como Zen" durante uma discussão sobre o analista decidir, espontaneamente, finalizar a sessão de análise. Em outro lugar, no mesmo trabalho, Lacan faz algumas outras referências à filosofia hindu. Elas são, igualmente, breves e enigmáticas1. Por que Lacan olha para o Oriente nesses momentos? Quem está olhando? O que é visto ou evocado? Por que esses fragmentos particulares da religiosidade oriental são citados nesse momento? Como eles estão colocados no texto? Que significado têm ou pode ser dado a eles?
Desviar o olhar para o oriente, convocando a religiosidade oriental, de repente, dentro da estória, não é peculiar somente a Lacan. Em meio a seu ensaio de 1929 sobre o surrealismo, Walter Benjamin, de maneira breve, mas dramaticamente, conta sobre seu encontro com alguns Lamas tibetanos, que estavam no mesmo hotel que ele, em Moscou.2. Isso expressou um momento surreal significativo para o mesmo, evocando um Tibete exótico ainda cheio de possibilidades mágicas.
Há uma estória completa, aqui, do ocidente contando sobre a religião tibetana, sobre as maneiras como esta foi convocada e incorporada por ele.3
Em 1939, em seu Comentário Psicológico sobre o Livro Tibetano da Grande Libertação, Jung escreveu: "ioga em Mayfair ou na 5ª Avenida, ou em qualquer outro lugar que tenha telefone, é uma fraude espiritual"4. Ele estava, por certo, fazendo uma advertência sobre os ocidentais adotarem, superficialmente, as idéias e práticas orientais, sem modificar seus próprios modos de vida. Contudo, posto que Jung estava tecendo comentários sobre um texto tibetano, é, de alguma forma, irônico que já em 1921, de acordo com os desejos do governo tibetano, Lhasa tivesse sido conectada por telégrafo, e que, em 1940, o Dalai Lama tivesse seu próprio telefone 5.
Por que Jung comentou sobre o telefone nesse momento? Como isso se localiza em seu texto? Que significados podem ser atribuídos a ele?
Poderia, simplesmente, ser dito que tais questões são triviais, que só estão espicaçando o opus de Lacan e de Jung. Mas, certamente, tal sentimento não pode ser sustentado em um texto psicológico, no qual os desvios da língua, ou os momentos de distração, ou de esquecimento, ou de ênfase exagerada, são usados como acessos para o inconsciente, para o mundo subterrâneo, em outra camada de metaforicidade.
Estou, particularmente, interessado nesses breves vestígios de outras estórias, que são revelados em fragmentos embutidos no texto mais amplo. Eles podem ser lidos como momentos de interseção, como se duas estórias estivessem cruzando seus caminhos. Como acontece com os desvios da linguagem, um outro nível de textualidade revela-se. Descobri que eles oferecem um modo valioso e provocativo de engajamento com corpos de idéias. Não somente estou interessado porque eles nos fornecem uma outra maneira de ler qualquer texto, mas, também, porque permitem uma outra maneira de estabelecer interfaces entre conhecimentos, entre diferentes modos de reflexão, não sendo meras tentativas de construir sínteses integradas. De fato, em outro momento de seu texto, Lacan, resumidamente, invoca as idéias de Jung - é claro, como um exemplo de erro em comparação com as de Freud - assim, tecendo outras interseções possíveis que esse trabalho começará a seguir e, algumas vezes, des-emaranhar.6
Muito de meu trabalho situa-se na interface entre estudos culturais, pós-modernismo e as psicologias dinâmicas. A questão de como vários conhecimentos se relacionam ou interagem com cada outro é, portanto, particularmente importante para mim. Também é uma questão crucial com a própria teorização pós-moderna, caracterizada pela fragmentação, pelo pluralismo radical, um desprezo pelas hierarquias da verdade - especialmente sob a luz de uma equação inevitável entre poder e conhecimento e, como Lyotard colocou, uma incredulidade com respeito a metanarrativas, ou uma oposição ao que Foucault chama de discursos totalizantes.
Da mesma forma que Lacan não está sozinho ao se referir ao Zen, Jung não foi o único a se referir ao telefone. Trata-se de um motivo difundido nos escritos do século XX, de Kafka a Freud. Ambos os trabalhos teóricos de Lacan e de Jung não são, também, os únicos a serem entrecruzadospor momentos de interseção. Na verdade, essa é a característica de todas as teorias. Agora, não se pode associar Lacan a um interesse pela religião oriental, assim como não se pode associar Jung a um profundo interesse por telefones. Da mesma forma, quando Freud fez sua famosa observação sobre o desenvolvimento psicológico em termos da drenagem do ZuiderZee, ou o seu uso do estabelecimento das reservas naturais para demonstrar a necessidade da fantasia como um lugar fora das demandas de planejamento e rotina, dificilmente acreditaríamos que ele estivesse profundamente interessado em planejamentos de cidades e do campo.
Há um número de respostas possíveis a tais momentos. Elas devem ser rejeitadas como meros embelezamentos triviais. Uma atitude já comentada anteriormente. Elas podem ser consideradas como necessidades desafortunadas em conceitualizações primitivas de qualquer ciência, mas que são removidas posteriormente. Por exemplo, Althusser sugeriu que o recurso de Freud da física termodinâmica de Maxwell, ou de Helmholtz, ou a completa hoste de imagens da antropologia à neurologia, eram uma simples "opacidade temporária"7. Tornar-se á óbvio que não apóio essa crença da purificação e de limpeza teórica.
A fim de compreender tais momentos, podemos nos voltar para uma peça de Tom Stoppard: Rosencrantz and Guildenstern are Dead. Esses dois personagens tem um papel crucial, embora menor, em Hamlet. Eles brevemente fazem sua aparição em momentos chaves da peça de Shakespeare. Em vez de seguir a estória de Hamlet, Stoppard segue a estória de Rosencrantz e Guildenstern. Em certos momentos, suas estórias, certamente, interceptam com a de Hamlet e, então, sua (de Hamlet) narrativa torna-se meramente um fragmento passageiro8.
Se seguirmos, não a narrativa de Lacan, mas a estória do modo pelo qual o Ocidente imaginou o Zen e a religião oriental no último século, então, Lacan entra de maneira fugaz, posteriormente na peça, como um personagem curioso, mas menor. Dessa perspectiva, não é surpresa que ele se refira ao Zen como uma técnica. O ocidente tem uma longa história de reduzir as religiões orientais à técnicas, desse modo privando-as de sua religiosidade e especificidade cultural. O Zen é, particularmente, suscetível a tal movimento pragmático e Jung preveniu contra isso. Em um nível mais profundo, Lacan invoca o Zen como uma voz autorizada para apoiar sua própria conclusão. Tal como um Senex benigno, ou Saturnino, a fantasia sobre a sabedoria oriental não é incomum, como escreveu na carta aberta de Antonin Artaud ao Dalai Lama: "Oh Grande Lama, dai-nos, favoreça-nos com suas iluminações, em uma linguagem que nossas mentes européias contaminadas possam entender, e, se for necessário, transforme nossa Mente..."9. A invocação do Zen por Lacan faz eco aos desejos ocidentais do século XX. Está, também, de acordo com as próprias teorizações de Lacan, enfatizando como realiza a Lei do Pai e como está fundada em uma metanarrativa rigorosamente sistemática e abstrata.
Similarmente, se, ao invés de seguir a narrativa do desenvolvimento da personalidade de Freud, nós traçarmos a estória do engajamento ocidental com a terra e com a colonização, suas observações formam um estrato menor, recente e geológico numa história que vai até as antigas civilizações. Tal história inclui interseções com numerosas outras estórias, incluindo as observações cruciais de Goethe ao final de Fausto, Parte 2, na reclamação da terra pelo mar10. Os comentários de Freud, também, ecoam de maneira curiosa com a estória contada pelos nazistas sobre sua própria colonização do oceano recentemente drenado por famílias "Arianas"11. Sua referência às reservas naturais também faz interseção com uma estória contínua sobre a luta para estabelecer e proteger áreas da natureza não prejudicadas, os cinturões verdes e parques nacionais, que passaram por uma fase crítica nesses anos entre-guerras.12
Esses momentos de Rosencrantz e Guildenstern perturbam o centro de gravidade do texto principal. Como se modificassem o lastro de controle em um navio, eles são capazes de invertê-lo, revelando seu bojo inferior. A filósofa feminista, Michegravele le Doeuff, por exemplo, sente-se insultada pela inabilidade de uma disciplina de refletir sobre seu próprio estrato metafórico, chamando a isso de seu "escândalo interno", sua "face vergonhosa"13. Derrida mostra como a "Mitologia Branca" " apagou nela própria a fabulosa cena que a produziu"14. Esses momentos refratários permitem o acesso a tais terrenos, facilitando a recuperação dessas cenas "fabulosas". Eles sugerem o poder da ornamentação (há muito considerada como mero embelezamento), de comentários a partir da margem, de ir contra aos desejos que o autor necessariamente deseja que sigamos. Tais momentos são cruciais e inevitáveis. Eles revelam o hibridismo essencial de qualquer texto ou teoria. Eles tecem isso em uma tapeçaria de outras conversas.
Voltando a Jung e o telefone, como podemos compreender tal referência enigmática? Talvez seja significativo que, justamente, trinta anos antes, em seu trabalho de 1907, A Psicologia da Demência Precoce, Jung tenha escrito o comentário psicológico mais antigo sobre o simbolismo dessa peça de tecnologia, então, relativamente nova.15
Poderíamos, portanto, inicialmente seguir a direção "junguiana" do texto. De tal perspectiva, os comentários de Jung sobre a ioga ocorrem em momentos cruciais, tanto em suas próprias lutas psicológicas individuais e no desenvolvimento de seu opus. Por exemplo, ele mesmo estava usando tais práticas como uma forma de estabilização psíquica16. Então, de novo, praticamente todos seus maiores escritos sobre a religião oriental foram empreendidos entre 1936 e 1944. Em 1936, quando seus primeiros trabalhos sobre budismo apareceram, Jung já estava maduro com 61 anos. Esses trabalhos sobre a religião oriental formaram uma ligação crucial entre suas primeiras idéias e a estrutura alquímica que dominou seu pensamento durante os 25 anos finais de sua vida17. Seus comentários densos e sofisticados sobre dois textos tibetanos, altamente esotéricos, formam o núcleo desse período de transição, quando Jung sentiu que seu caminho ia em direção a uma noção de poética mais rica ou de percepção imaginal.
Por outro lado, poderíamos seguir a estória do telefone. O estudo antigo de Jung, de 1907, alcançou o status de um clássico menor na psico-história do telefone e de seu impacto na imaginação ocidental. Tanto que ele pode ser consultado rapidamente nas páginas amarelas do Avital Ronell.18Uma tal estória sobre o telefone é, ela própria, meramente uma adição recente à narrativa contínua sobre a tecnologia e seu significado. Em seu caso clínico de 1907, os comentários de Jung sobre o telefone não são, certamente, tão contrários quanto aqueles que ele fez em 1939. Nesse primeiro trabalho, ele admite a realidade psicológica da fantasia do telefone de seu paciente, com suas mensagens irônicas, como uma forma de personalidade cindida19.
A situação é diferente no comentário tibetano e podemos ler sua observação como um momento de interseção no longo processo de fantasia do ocidente sobre as imagens exóticas de um Outro. Por exemplo, por volta da mesma época em que Jung estava fazendo seu comentário, outros também acharam que quaisquer associações entre os telefones e o Tibete seria insustentável. Um viajante murmurou: "O telefone! Não há nenhum lugar na Terra onde se possa estar protegido dessa maldição?"20 Ele, prontamente, dirigiu-se para o Tibete, alegremente ignorante da presença do telefone no centro da terra sagrada. Muitos ocidentais, desesperadamente, pareciam imaginar uma terra não conectada pelo telefone ou por outras formas modernas de comunicação. Os telefones estavam, por certo, totalmente ausentes da extraordinária fantasia popular de James Hilton, de 1933, de um Shangri-la Tibetano.
Portanto, paradoxalmente, enquanto emitindo avisos sobre a sedução esotérica de religiões orientais, Jung estava, ao mesmo tempo, reforçando uma polarização ingênua que existem no cerne das fantasias ocidentais sobre o Oriente e o Ocidente.
No comentário de Jung de 1939, o telefone torna-se um símbolo quintessêncial de uma aguda unilateralidade, a natureza extravertida da civilização ocidental, seu culto à objetividade e aos fatos, sua desconfiança da vida interior, sua perda de conexão com a animamundi, ou alma do mundo: "A extensão aparentemente universal e metafísica da mente foi, então, reduzida a um pequeno círculo de consciência individual"21. Ainda, em seu interesse de alertar sobre a fatal atração de opostos, assim como uma fascinação não-crítica ocidental pela espiritualidade oriental, Jung omite, muito rapidamente, a psicologia do telefone
Entretanto, no mesmo comentário, Jung faz uma observação crucial sobre outros aspectos da vida moderna: "Outrora, os homens chamaram de deuses desfavoráveis; agora, preferimos chamar a isso de neurose e buscamos sua causa na falta de vitaminas, em distúrbios endócrinos, em excesso de trabalho, ou no sexo"22, ou: "Em um nível primitivo, as pessoas temem as bruxas; no nível moderno, nós, apreensivamente, estamos atentos aos micróbios. Lá, todos acreditam em fantasmas; aqui, todos acreditam em vitaminas"23. Por que Jung não fez uma conexão similar entre a psique e o telefone?
Certamente, Evans-Wentz, o tradutor que trouxe os dois textos tibetanos que não chamou, apenas, a atenção de Jung, mas a do ocidente em geral, não era contrário a usar o imaginário da moderna comunicação de massa. Ele descreveu o sistema dos Lamas Tibetanos nos seguintes termos: "como de uma poderosa estação radio-difusora, dinamicamente carregada com forças de pensamento, os Maiores difundem através da Terra aquela Espiritualidade Vital que sozinha torna a evolução humana possível".24 O Mahatma de Madame Blavatsky, poderoso no Himalaia, guiando o destino espiritual da humanidade, provê um antigo e mais famoso exemplo da fantasia de comunicação ocidental com a sabedoria tibetana. A transmissão psíquica de longo alcance, a telepatia e as comunicações astrais foram noções comuns nessas últimas centenas de anos. Entre 1931/33 Jung, a despeito de ser sarcasticamente crítico da Teosofia Ocidental, insistiu que o "mito do mahatma ... longe de ser um nonsense, é ... uma importante verdade psicológica"25. Ele via nisso um modo no qual a psique lutou para encontrar caminhos apropriados para se comunicar com os ocidentais, com seu moderno mundo de globalismo e de novas tecnologias: é nossa psique, constantemente trabalhando para criar novas formas e forças espirituais.26
Quero sugerir que, para Jung em 1930, o telefone era muito similar a ioga oriental ou a meditação e, ao mesmo tempo, muito diferente. Ambos tratavam da comunicação íntima com um outro aparentemente distante: um, num suposto plano externo e o outro num, também suposto, plano interno. Como tais formas contrárias poderiam coexistir? Certamente, esse não é um problema novo. Por exemplo, segundo Paul Virilio, os teólogos do início do século XVII debateram se uma missa vista à distância por meio do telescópio era válida espiritualmente27. De fato, localizar-se nessa resumida interseção entre a discussão de Virilio sobre a geometria da cidade e a história da óptica e ontologia ocidental, poderia ela própria abrir-se a um panorama sedutor.
Em 1907, Jung, às vésperas de sua crucial colaboração com Freud, estava sinceramente interessado nas novas direções tomadas pela psicologia ocidental, estava ávido por defender a psicanálise e compreender o telefone de modo similar à telepatia, às sessões espíritas ou a outros fenômenos ocultos28. Era uma forma de comunicação com os fragmentos cindidos da personalidade. Entretanto, nos anos trinta, já tendo rompido com Freud, ele estava profundamente envolvido com as idéias do oriente e ansioso em defender as diferenças entre a espiritualidade oriental e a psicologia ocidental. Isso era decisivo em sua defesa contra os ataques de misticismo e ocultismo. Sem se dar conta de que poderia, de forma concreta, levantar seu fone e discar para o Dalai Lama, Jung acreditava que se deveria escolher entre apanhar o telefone ou apanhar o texto tibetano. Dentro de tal perspectiva, esses dois, simplesmente, não poderiam coexistir.
É claro, nós poderíamos dirigir nossa atenção para os comentários de Jung sobre vitaminas (somente descobertas em 1912) e localizá-las como um breve momento na psico-história da nutrição, da saúde e do emprego. Não somente isso é um desvio sedutor, como também ele nos tenta a especular sobre o porquê tanto as vitaminas como o telefone foram mencionados em um comentário sobre o budismo tibetano.
Essas são, apenas, umas poucas idéias num processo de desembaraçar um texto seminal de Jung, de revelar o quão poroso ele é.. Acredito que deveríamos, sempre que possível, evitar enredar-nos com um sentido narcísico do texto, de sua própria coerência e densidade. Além disso, trabalhando nas margens, ou através dos resquícios, ou permanecendo nas interseções, novas possibilidades são oferecidas no processo de revisar a historiografia das idéias de Jung.
Prosseguindo, o termo hibridismo é um conceito útil e através dele podemos contestar noções de pureza teórica29. Ambas as teorias de Lacan e de Jung, por exemplo, são híbridas e estão, completamente, permeadas por outras teorias. Elas são porosas às influências e às implicações dessas outras perspectivas. Tanto as idéias lacanianas, como as junguianas, não somente carregam os traços desses outros sistemas de conhecimento, ou de outras histórias, mas revelam que estão numa encruzilhada ainda muito utilizada. A noção de hibridismo sustenta um espaço dialógico entre grupos de idéias, aparentemente disparatadas, sem engolir umas às outras, ou se perguntar se são ou não compatíveis.
A noção de heterotopia chama a atenção para a espacialidade, a territorialidade e mesmo para a paisagem da teoria. Foucault escreve: "a heterotopia é capaz de sobrepor em um simples lugar real, inúmeros espaços, inúmeros locais que são, em si mesmos, incompatíveis. Assim, é isso que o teatro traz para o retângulo do palco, uma após outra, uma série inteira de lugares que são estranhos uns aos outros"30. A palavra teoria está diretamente relacionada a "teatro" e podemos imaginar uma teoria menos como uma lente, através da qual vemos o mundo, do que como um lugar a ser visto, como um local de exibição. O texto de Lacan e o comentário de Jung de 1939, então, tornam-se, não argumentos coerentes, mas teatros, nos quais toda uma série de processos de criação de imagens, de outra forma disparatados, ou até mesmo incompatíveis, possam ser exibidos.
Por esse motivo, gostaria de concluir sugerindo cinco maneiras de como esses momentos interruptivos podem ser imaginados.
Como acentuei por todo esse texto, eles podem ser imaginados como interseções, como momentos de Rosencrantz e Guildenstern, quando uma estória atravessa, com freqüência, uma outra. Em tais momentos pode-se parar de seguir a estória escolhida originalmente e, ao invés disso, voltar-se, de forma atenta, para um caminho inteiramente diferente do fantasiar.
A noção da teoria como teatro também abre uma outra possibilidade. O texto principal, então, torna-se menos uma narrativa linear do que uma mise-en-scene e muitas referências tornam-se personagens e lugares numa complexa e multifacetada exibição dramática.
Como fragmentos de outras estórias, esses momentos podem também ser imaginados geologicamente. A palavra "fragmento" pode ser, ao mesmo tempo, um substantivo e um adjetivo. Tais momentos, literalmente, fragmentam a coerência de qualquer texto. O "fragmento" está relacionado com "frágil", o que sugere fragilidade, o ser quebradiço, a delicadeza ou pontos fracos facilmente quebráveis em um texto. Geologicamente, esses momentos são como uma falha, ou um ponto de fratura, que revelam camadas invisíveis de metaforicidade mais profunda. Eles nos permitem acesso a um rico sentido do mundo inferior do texto.
Tal fratura pode também estar associada com o processo de refração31. Nesse caso, esses fragmentos não são imaginados como encruzilhadas, nem como irrupções geológicas, mas como um umedecimento que acontece na superfície do texto principal. Eles sugerem um tipo de orvalho frágil e delicado no argumento principal, que evapora rapidamente com o brilho de muito logos ou com a luz do sol. Dentro de tal fantasia, devemos manter nossa leitura úmida e clara. Mais que um fragmento do texto, essas camadas de orvalhos desviam e fragmentam nossa atenção, nossas leituras, nossas expectativas. Tal refração, como a criação de um arco-íris, revela a polivalência tanto de nossas leituras como do próprio texto. Finalmente, esses momentos podem ser imaginados como atritos, quando o texto dominante entra em atrito com outro, simultaneamente polindo e apagando, colocando em primeiro plano algum fragmento, realçando-o, enquanto que, ao mesmo tempo, oculta o terreno de onde veio32. O mestre Zen, por implicação, atritado pelo texto de Lacan, tornou-se uma relíquia, uma imagem atritada na vida simbólica por um século de diferenciação e repetição, uma reiteratio alquímica por um ocidente desesperado por guias inatacáveis de uma sabedoria última.. A imagem atritada transformou-se em vida sagrada. Uma profunda troca ocorreu entre o toque e o tocado, um delicioso, infinitesimal, apagamento mútuo: "da mesma forma como a compulsão à repetição ... tinha em vista nada mais que a temporalidade historicizante da experiência da transferência, também o instinto de morte essencialmente expressa o limite da função histórica do sujeito"33. O ponto de contato/troca resplandece enquanto o segundo plano desaparece nas sombras. Teorias que atritam. Estender para tocar, dar às partes brilhantes um atrito reafirmante criando palavras de poder. A segurança da repetição: "o passado em sua forma absoluta ... o passado que revela-se revertido em repetição"34. No ritual de troca novos vínculos são estabelecidos. Pontos de autorização são criados.
Como mencionei no começo desse trabalho, em certo momento de seu argumento, Lacan, rapidamente, traz Jung em seu texto para mostrar o erro de seu caminho e, então, nesse exato instante, sumariamente rejeita-o. Podemos ler isso como uma interseção, onde suas duas estórias momentaneamente se cruzam? Ou é aqui que Jung é dragado, sem cerimônia, para o teatro de Lacan somente para ser, como Rosencrantz e Guildenstern, (mal) usado e , então, assassinado? ("Assim o símbolo manifesta-se primeiro que tudo como o assassino da coisa, e sua morte constitui, no sujeito, a externalização de seu desejo"35). A invocação perversa de Jung por Lacan não teria tido efeito contrário revelando a fragilidade, o quebradiço, o ponto fraco geológico do próprio texto de Lacan? É um momento quando a secura do argumento de Lacan é gentilmente umedecida, um orvalhar refratário que subjuga nossa atenção para longe da pretendida direção de seu argumento e, contrariamente, desvia nossa atenção para a contínua disputa entre Freud e Jung? E, finalmente, seria esse um momento de atrito, quando, em nome do Pai (Freud ou o mestre Zen), Jung é simultaneamente invocado e destruído, friccionado e apagado? (Isso poderia até ser tomado positivamente por junguianos, pois, um personagem do mundo subterrâneo, em Breathless de Godard, concluiu que há somente duas opções: "você pode, ou ser entorpecido, ou ser apagado, e é melhor ser apagado"). Afim de assegurar que a memória de Jung não retorne a assombrar a nova turma do pedaço, o editor e tradutor de Lacan, Anthony Wilden, reforça a perseguição, desferindo um novo golpe ao proclamar Jung como um herege36. Ora, temos aqui um interessante ponto de interseção...
Dr. Peter Bishop é Professor Associado de Comunicação e Estudos Culturais na University of South Australia. Suas publicações incluem: The Myth of Shangri-la (Tibet, Travel Writing and the Western Construction of Sacred Landscape); The Greening of Psychology (The Vegetable World in Myth, Dream and Healing); Dreams of Power (Tibetan Buddhism and the Western Imagination); An Archetypal Constable (National Identity and the Geography of Nostalgia).
Esse trabalho é uma versão revisada de uma palestra acontecida no Centre For Psychoanalytic Studies, University of Kent, Inglaterra, 1994. Um extrato revisado dessa palestra foi publicado como Dialing Jung: Tibet, Vitamins and the Telephone, em Harvest (London), 40, 1994, pp. 77-83.
1 J. Lacan, The Language of the Self, Baltimore: The John Hopkins Press, 1968, p.80, 82, 152
2 W. Benjamin, On Way Street & Other Writings, London: NLB, 1979, p. 228
3 P. Bishop, Dreams of Power (Tibetan Buddhism & the Western Imagination), London: Athlone, 1993
5 P. Bishop, The Myth of Shangri-La em Tibet, Travel Writing & the Western Creation of Sacred Landscape, London: Athlone, 1989, pp. 213-4, 217
6 Lacan, The Language of the Self, p. 507. S. Freud, The Complete Introductory Lectures on Psychoanalysis, London: George Allen & Unwin, 1971, pp. 372, 544
7 L. Althusser, Lenin & Phylosophy, London: NLB, 1971, p. 191
8 T. Stoppard, Rosencrantz & Guildenstern Are Dead, London: Faber, 1967
9 A. Artaud, 1972, Anthology, San Francisco: City Lights Books, pp. 64-5
11 H. Brodrick, The Ditmarschen, The Geographical Magazine, Vol. III, nº 1, 1936, pp. 44-53
12 P. Bishop, An Archetypal Constable em Nation Identity & the Geography of Nostalgia, London: Athlone, 1995
13 E. Grosz, Sexual Subversions, London: Unwin Hyman, 1989, p. 187
14 J. Derrida, White Mythology: metaphor in the text of philosophy, em Margins of Philosophy, Hemil Hempstead, UK: Harvester-Wheatsheaf, 1982, pp. 207-271
15 C. G. Jung, Collected Works, Vol. 3, parágs. 309-313
16 C. G. Jung, Memories, Dreams, Reflections, New York: Vintage Books, 1963, p.177
17 P. Bishop, Dreams of Power, pp. 43-44; comentários de Jung e discussões mais recentes sobre os mesmos, podem ser encontrados em D. Meckel & ReMoore (eds.), Self & Liberation (The Jung/Buddhism Dialogue), New York: Paulist Press, 1992.
18 A. Ronell, The Telephone Book (Tecnology, Schizophrenia, Eletric Specch), Lincoln: University of Nebraska Press, 1989
19 C. G. Jung, Collected Works, Vol. 3, parág. 313
20 A. De Riencourt, Lost World: Tibet, Ke-V to Asia,London: Victor Gollancz, 1951, pp. 49-50
21 C. G. Jung, Collected Works, Vol 11, parágr. 767
27 P. Virilio, The Lost Dimension, New York: Semiotext(e), 1991, p. 60; ver também, S. Kern, The Culture of Time and Space, Cambridge, MA:Havard University Press, 1983, para discussões mais extensas sobre os interesses psicológicos na introdução de novas tecnologias de comunicação, tais como o telégrafo e o telefone
28 J. Kerr, A Most Dangerous Method, London: Sinclai Stevenson, 1994; para uma excelente discussão sobre a importância de tais fenômenos parapsicológicos para o estabelecimento das psicologias dinâmicas, ver S. Shamdasani, Introduction, From India to Planet Mars (1899/1901), by T. Flournoy, Princeton: Princeton University Press, 1994
29 H. Bhabha, The Commitment to Theory, New Formations, Nº 5, 1988, pp. 5-24
30 M. Foucault, The Order of Things, London: Tavistock Publications, 1980, pp. xvii-xviii
Os animais de poder na cultura nativa brasileira, Tatiana Menkaiká - 25/08/2005
A sacralização dos animais vem de época muito remota, onde a relação ser humano e animal se dava pela convivência próxima e a necessidade de sobrevivência. Essa proximidade instigou no ser humano a observação dos animais e a descoberta de similaridades no comportamento instintivo de ambos, estando, então, não somente ligados pelo fator sobrevivência, mas também a poderes mágicos e divinos.Assim, ser humano e animal, ocupando o mesmo espaço, estabeleceram vários tipos de relações, como a de caça e caçador, domesticação, guardiões e representantes das forças divinas e naturais.
Na mitologia nativa, bem como na arte, encontramos o desenrolar místico da relação ser humano-animal. As tradições ameríndias estão impregnadas de uma essência mítica trazendo até nós feitos de guerreiros, caçadores, tribos, curandeiros e suas relações com seres encantados, deuses, espíritos ancestrais e animais de poder.
Através das lendas podemos garimpar esses significados, trazendo à tona as jornadas criativas dos habitantes nativos do norte ao sul do Brasil. Essas jornadas trazem em seu cerne elementos que podem auxiliar-nos hoje na busca da compreensão do ser humano na sua totalidade, no nosso autoconhecimento, através da sua relação com os animais de poder e sua visão mágica de mundo.
Associando aos animais de poder certas manifestações divinas, encontramos na tradição oral Guarani, o Grande Espírito, Ñamandu, manifestando-se na forma de um colibri, capaz de ver a totalidade a partir do sutil mundo do espírito. A coruja também foi outra forma de sua manifestação. Como Coruja, o Pai-Mãe Criador na Noite Cósmica criou a Sabedoria.
Ainda, dentro do mito da criação Guarani, há uma nítida relação entre a serpente, eixo que rege a vida, e a coluna vertebral humana, sustento do corpo material e espiritual, a que os hindus chamam kundalini.
Os antepassados da tribo dos Panará, chamados de "os de antes" (suankyara), são uma combinação de ser humano e animal. São eles os responsáveis por darem nomes às coisas e aos homens.
Para os Yanomami da Amazônia e Venezuela, todo homem tem como seu duplo anímico um animal de poder, chamado de "duplo animal". Os animais também podem ser espíritos de ancestrais, que vivem nas florestas e que assumiram essa forma por terem comportamentos descontrolados ou fora de alguma regra social.
O folclore brasileiro ainda traz inúmeras descrições de animais com poderes peculiares, humanos com poder de assumir formas animais, amuletos, danças que imitam seus movimentos e sons. Temos o boto, o uirapuru, a sereia, o muiraquitã, a cobra grande, o boitatá, enfim, um grande universo místico e mágico a ser explorado além das fronteiras históricas e antropológicas.
Conectar com um animal de poder através de sua sabedoria de sobrevivência, comportamento e maestria é conectar com nossa própria essência e com as qualidades instintivas que tem o ser humano como parte da Natureza. Compreender a essência dessas criaturas é ativar nossa própria cura e conectarmos com o espiritual através de suas manifestações. A associação do ser humano com o poder totêmico de um animal o faz conhecer seu lado inconsciente.
Para complementar essa breve abordagem, dispusemos aqui alguns animais de poder e suas características segundo algumas culturas nativas brasileiras:
UIRAPURU - Pássaro raro, não se permite ver facilmente. Quando se mostra, sempre está disfarçado para que não o notem. Seu canto é inédito, mas é considerado de beleza rara e única. Traz paz e ao cantar todas as outras criaturas da floresta calam-se para ouvi-lo.
COLIBRI - Em geral, os seres alados são mensageiros entre os homens e os deuses por sua capacidade de voar em direção aos céus. O colibri é mensageiro do Grande Espírito, Pai-Mãe Criador. É sinal de proteção, expressão do sagrado e indício de caminho correto. Ágil, o colibri se manifesta trazendo sempre alguma orientação espiritual importante.
SERPENTE - A serpente é aquela que ergue a vida e cria a realidade, é o poder criativo, transmutador e nos faz conhecer valores profundos do ser. Para os Guarani, é o eixo por onde se ergue o ser humano, a coluna vertebral. Na sua base está o poder gerador de vida da Grande Mãe.
CORUJA - É a sabedoria. Tem a capacidade de ver o oculto e inconsciente. Conhecedora dos mistérios, ela permite-nos vencer o temor e aprender a qualidade da consciência do existir em todos os níveis e do fluir. Por ver na escuridão, sua qualidade também está no ultrapassar as limitações do perceptível, mostrando-nos a totalidade e as várias realidades, da qual o mundo material é apenas uma parte.
RÃ - É símbolo da fertilidade, abundância, união, tanto que foi representada por tribos do norte do Brasil em amuletos chamados "muiraquitãs".
ESCORPIÃO - Animal de poder muito importante encontrado na cerâmica de civilizações amazônicas, representa a proteção e a preservação da natureza humana ou animal. Está associado à capacidade de atacar quando ameaçado, sendo capaz de qualquer coisa para manter a sua integridade.
JABUTI - É um animal de grande longevidade. Suas qualidades estão associadas à esperteza, inteligência, paciência, tranqüilidade, atenção, fé, força e coragem.
PAPAGAIO - Assim como a arara, o papagaio é multicolor, transmite alegria e a força do arco-íris. Desperta a retórica, o saber falar e o quê falar. Pelo seu poder de comunicação, aproxima-se facilmente do homem. Pode ser considerado uma ponte entre o mundo dos pássaros e dos humanos.
ONÇA - A onça é deliberadamente solitária. É astuciosa, observa os movimentos da presa antes de atacá-la. Como qualidades desse animal, desperta o aprender a conviver consigo mesmo e a não depender dos outros para atingirmos objetivos. Ensina a conquista do nosso espaço, a cautela, o saber agir, a habilidade e a agilidade.
Uma alegoria é aquilo que representa uma coisa para dar a ideia de outra através de uma ilação moral. Um bom exemplo em português é-nos apresentado pelo Padre António Vieira: “Notai uma alegoria própria da nossa língua. O trigo do semeador, ainda que caiu quatro vezes, só de três nasceu; para o sermão vir nascendo, há-de ter três modos do cair: há-de cair com queda, há-de cair com cadência, há-de cair com caso. A queda é para as coisas, a cadência para as palavras, o caso para a disposição. A queda é para as coisas, porque hão-de vir bem trazidas e em seu lugar hão-de ter queda; a cadência é para as palavras, porque não hão-de ser escabrosas, nem dissonantes, hão-de ter cadência; o caso é para a disposição, porque há-de ser tão natural e tão desafectado que pareça caso e não estudo: Cecidit, cecidit, cecidit.” (Sermão da Sexagésima, V, Obras Escolhidas, vol.XI, Sá da Costa, Lisboa, 1954, p.222). Etimologicamente, o grego allegoría significa “dizer o outro”, “dizer alguma coisa diferente do sentido literal”, e veio substituir ao tempo de Plutarco (c.46-120 d.C.) um termo mais antigo: hypónoia, que queria dizer “significação oculta” e que era utilizado para interpretar, por exemplo, os mitos de Homero como personificações de princípios morais ou forças sobrenaturais, método que teve como foi especialista Aristarco de Samotrácia (c.215-143 a.C.). A alegoria distingue-se do símbolo (v.) pelo seu carácter moral e por tomar a realidade representada elemento a elemento e não no seu conjunto. Muitas vezes definida como uma metáfora ampliada, ou, como dizia Quintiliano, no Institutio oratoria, uma “metáfora continuada que mostra uma coisa pelas palavras e outra pelo sentido”, a alegoria é um dos recursos retóricos mais discutidos teoricamente ao longo dos tempos. A mesma correlação é estabelecida por Cícero no De Oratore, onde a alegoria é vista como um sistema de metáforas. Uma forma de distinguir metáfora e alegoria é a proposta pelos retóricos antigos: a primeira considera apenas termos isolados; a segunda, amplia-se a expressões ou textos inteiros. Na tradição grega mais antiga, uma aplicação possível da proto-ideia de alegoria é o ensino dos pitagóricos, cujo sistema filosófico, apoiado em relações numéricas simbólicas, contém associações de natureza alegórica. Tal acontece, por exemplo, na doutrina do dualismo essencial entre limite e ilimitado, que se funda na composição de dez pares de opostos, alguns alegóricos como Luz/Trevas e Bom/Mau. Regra geral, a alegoria reporta-se a uma história ou a uma situação que joga com sentidos duplos e figurados, sem limites textuais (pode ocorrer num simples poema como num romance inteiro), pelo que também tem afinidades com a parábola (v.) e a fábula (v.). Seja o exemplo seguinte de uma fábula de Esopo: “O leão e a rã”: Certa vez, um leão, ao passar perto de um pântano, ouviu uma rã coxear muito alto e com muita força. Dirigiu-se então na direcção do som, supondo que ia encontrar um animal grande e possante, correspondente ao barulho que fazia. Por isso, ao avançar, nem reparou na pequena rã e pôs-lhe a pata em cima. “Vê lá onde pões os pés!”, gritou a rã. O leão olhou, admirado, e disse: “Se és assim tão pequena, porque é que fazes tanto barulho?” Se substituirmos a rã por “o Orgulho” e o leão por “o Poder”, transformamos a fábula numa alegoria; se em vez da rã colocássemos “o Ministro Sem Pasta” e em vez do leão “o Pai Severo”, teríamos uma parábola, que esconde personagens reais por detrás de uma máscara alegórica. De notar que é usual na alegoria o recurso a personificações ou prosopopeias (v.), em especial de noções abstractas, prática muito comum sobretudo na literatura medieval. A decifração de um alegoria depende sempre de uma leitura intertextual, que permita identificar num sentido abstracto um sentido mais profundo, sempre de carácter moral. Dizer que a alegoria é um desenvolvimento de uma fábula pode não ser suficiente. Vejamos, por exemplo, o enigma da Esfinge, no mito de Édipo. A questão central é esta: «Qual é o ser que, tendo uma única voz, ora caminha com dois pés, ora com três, ou ainda com quatro, e que é tanto mais fraco quantos mais pés tiver?» Quando Édipo chega a Tebas, resolve o enigma, respondendo: «É o homem, que gatinha a quatro patas enquanto é criança, caminha erecto nas suas duas pernas quando é jovem, e se encosta a uma bengala na velhice.», a Esfinge, derrotada, suicida-se. O desenvolvimento da fábula da Esfinge grega depende de duas condições essenciais para se constituir como alegoria: não estar limitada a um fim didáctico, como todas as fábulas (sem a conclusão do enigma, a tragédia de Sófocles não poderia progredir); não jogar com a significação metafórica, isto é, não produzir mais do que uma leitura do sentido abstraído, porque é próprio da alegoria não fazer uso da ambiguidade ou da plurissignificação, sob pena de se perder a ilação moral procurada. Uma alegoria necessita de um certo imobilismo do sentido, facto que será utilizado, pelo menos até ao Romantismo, para governar de alguma forma certas interpretações de textos clássicos, estando em primeiro lugar a Bíblia. As primeiras exegeses alegóricas concentraram-se nas epístolas de S.Paulo, onde se compara a Igreja a uma noiva. Santo Agostinho contribuiu decisivamente para esta interpretação, na sua A Cidade de Deus (XVII, 20). A fábula da Esfinge torna-se alegórica apenas no acto hermenêutico, como acontece, aliás, com os textos bíblicos. Numa alegoria, é também necessário que as abstracções que determinam o sentido alegórico procurado sejam de imediata compreensão: o enigma da Esfinge é a história do drama existencial humano. Se introduzissemos algum dado que pudesse desviar o leitor desta conclusão, construiríamos uma metáfora e não uma alegoria. A linguagem alegórica não possui o mesmo dinamismo que a linguagem metafórica, que é susceptível de variações semânticas mais profundas, ao ponto de não suportar a repetição de um mesmo significado nem depender de significados pré-fixados. Em todas as alegorias das narrativas clássicas, podemos encontrar sentidos mais ou menos fixos em certas representações como os hieróglifos, por exemplo, cujas figuras obedecem sempre a um processo inalterável de descodificação: um olho simbolizará sempre Deus e um abutre designará a Natureza. Por outro lado, o entendimento das possibilidades significativas da alegoria só poderá ser alargado quando as exegeses não estiverem ao serviço de colégios hermenêuticos, mas sim do poder criativo de leitores descomprometidos. A longa história da literatura alegórica é também paralela à história das interpretações dessa literatura, que sempre tentaram fixar um sentido único. A abertura do sentido da alegoria é uma conquista apenas da teoria da literatura do século XX. Entre os exemplos clássicos de grandes alegorias, podemos apontar o mito de Orfeu e Eurídice como alegorias da redenção e da salvação; o mito da caverna na República de Platão, que, por um processo alegórico, mostra como a alma passa da ignorância à verdade (embora deva ser notado que Platão sempre se opôs às interpretações alegóricas dos mitos antigos como parte da educação dos jovens, porque “quem é novo não é capaz de distinguir o que é alegórico do que não é.” (República, II: 378d); as parábolas do semeador e do joio (Mateus, 13:1ss), que contêm matéria alegórica; O Asno de Oiro, de Apuleio, que recupera os mitos de Cupido e Psique; a Psicomaquia, de Prudêncio, que mostra o conflito entre a virtude e o vício na alma do crente, num texto que será estudado e imitado na Idade Média em toda a literatura teológica, numa época em que predominam as moralidades (v.) que se servem da alegoria para lições edificantes; a alegoria erótica que será recuperada pós-modernamente por Umberto Eco, Le Roman de la rose, começado por Guillaume de Lorris e concluído por Jean de Meung em c.1277, que personifica o Amor, a Virtude, o Vício, etc.; a Divina Comédia de Dante, a obra-prima das alegorias teológicas; Os Triunfos de Petrarca, que especula filosoficamente sobre o Amor, a Castidade, a Morte, a Fama, etc.; o Horto do Esposo, que apresenta a Sagrada Escritura através da imagem alegórica de um jardim maravilhoso; o Boosco Deleitoso, que narra a peregrinação da alma desterrada no mundo dos homens até Deus a chamar a si; todas as moralités francesas e as morality plays inglesas do século XV, a que podemos juntar o Auto da Alma de Gil Vicente, que recorre à alegoria para recontar a parábola do Samaritano em tom moralista; o Pilgrim’s Progress, de John Bunyan, alegoria da salvação de Cristo para traduzir a peregrinação terrestre do homem sujeito a provações para poder conquistar um lugar no Céu; The Faerie Queene, de Edmund Spenser, uma glorificação da rainha Elizabeth I; Absalom and Achitopel, de John Dryden, que usa personagens bíblicas para fazer sátira política; todas as figuras do Sermão de Santo António aos Peixes, de António Vieira, que incluem, por exemplo, o polvo como alegoria da hipocrisia e da traição; o Endymion, de John Keats e o Prometheus Unbound, de Shelley, embora sejam textos românticos de matéria simbólica, podem ser lidos como alegorias sobre o destino do poeta no mundo e a luta do homem pela sua própria liberdade, respectivamente; O Mandarim, de Eça de Queirós, que é inspirado nas alegorias renascentistas; O Doido e Morte, de Teixeira de Pascoaes, Jacob e o Anjo e O Príncipe com Orelhas de Burro, de José Régio e o Render dos Heróis, de José Cardoso Pires, são exemplos na literatura portuguesa do século XX; Between the Acts, de Virginia Woolf, Animal Farm, de George Orwell, Watership Down, de Richard Adam, O Processo e O Castelo, de Kafka são exemplos na literatura universal contemporânea. Até à Idade Média inclusive, a alegoria serviu de instrumento de defesa de teólogos, que recorreram às interpretações alegóricas da Bíblia para superarem todas as dúvidas heréticas. A própria Igreja foi muitas vezes referenciada na literatura teológica com nomes alegóricos como Cidade, Arca ou Aurora. Santo Agostinho ensinou que a Bíblia devia ser lida de forma alegórica: “No Velho Testamento, o Novo Testamento está dissimulado; no Novo Testamento, o Velho Testamento é revelado.”. Para o Autor de A Cidade de Deus, a alegoria não está nas palavras, mas deve ser encontrada nos acontecimentos históricos. Ao homem não é permitido o conhecimento literal e imediato das Escrituras, pois só por um sentido segundo o homem se poderá aproximar (mas nunca chegar totalmente) da Verdade divina. S. Tomás de Aquino estabeleceu uma distinção importante entre a alegoria teológica, que não é vista como um artifício retórico mas como uma visão do Universo, e a alegoria secular ou literária. Depois da escolástica, a teologia opta gradualmente por proceder a interpretações bíblicas que privilegiem o sentido literal das Escrituras. Mesmo na arte medieval, o processo de construção das grandes catedrais, como a de Chartres, por exemplo, obedece também a complicados esquemas alegóricos, pois acredita-se que tudo na Natureza significa algo mais do que o simplesmente observável. A distinção fundamental entre a alegoria e o símbolo foi estabelecida durante o Romantismo, em Coleridge no Statesman’s Manual (1816 ) e em especial com Goethe e Schlegel. Ao princípio de Schlegel que defendia que toda a obra de arte devia ser uma alegoria, começou Hegel por contrapor: “Isso só será assim se significar que toda a obra de arte deve representar uma ideia geral e implicar uma significação verdadeira. Ora, pelo contrário, o que nós aqui designamos com o nome de alegoria é um modo de representação secundária tanto no conteúdo como na forma e só de um modo imperfeito corresponde ao conceito de arte.” (Estética, trad. de Álvaro Ribeiro e Orlando Vitorino, Guimarães Eds., Lisboa, 1993, p. 226). De uma forma geral, podemos dizer que a crítica romântica da alegoria não é de carácter rigorosamente científico e rege-se mais por critérios de gosto de escola, embora tenha sido recebida com tal entusiasmo que ainda hoje a desconfiança com que se olha a alegoria como processo criativo pode dever-se a essa tradição. Goethe distinguiu assim os dois procedimentos retóricos: “A simbólica [die Symbolik] transforma o fenómeno em ideia, a ideia em imagem, e de tal modo que na imagem a ideia permanece sempre infinitamente eficaz e inatingível e, ainda que pronunciada em todas línguas, continuaria a ser indizível. A alegoria transforma o fenómeno num conceito, o conceito em imagem, mas de tal modo que na imagem o conceito permanece limitado e susceptível de ser completamente apreendido e usado, e pronto para ser expresso por essa mesma imagem.” (Máximas e Reflexões, trad. de José M. Justo, in Obras Escolhidas de Goethe, vol.5, Círculo de Leitores, Lisboa, 1992, pp.188-189). Goethe entende que o símbolo é dotado de maior amplitude de significação em relação à alegoria e chega mesmo a defender a tese de que a distinção entre ambos é a prova de fogo para qualquer aspirante a poeta. Esta posição está de acordo com o príncipio geral romântico que vê a alegoria como uma mera tradução de ideias abstractas, ao passo que o símbolo parte sempre de imagens poéticas para construir a sua significação final. É assim que Coleridge coloca a questão em Statesman’s Manual: “Hoje a alegoria não é mais do que uma tradução de noções abstractas para um quadro linguístico que em si próprio não é mais do que uma abstracção de objectos sensíveis; (…) Por outro lado, um símbolo (…) caracteriza-se por uma diafaneidade do particular no indivíduo, ou do geral no particular, ou do universal no geral. Acima de tudo, pela diafaneidade do eterno através do e no temporal.” (Samuel Taylor Coleridge, ed. por H. J. Jackson, Oxford University Press, Oxford, 1985, p.661). A discussão sobre as diferenças entre símbolo e alegoria continua no século XX, salientando-se as reflexões de Walter Benjamin, Martin Heidegger, Hans-Georg Gadamer e Paul de Man. Todos tentam, de uma forma ou de outra, estabelecer a conciliação de ambos os conceitos, que está negada pelos românticos. Walter Benjamin, em Ursprung des deutschen Trauerspiels (Origens do Drama Trágico Alemão, 1928), traz a alegoria para o campo exclusivo da estética. Partindo do sentido etimológico do termo, Benjamin viu a alegoria como a revelação de uma verdade oculta. Uma alegoria não representa as coisas tal como elas são, mas pretende antes dar-nos uma versão de como foram ou podem ser, por isso Benjamin se distancia da retórica clássica e assegura que a alegoria se encontra “entre as ideias como as ruínas estão entre as coisas”. Por isso Benjamin fala da alegoria como expressão da melancolia: “Quando o objecto se torna alegórico sob o olhar da melancolia, deixa escapar a vida, fica como morto, fixado para a eternidade. Assim se depara ao artista alegórico, a ele destinado para a glória ou infortúnio; quer dizer, o objecto é totalmente incapaz de irradiar sentido ou significado, apenas lhe cabendo como sentido aquele que o alegórico lhe conceda.” (Ursprung des deutschen Trauerspiels, R.Tiedemann, Frankfurt, 1963, p.204). O filósofo alemão distinguiu dois tipos de alegoria: a “cristã”, que se atesta no drama barroco e que nos dá a visão da finitude do homem na absurdidade do mundo, e a “moderna”, atestada na obra de Baudelaire, colocada ao serviço da representação da degenerescência e da alienação humanas. É importante a distinção que Benjamin faz entre alegoria e símbolo, recuperando a oposição romântica: a primeira, enquanto revelação de uma verdade oculta - ou “uma verdade escondida sob bela mentira”, na célebre definição de Dante, no Convívio -, é temporal e aparece como um fragmento arrancado à totalidade do contexto social; o símbolo é essencialmente orgânico. O exame da relação entre o simbólico e o alegórico no Romantismo alemão será continuado por Lukács, na sua Estética, em diálogo distanciado com Benjamin, investigando o conceito de alegoria à luz de um dos paradigmas marxistas: a ideologia. Heidegger estudou a natureza da obra de arte como sendo constitutiva de uma realidade alegórico-simbólica indivisível: “A obra de arte é, com efeito, uma coisa, uma coisa fabricada, mas ela diz ainda algo de diferente do que a simples coisa é, ‘allo agoreuei’. A obra dá publicamente a conhecer outra coisa, revela-nos outra coisa: ela é alegoria. À coisa fabricada reúne-se ainda, na obra de arte, algo de outro. Reunir-se diz-se em grego symballein. A obra é símbolo.” (A Origem da Obra de Arte, Edições 70, Lisboa, 1992, p.13). Na sua magnum opus, Wahreit und Methode (1960), Hans-Georg Gadamer estabelece as semelhanças entre alegoria e símbolo: ambos se referem a algo cujo sentido não consiste na respectiva aparência externa ou imagem acústica, mas numa significação que os supera; em ambos, uma coisa quer dizer outra. E conclui que a principal diferença reside no facto de o símbolo se opor à alegoria da mesma forma que a arte se opõe à não-arte. Paul e Man reapreciou também o debate romântico sobre a alegoria e o símbolo e, em Allegories of Reading (1979), apresentou as suas próprias leituras como alegorias, observando que o exemplo de Rousseau pode contrariar o senso comum que vê o Romantismo como a afirmação do símbolo em detrimento da alegoria. Paul de Man expõe a diferença entre ambos os termos desta forma: “Enquanto o símbolo postula a possibilidade de uma identidade ou identificação, a alegoria designa acima de tudo uma distância em relação à sua própria origem, e, renunciando à nostalgia e ao desejo de coincidência, fixa a sua linguagem no vazio desta diferença temporal.” (The Rhetoric of Temporality”, in Blindness and Insight, 2ª ed., Routledge, Londres, 1989, p. 207). O próprio exercício da teoria e da crítica literária se tem servido de processos alegóricos: Ruskin escreveu o tratado clássico Queen of the Air (1869), onde define o mito como uma história alegórica; as obras de Freud e Jung fizeram escola na interpretação alegórica de sonhos e mitos; os doze volumes do estudo comparado de religiões Golden Bough (1911-15), de James Frazer, fornece interpretações alegóricas de mitos primitivos que se tornaram referências fundamentais no género; Walter Benjamin, no ensaio “O narrador” (in Illuminationen, 1969), distingue alegoricamente dois tipos ideais de narrador: o marujo, que nos permite aproximar de lugares distantes e exóticos, e o velho camponês, que conta histórias antigas; Cleanth Brooks, em The Well Wrought Urn (1947), alegorizou todos os poemas que leu de forma a transformá-los em parábolas para a própria natureza da poesia; a chamada crítica arquetípica (v.) defende, como o faz Northrop Frye em The Anatomy of Criticism (1957), que toda a análise literária deve ser alegórica.
Bibliografia: A. D. Nutall: Two Concepts of Allegory (1967); A. Katzenellenbogen: Allegories of the Virtues and Vices in Medieval Art (1939); Angus Fletcher: Allegory: The Theory of a Symbolic Mode (1964); C. S. Lewis: The Allegory of Love: A Study in the Medieval Tradition (1936); Charles Hayes: “Symbol and Allegory: A Problem in Literary Theory”, Germanic Review, 44 (Nova Iorque, 1969); David Adams Leeming: Encyclopedia of Allegorical Literature (1996); Deborah L. Madsen: Rereading Allegory: A Narrative Approach to Genre (1994) e Allegory in America: From Puritanism to Postmodernism (1996); Dinko Cvitanovic et al.: Estudios sobre la expresion alegorica en España y America (1983); E. D. Leyburn: Satiric Allegory: Mirror of Man (1956); Edwin Honig: Dark Conceit: The Making of Allegory (1959); Flávio R. Kothe: A Alegoria (1986); Francis Fergusson: Trope and Allegory: Themes Common to Dante and Shakespeare (1977); Friedrich Gaede: “Allegorie”, in Dieter Borchmeyer e Viktor Zmegac (eds.): Moderne Literatur in Grundbegriffen (1994); G. Lukács: Ästhetic I. Die Eigenart des Äesthetischen (1963); G. P. Caprettini: “Alegoria”, in Enciclopédia (Einaudi), vol.31 (1994); Gerhard Kurz: Metapher, Allegorie, Symbol (1982); Hans-Georg Gadamer: “The Limits of Erlebniskunst and the Rehabilitation of Allegory”, in Truth and Method (2ª ed., 1993); Jean Charles Payen: “Genèse et finalités de la pensée allégorique au moyen âge”, Revue de Metaphysique et de Morale, 78 (1973); Jean Pépin: Mythe et allégorie: Les origines grecques et les contestations judéo-chrétiennes (1958); John Jr. Gatta: “Coleridge and Allegory”, Modern Language Quarterly, 38 (1977); John MacQueen: Allegory (1970); Jon Whitman: Allegory: The Dynamics of an Ancient and Medieval Technique (1987); Joseph-A. Mazzeo: “Allegorical Interpretation and History”, Comparative Literature, 30 (1978); Kevin Matthew Gavin: «Toward a Theory of Epic Forms: Mimesis, Symbol, and Allegory», Tese de Doutoramento, Univ. de Michigan (1994); Mark L. Caldwell: “Allegory: The Renaissance Mode”, ELH, 44 (Baltimore, 1977); Marlies Kronegger e Anna Teresa Tymieniecka (eds.): Allegory Old and New in Literature, the Fine Arts, Music and Theatre and Its Continuity in Culture (1994); Martin Heidegger: A Origem da Obra de Arte (1950); Maureen Quilligan: The Language of Allegory: Defining the Genre (1979); Michael Murrin: The Allegorical Epic: Essays in Its Rise and Decline (1980); Morton W. Bloomfield (ed.): Allegory, Myth, Symbol (1981); N. A. Halmi: “From Hierarchy to Opposition: Allegory and the Sublime”, Comparative Literature, 44, 4 (1994); Norbert Hopster: “Allegorie und Allegorisieren”, Der Deutschunterricht: Beitrage zu Seiner Praxis und Wissenschaftlichen Grundlegung, 23, 6 (1971); P. M. Bitsilli: “The Revival of Allegory”, TriQuarterly, 17 (Evanston, IL, 1970); Paul de Man: Allegories of Reading: Figural Language in Rousseau, Nietzsche, Rilke and Proust (1979) e “The Rhetoric of Temporality”, in Blindness and Insight: Essays in the Rhetoric of Contemporary Criticism (2ª ed., 1983); R. Hinks: Myth and Allegory in Ancient Art (1939); Robert Hill: “Pascal, de Man, and the Question of Allegory”, Cahiers du dix-septième, 6, 1 (Athens, 1992); Rosemond Tuve: Allegorical Imagery (1967); Stephen A. Barney: Allegories of History, Allegories of Love (1979); Stephen J. Greenblatt (ed.): Allegory and Representation (1981); Walter Benjamin: Ursprung des deutschen Trauerspiels (1928); Willi Erzgraber: “Zum Allegorie Problem”, LiLi: Zeitschrift fur Literaturwissenschaft und Linguistik, 30-31, (1978); William J. Kennedy: “Irony, Allegoresis, and Allegory in Virgil, Ovid and Dante”, Arcadia: Zeitschrift fur Vergleichende Literaturwissenschaft, 7 (1972); W. T. H. Jackson: “Allegory and Allegorization“, Research Studies, 32 (Pullman, WA, 1965).
[*] Este texto constitui a entrada sobre “ALEGORIA” do Dicionário de Termos de Teoria e Crítica Literária, que o Autor, professor da Universidade Nova de Lisboa, está a dirigir para a Editorial Verbo. O projecto conta com mais de 120 colaboradores portugueses e brasileiros e inclui mais de 1400 termos literários.
Qual é a tarefa da filosofia? Esta, no entanto, não é uma pergunta que se possa fazer antes de lidarmos com temas, problemas e argumentos filosóficos; não é possível explicar os procedimentos, métodos e técnicas filosóficas sem que um problema filosófico esteja em questão. Pois a filosofia (assim como a ciência) não é um corpo de saberes ordenados que podem ser trasmitidos: é, outrossim, uma prática... o exame das crenças enquanto crenças, dos significados enquanto significados.
Para nós, na vida comum, prática política e religiosa, inúmeros discursos funcionam como se apontassem para as coisas como elas são realmente. Wittgensteins certa vez escreveu: "Temos agora uma teoria (...) mas não se nos apresenta como uma teoria. O que caracteriza esta teoria é o fato de olhar para um caso especial e claramente intuitivo e dizer: 'isto mostra como as coisas são em cada caso; este caso é exemplar para todos os outros casos' --- 'Claro! Tem de ser assim', dizemos nós, e ficamos satisfeitos. Chegamos a uma forma e expressão que se nos afigura como óbvia. Mas é como se tivéssemos agora visto sob a superfície" (Zettel, par. 444). Há momentos em que todos nós devemos assumir que nossas crenças (gnoseológicas e morais) não são crenças, mas fatos que não necessitam de exame (exatamente porque não poderiam ser de outro modo senão assim), são evidentes, certos... reais. Há crenças, imagina-se, que não são produtos da imaginação e, por isso, não podem mudar ou falhar: as coisas são assim, não poderiam ser de outro modo;é evidente!
Este entusiasmo é ainda mais frenético quando estamos falando não sobre mesas e coisas banais, mas sobre o próprio modo de conhecermos, o modo da construção ou aquisição de crenças verdadeiras, o sentido primeiro das coisas, o fundamento geral da moral; ou seja, quando pensamos que estamos filosofando.
A filosofia, como a penso, principalmente no horizonte da guinada lingüística tem a tarefa de colocar as crenças, as teorias e os significados no único lugar que lhes cabe... exibindo-os, não mais, não menos, como simples crenças, teorias e significados. Ela combate nosso entusiasmo epistemológico e moral e não substitui uma crença má (falsa) por uma crença boa (verdadeira). Como dizia Peirce, não é honesto, por parte de um filósofo, tentar desfazer deliberadamente as crenças de ninguém. A construção e a mudança de crenças é uma tarefa de mulheres e homens (que nao são filósofas e filófosos).
A única contribuição a filosofia para a civilização é negativa: não há crenças verdadeiras nem crenças que podem vir a ser verdadeiras porque estamos mais próximos (com estas crenças) da realidade; existem crenças porque dominamos o sentido da verdade (sabemos o que necessário para uma crença ser verdadeira); as crenças são a medida do que tomamos por realidade.
Sim, realmente, há um mundo objetivo, real e concreto, mas jamais saberíamos disso se não estivéssemos conversando a propósito do mundo com outros que suponho serem como eu, mesmo que sejam de outra etnia. Mas para conversar sobre o mundo devemos dominar o sentido de falar com verdade sobre o mundo. A verdade (seja lá o que podemos endenter por ela) é a condição da conversa.
Há algo que não temos percebido na teoria traskiana da verdade: ela é uma teoria ponto a ponto, para cada frase de uma língua finita... Por isso não podemos definir o que é a verdade tout court. Só sabemos o que é, realmente, verdadeiro na conversa concreta com outros como nós, pois para ser compreendido pelo outro e para compreender o que o outro diz devo dominar as condições objetivas em que o que se diz é dito com verdade.
Há a não-verdade? Claro, mas para estar errado ou cair em falsidade, a mulher e o homem devem já estar de acordo com toda a humanidade em muitos aspectos.
Talvez, corrijo-me agora, a filosofia contribua ainda com outro coisa: a defesa irrestrita da democracia e da liberdade objetiva das mulheres e dos homens (seja lá o que isso signifique); o horror absoluto contra qualquer censura ou tortura. Por isso, penso, a teoria da ação é para onde desagua a filosofia contemporânea... enfrentar o dilema kantiano entre o determismo físico e a liberdade da vontade. O mundo "causa" nossas crenças, mas não as justifica, porque no mundo não há verdade (nem falsidade). Só nossas crenças (verdadeiras) podem justificar nosso agir e, no mais das vezes, já dizia Aristóteles, não podemos agir contra nossas crenças. Agimos contra as melhores razões e contra nossas melhroes crenças apenas numa situação, quando queremos mudar e inventar nossos mundos, donde a beleza indelével da poesia, da política e da religião.
Spinoza escreveu na Ética que "a verdade é norma de si mesma e da falsidade [veritas norma sui et falsi est]". É esta a verdade que interessa à filosofia; não a verdade de fato, mas a verdade patente... "la norme du vrai".
Humanidades em Foco: Revista de Ciência, Educação e Cultura
Ano 2 - Nº 2 - Mar/Abr/Maio de 2004Humanidades
A Filosofia e Sua Sombra
Resenha do livro de Nildo Viana "A Filosofia e Sua Sombra" Jacqueline Santana
Lançado pela editora "Edições Germinal", na cidade de Goiânia em 2000, o livro "Filosofia e Sua Sombra", escrito por Nildo Viana, apresenta uma introdução crítica à filosofia e discute até que ponto os estudos filosóficos têm sentido na sociedade contemporânea. Viana é filósofo, cientista social por profissão e marxista por opção. Para o autor, a filosofia possui um lado sombrio e reflete friamente sobre a realidade em que se vive. Desta forma, ele deixa claro que existem dois lados da filosofia e da explicação que ela faz da realidade. O autor tem a preocupação de apresentá-los na obra. Além de uma definição precisa de filosofia, encontra-se uma reflexão sobre a origem e desenvolvimento do estudo filosófico. Alguns dos principais temas filosóficos também são apresentados sinteticamente e de forma introdutória: natureza humana, ética, conhecimento e história. O livro é enriquecido com alguns textos que tratam de temas atuais, importantes e de grande interesse para a compreensão dos debates contemporâneos: Reflexões Sobre Ética; Da Impossibilidade do Relativismo; Os Limites do "Marxismo" Fenomenológico de Karel Kosik; Mao Tse-Tung: Dialética ou Estratégia do PCC?; Práxis, Alienação e Consciência; Foucault: Filosofia ou Fetichismo? Todos, com exceção dos dois últimos, são inéditos. Nada contra discutir esse tema, mas o fim da filosofia já foi anunciado tantas vezes que a questão já pode ser considerada repetitiva. Além do mais, não deixa de ser curioso o fato do autor ter usado apenas argumentos dos pensadores políticos Marx e Marcuse. Richard Rorty, o filósofo norte-americano, em Filosofia e o Espelho da Natureza (1979) também tentou "matar" a filosofia. O que esses autores ainda não perceberam, é que os estudos filosóficos não são hipóteses específicas reunidas numa doutrina teórica, mas sim um modo argumentativo de pensar o mundo e as ações humanas. A filosofia caracteriza-se como uma postura crítica frente às coisas percebidas pelo indivíduo e anunciadas por outras teorias. Assim, ao pregarem o "fim da filosofia" esses outros divulgam um crime falso, porque eles mesmos a mantêm viva, ao defenderem suas idéias com discurso que visa o entendimento das pessoas. Apesar de contraditória, trata-se de uma obra que deve ser lida e se tornar objeto de reflexão para todos os que querem fugir do senso comum e adquirir conhecimentos mais completos a respeito de questões fundamentais. O autor tem coragem de ser crítico, engajado, ativo, libertário em dias de conservadorismo extremo e de "espírito de rebanho" (Nietzsche). Já diziam os antigos filósofos: "O homem de bem exige tudo de si próprio; o homem medíocre espera tudo dos outros".